Crítica: O Homem que Amava Caixas


 

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Por Renato Mello.

Mesmo que tivesse entrado com os olhos vendados no teatro, bastaria um punhado de tempo para me perceber diante de um espetáculo da Artesanal Cia de Teatro. O que difere os grandes criadores e os colocam num patamar superior é justamente isso, a construção de uma personalidade própria com a qual podemos distinguir claramente uma estética particular, além do desenvolvimento de uma linguagem e códigos únicos.  São elementos distintos que quando unificados geram um universo com um estilo muito bem definido. São mais de 20 anos fazendo do teatro infantil, um gênero muitas vezes desprezado pela própria classe, uma arte superior e se tornando referência para uma análise criteriosa por quem tiver o mínimo de interesse em saber o que foi feito importante nesse segmento nos últimos anos.

Lógico que quando entrei no Teatro Dulcina, na Cinelândia, sabia muito bem o que esperar. Um espetáculo do mais alto nível, mas sempre com a possibilidade de ser surpreendido. A Artesanal Cia de Teatro está se apresentando até o próximo fim de semana, dias 11 e 12 de julho na “Mostra de teatro Panorama Petrobras” com a peça “O Homem que Amava Caixas”, com direção de Gustavo Bicalho e Henrique Gonçalves.

Embora seja um espetáculo que já faz parte do repertório da Cia, original de 2011, tendo inclusive na ocasião ganho 2 prêmios Zilka Sallaberry, ainda não tinha tido a oportunidade de assisti-lo, o que graças a “Mostra Petrobras” pude finalmente fazê-lo.

O Homem que Amava Caixas” tem no livro homônimo de Stephen Michael King sua matriz, a partir da qual foi realizada a sua adaptação para o teatro. Sem utilizar recurso básico e essencial como o diálogo, o espetáculo aborda de modo extremamente poético a questão da incomunicabilidade no relacionamento entre pai e filho, que mesmo imersos num profundo amor mútuo procuram romper a barreira que impede o encontro do amor e afeto que possuem pelo outro.

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Para a construção da dramaturgia da montagem, são utilizados vários elementos que fazem parte do universo de criação da Artesanal Cia de Teatro, como a manipulação de bonecos, o uso de máscaras, uma trilha sonora minimalista, uma estética limpa, poucos diálogos(nesse caso, quase nenhum) e a utilização do silêncio como parte inerente à construção da atmosfera.  A direção de Gustavo Bicalho e Henrique Gonçalves é milimétrica, dando a impressão que cada passo ou movimento tem uma razão específica de ser, nada é gratuito em cena.  Gustavo e Henrique trabalham a busca da emoção aguçando diversos sentidos do espectador, seja na música, nos cenários, na iluminação ou mesmo no que não é dito. Os atores são conduzidos com segurança pelos diretores, dando-lhes uma grande amplidão artística.

O elenco é formado por Márcio Nascimento, Bruno Oliveira e Marise Nogueira.

É necessário dar reconhecimento a esse imenso ator chamado Márcio Nascimento. Multipremiado, admirado e reconhecido por seus pares. Apesar de todo reconhecimento, Márcio em cena despe-se de todas as vaidades que fazem parte da armadura do ator, fazendo do seu ofício um exercício pessoal de desenvolvimento como ser humano. Em “O Homem que Amava Caixas”, Márcio se apresenta quase que a totalidade do tempo utilizando uma máscara e sem diálogos. Em suma, sem contar com 2 dos principais instrumentos do ator: a expressão facial e a voz. Com apenas seu corpo como instrumento, demonstra na prática quanta emoção um ator pode exprimir utilizando tão somente a potencialidade de sua expressão corporal para atingir a mais uma atuação irretocável. Poucas coisas são tão emocionantes quanto assistir Márcio Nascimento inserido no universo da Artesanal Cia de Teatro. Confesso-me ansioso para vê-lo em “A Feira de Maravilhas do Fantástico Barão de Munchausen” em outubro(projeto exterior ao seu trabalho com a Artesanal).

