Crítica: O Homem Elefante


 

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Por Renato Mello.

Uma história popularizada para o grande público em tempos mais recentes graças ao cultuado filme de 1980, dirigido por David Lynch, mas que tem suas raízes no teatro através da peça escrita em 1977 por Bernard Pomerance, “O Homem Elefante”, ganhou agora no palco do Teatro Oi Futuro do Flamengo uma excelente montagem, com direção de Cibele Forjaz e Wagner Antônio a partir de um projeto idealizado pela Cia Aberta, numa temporada que se encerrará no dia 08 de fevereiro e que vem apresentando lotação esgotada todas as noites.

O texto teatral aborda a vida de John Merrick(Vandré Silveira). Nascido em 1862, sofria de uma terrível doença responsável por provocar o crescimento excessivo de seus ossos e tecidos, dando-lhe a partir de suas grotescas deformidades físicas a triste alcunha de homem elefante. Abandonado pela mãe ainda criança, passou parte da infância em orfanatos e a partir da adolescência sobrevivia de bicos em apresentações sofrendo as mais vis humilhações e escárnios, sendo explorado pelo Sr Ross(Daniel Carvalho Faria), que o apresentava como uma aberrante criatura num circo de horrores nas periferias das grandes cidades inglesas. Resgatado desse submundo pelo médico Dr Treves(Davi de Carvalho), que o acolhe num importante hospital londrino, transformando-o em alvo de seus estudos sobre anatomia e responsável por tentar lhe proporcionar um mínimo de dignidade humana. Passa a ser objeto de curiosidade de um extrato superior da sociedade, a aristocracia, que ao invés das humilhações, oferece a Merrick sua típica indulgência e piedade, tão importantes para que possam ficar em paz com suas consciências. Mas apesar de toda a polidez e aparência do novo mundo que passa a frequentar, Merrick vai percebendo aos poucos que jamais conseguirá ser um homem comum.

A encenação desse texto sem dúvida suscita enormes desafios para se resolver em cena, que vão desde meras questões de composição de personagens, quanto a carga de tormento que uma alma é capaz de carregar por sua vida e de que maneira conseguir transmitir tudo isso com a força e o impacto que o universo representado necessita.  É o tipo de texto em que é preciso uma montagem que ecoe fundo na sensibilidade do espectador. Sair do teatro indiferente representaria um enorme fracasso. Confesso que para início de conversa o diminuto(porém simpático) Teatro Oi Futuro pareceu-me inadequado para as exigências. Mas após assistir o espetáculo tive que reconhecer o quão errônea e tola foi minha superficial avaliação inicial, pois diante de mentes talentosas e criativas como os diretores e elenco, não seria o mero espaço físico que os impediria de realizar um espetáculo com tanta qualidade.

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Enquanto ainda estamos relaxados na cafeteria do espaço somos surpreendidos pela figura asquerosa do Dr Ross, que um a um, de mesa em mesa vai despertando os mais abjetos adjetivos sobre aquela figura. Dr Ross no convida para segui-lo por corredores, passagens, descidas de nível estreitas para a quantidade de pessoas, criando já uma atmosfera claustrofóbica e provocativa. Chegamos então num espaço ainda pequeno, todos comprimidos e esbarrando nos outros, enquanto aquele pilantra continua a nos prometer o que de mais grotesco iremos ver diante de nossas vidas. Em sua infinita sordidez tem a desfaçatez de elogiar por 2 vezes o vestido laranja de minha mulher(estaria o canalha cantando-a diante dos meus olhos?). A cortina se abre e somos convidados a tomar nossos assentos nas almofadas ou em cadeiras laterais. A partir de então dois espaços distintos de encenação, com o público localizado exatamente no meio deles, obrigando-nos a mudar permanentemente a posição de nossos corpos. Na parte baixa, o palco, onde temos o submundo, o circo dos horrores. No plano superior, acima das almofadas e cadeiras, um mundo de purificação da alma, da limpeza, um ambiente hospitalar. Deixando-nos no meio desses universos, fazemos parte de um purgatório que iremos durante 120 minutos julgar, nos horrorizar e apiedarmo-nos daqueles pobres diabos.

Para o êxito total da encenação há que se destacar as ótimas atuações de todo o elenco.