Bruno Oliveira é outro excelente ator, que já tive a oportunidade anterior de vê-lo inserido no contexto da Artesanal(“A Lenda do Príncipe que Tinha Rosto”), igualmente um ótimo exercício de expressão corporal, e num outro totalmente diverso como a de uma dramaturgia que o desafiava a expor a angústia, os dilemas e as neuroses das relações humanas, no espetáculo “Assunto de Três”, do dramaturgo peruano Gonzalo Rodriguez Risco. No caso específico de “O Homem que Amava Caixas”, Bruno realiza em parceria com Márcio e Marise Nogueira um belíssimo jogo cênico, realizando uma interação e simbiose encantadoras, no mesmo nível de Marise Nogueira, atriz que tive pela primeira vez a oportunidade de assistir seu trabalho.

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Os cenários assinados por Karlla de Luca é formado por diversas caixas de cores neutras dispostas de forma uniforme diante de um fundo preto, gerando um resultado lindíssimo. Além da beleza estética possuem funcionalidade necessária ao desenvolvimento da história a qual está servindo, podendo se transformar em avião, castelo ou uma casa. Inteiramente de acordo com a proposta do espetáculo. Assim como igualmente bonitos e dando uma elegância aos atores são os figurinos criados por Fernanda Sabino e Henrique Gonçalves.

A iluminação que Jorginho de Carvalho costuma fazer nos espetáculos da Artesanal Cia do Teatro é sempre um espetáculo à parte, com um impacto visual lindíssimo. Quem viu, por exemplo “O Gigante Egoísta”, não teve como não se encantar pela coloração e pela disposição do jogo de luzes ali dispostos. Mesmo que seja mais discreto o trabalho neste espetáculo em relação ao “Gigante”, não deixa de ser mais um trabalho maravilhoso de Jorginho de Carvalho.

Por fim, cabe informar que Gustavo e Henrique, acabam de chegar da Alemanha após um período de alguns meses num processo de residência artística, que acabou por gerar o espetáculo adulto “Ludwig/2”, elogiadíssimo pela crítica daquele país e que aguardamos a oportunidade de vê-lo apresentado em palcos brasileiros. O êxito do desafio encarado por Gustavo e Henrique em palcos germânicos merece atenção especial, afinal ousaram abordar um personagem da história alemã para alemães. Fico imaginando como seria a reação se um diretor alemão fizesse um espetáculo sobre D Pedro I no Brasil e a quantidade de críticas afirmando que é estereotipado ou que não tem noção do que fala.

O Homem que Amava Caixas” é mais um grande espetáculo de uma Companhia que se notabiliza por fazer teatro infantil de alta qualidade e acima de tudo, com uma assinatura inimitável, por uma dupla de diretores que tem um conhecimento orgânico da arte teatral que os embasam a realizar voos únicos pelo imaginário infantil.

O Homem que Amava Caixas
Teatro Dulcina, Cinelândia
11 e 12 de julho

Autor: Stephen Michael King
Direção: Gustavo Bicalho e Henrique Gonçalves
Elenco: Bruno Oliveira, Márcio Nascimento e Marise Nogueira
Música Original e Desenho de Som: Daniel Belquer
Preparação Vocal: Débora Garcia
Direção de Mov. dos Bonecos e Prep. dos Atores: Márcio Nascimento
Prep. Corporal e Assessoria Técnica em uso de Máscaras: Marise Nogueira
Desenho de Luz: Jorginho de Carvalho
Figurinos (atores e bonecos): Fernanda Sabino e Henrique Gonçalves
Cenário e Adereços de Cena: Karlla de Luca
Bonecos: Alexandre Guimarães e Marcos Nicolaiewsky
Máscaras: Marise Nogueira
Identidade Gráfica e Programação Visual: Maurício Grecco
Fotografia: Jackeline Nigri e Jorge Etecheber


Palpites para este texto:

  1. Caro Renato, o que dizer diante de tamanha elegância?
    O seu entendimento sobre os espetáculos da Artesanal sempre me emociona. É de uma clareza, que parece que você acompanhou o nosso processo de criação.
    Muitíssimo obrigado em mais uma vez nos assistir.
    Em nome da equipe de criação da Artesanal, quero lhe agradecer e dizer o quanto é bom saber que o Rio de Janeiro conta com o seu olhar e sua atenção.
    Seja sempre muito bem vindo, Renato.
    Abração,
    Henrique Gonçalves

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