De Vandré Silveira, interpretando o Homem elefante John Merrick qualquer adjetivo menor do que arrebatador seria injustiça. Uma das melhores atuações que pude presenciar nos últimos tempos. Um trabalho fenomenal de expressão corporal, que consegue dar enorme veracidade ao ser deformado que interpreta, assim como seu trabalho facial e bastante digno de elogio também o trabalho vocal, emitindo com muita verdade sons guturais vindos do interior daquele pobre ser e que vai sendo amenizado no transcorrer da peça a partir do momento que seu personagem vai atingindo um desenvolvimento menos “animalesco”. O esforço físico que lhe é exigido, principalmente na última cena é de tal intensidade que ao se encerrar o espetáculo o ator está visivelmente exaurido fisicamente. Atuação magnífica!

Daniel Carvalho de Faria interpreta o picareta Dr Ross com extrema vivacidade, luminosidade e carisma(como todo bom pilantra). A medida que seu personagem perde força e vai saindo de  cena, com o ator passando a interpretar outros personagens menores, confesso que senti sua ausência, pois era bastante forte e conseguia carregar a ambientação, deixando com sua presença a sala mais sufocante e contraditoriamente mais fascinante.

Davi de Carvalho, o Dr Treves. Atuação correta e dentro a linha de retidão que seu personagem exigia. Seu personagem tem dentro de si uma grandeza e uma fé inabalável na ciência, trazendo dignidade para aquela figura humana tão maltratada pela vida que seu personagem traz para baixo de sua proteção.

Regina França faz vários papeis ao longo do espetáculo, mas seu ápice é a Sra Kendal, atriz famosa do fim de século inglês e que tenta enxergar o homem por trás da bizarra figura. Regina interpreta com grande competência e vivacidade.

É preciso principalmente tecer enormes elogios aos diretores Cibele Forjaz e Wagner Antônio. A dupla é responsável por um primoroso trabalho de criação e concepção, tirando proveito de cada espaço da sala de teatro e quebrando a parede entre público e espectador, transformando o Oi Futuro num espaço para uma experiência teatral de altíssimo grau de puro teatro. Uma direção de atores primorosa e que conseguiu levar o ator Vandré Silveira a encontrar uma verdade absoluta na sua interpretação. Importante também para a concepção cênica é a criação de luz realizada pelo próprio Wagner Antônio, que consegue surpreender permanentemente.

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Importante destacar a bela e competente cenografia de Aurora dos Campos, dividindo com perfeição em distintos ambientes um espaço que não é generoso em suas dimensões. Também merece elogios a criação das máscaras por vezes utilizada pelo personagem de Merrick, criadas por Jose Toro-Moreno.

Por fim, cabe-nos alertar aos leitores que a temporada de “O Homem Elefante” no Oi Futuro entra em sua parte final e deixo expressas minhas mais sinceras recomendações para esse excelente espetáculo.

Fotos de Cena: Rodrigo Castro.

FICHA TÉCNICA
Texto: Bernard Pomerance
Idealização: Cia Aberta
Encenação: Cibele Forjaz e Wagner Antônio
Assistente de direção: Artur Abe
Elenco: Daniel Carvalho Faria, Davi de Carvalho, Regina França e Vandré Silveira
Iluminação: Wagner Antônio
Cenário: Aurora dos Campos
Figurino: Valentina Soares
Direção musical e trilha sonora: Dr Morris
Identidade Visual: Balão de Ensaio
Ilustração: Antonio Sodré Schreiber
Fotografia: Vitor Vieira
Direção de produção: Paulo Mattos
Produção executiva RJ: Tamires Nascimento
Produção executiva SP: Paulo Arcuri
Operação de luz: Lívia Ataíde
Operação de som: Dominique Arantes

SERVIÇO
“O HOMEM ELEFANTE”
De 11 a 21 de dezembro/ De 2 de janeiro a 8 de fevereiro
Horários: Quinta a Domingo, às 20h
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia)*
Vendas: na bilheteria e no www.ingressorapido.com.br
Local: Oi Futuro
Endereço: Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo.
Classificação etária: 16 anos
Capacidade: 40 lugares
Duração: 2 horas
Gênero: Drama

*A meia-entrada é vendida somente com a apresentação da carteirinha e/ou documentos de identificação no ato da compra.
Funcionamento da Bilheteria
De Terça à Sexta, das 14h às 20h.
Sábados, Domingos e Feriados, das 14h às 20h.
Informações: (21) 3131.3060
Ingresso.com
Televendas: 4003-2330
INFORMAÇÕES À IMPRENSA
Astrolábio Comunicação


Palpites para este texto:

  1. Regina Cavalcanti -

    Espetáculo fantástico, resenha primorosa

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