Crítica: O Jornal – The Rolling Stone


 

 

Foto: Kiko Mascarenhas

Foto: Kiko Mascarenhas

Por Renato Mello

A história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi, anunciará o que será”, escreveu Eduardo Galeano. O espetáculo “O Jornal – The Rolling Stone”, em cartaz até 25 de fevereiro no Teatro Poeira, comprova a capacidade do ser humano em ser pródigo ao longo de sua existência em girar para acabar retornando ao mesmo lugar, mesmo que a princípio aparente evoluir.

Com tradução de Diego Teza para texto original de Chris Urch, “O Jornal – The Rolling Stone” recebeu tratamento cênico de Kiko Mascarenhas e Lázaro Ramos para contar uma história que se passa numa Uganda (assustadoramente) contemporânea, em que a gravidade e urgência temática já podem ser mensuradas na própria leitura da sinopse oficial do espetáculo:

Conta a história de um amor proibido que acaba por afetar a vida e o destino de todos ao seu redor. Após a morte do pai, três irmãos – Joe, Dembe e Wummie – precisam reconstruir suas vidas. Joe(André Luiz Miranda) se prepara para ser reverendo enquanto Dembe(Danilo Ferreira) e Wummie(Indira Nascimento) estudam para progredir diante da desigualdade. Mas o destino seria fatal. Dembe conhece Sam e eles acabam se apaixonando. Condenados pela lei, pela sociedade e pela religião, eles terão de optar entre se separar ou arriscar a própria vida para viver esse amor.

Foto de capa do Jornal Rolling Stone

Capa do Jornal Rolling Stone

Inspirado em fatos reais “O Jornal” é uma alusão ao periódico ugandense “The Rollling Stone” que, em 2010, publicou uma lista com 100 nomes de homossexuais e incitou seus leitores a enforcar os mencionados. O fato seria repetido mais tarde em outra publicação, de 2014 , o “Red Pepper” que lançou nova matéria com 200 homossexuais do país africano – isto somente um dia após a revogação da lei anti-gay que permitia que cidadãos denunciassem gays sob pena de também serem punidos pela “omissão”. Vale dizer que embora a dita lei tenha caído, ainda hoje a homossexualidade continua a ser crime punível com prisão em Uganda.

É representativo o modo como o texto de Urch dialoga com uma peça escrita há 65 anos atrás, “As Bruxas de Salém”, de Arthur Miller, criada como uma denúncia da caça às bruxas realizada pelo macarthismo através de uma metáfora dramatizada e ambientada no século XVII.  Urch contextualiza esse mesmo comportamento humano para 2010, que pelo compasso da contagem de tempo da História, foi “ontem”. Não se percebe na dramaturgia resquícios de panfletarismo ou ideologismos, mas um tratado sobre tolerância, respeito e compaixão com o alheio ou com o que nos difere, que a tradução de Diego Teza consegue ressaltar com bastante clareza. Pequenas subdivisões narrativas são levantadas para compor um núcleo central de angústia, demonstrando o autor uma clara compreensão sobre o processo teatral pela maneira como amplia a carga dramática, como no tensionamento do silêncio de uma jovem muda(Marcella Gobatti) ou o ódio oportunista da pregação de Joe. Apesar de sua capacidade envolvente para emocionar, não se permite à condenações simplistas e definitivas para seus personagens, expandindo as possibilidades para enxergarmos a complexidade dos sentimentos dos personagens, seres desprovidos de escolher seus próprios rumos, como Dumbe em relação a sua sexualidade, Joe pela imposição social e tampouco Wunnie, que  vê o que lhe é mais caro se esfacelando, a família,  e ainda lhe roubam as perspectivas de  futuro quando é obrigada a largar os estudos para trabalhar como faxineira num hotel.

A direção de Kiko Mascarenhas, com codireção de Lázaro Ramos, constrói uma composição cênica que concentra todas as ações dentro de um círculo central, que possibilitou à representação um dimensionamento das ações. Os diretores demarcam com bastante eficiência gestos e intenções para os personagens, dando-lhes sentidos muito bem demarcados, num jogo de percepção, inteligência e medo que reverberam num movimento crescente para se constituir num dilema verdadeiramente trágico.

O elenco se apresenta num processo coletivo de extrema harmonia, em que todos os membros sustentam o equilíbrio dramatúrgico do espetáculo por personagens que recebem um delineamento de muita qualidade pelo autor e pelos diretores. André Luiz Miranda (Joe), Danilo Ferreira (Dembe), Heloísa Jorge (Mama), Indira Nascimento (Wummie), Marcella Gobatti (Naome) e Marcos Guian (Sam), sem exceção, apresentam boas atuações, utilizando-se individualmente de diferentes instrumentos para demarcarem suas dicotomias. Em André Luiz Miranda se destaca a gravidade com que comanda as ações com a modulação vocal, que mesmo nos momentos em que ganha tonalidades mais altas, a sensibilidade e insegurança interna são sutilmente exteriorizadas. Danilo Ferreira expõe com adequação todas as angústias e de um personagem perdido diante do turbilhão que lhe invade, seja por suas próprias dúvidas ou pressões sociais. Heloísa Jorge realiza uma interessante composição corporal e vocal para alcançar a essência de uma personagem que tem uma faixa etária maior que a sua. Indira Nascimento alcança ótima atuação no modo como explicita todos os seus medos interiores e na sutileza de quem tem a plena consciência de tudo que ocorre ao seu redor. Marcella Gobatti demonstra bastante expressividade para expor a dor de uma personagem muda, com habilidade para não resvalar em exageros ou estereótipos. Marcos Guian representa o sentimento do não pertencimento, do desencaixe por sua opção sexual num mundo de intolerantes e por ser um irlandês filho de ugandesa, no fundo nem irlandês e nem ugandense, como que plainando sem um rumo certo, mas privilegiado de poder ditar sua vida, sentimentos muito bem expostos pelo ator.

A cenografia de Mauro Vicente Ferreira trabalha com bastante sutileza, compondo a dramaturgia com eficiência, em especial a embarcação construída para algumas das mais interessantes cenas do espetáculo. Os figurinos de Tereza Nabuco muito bem contextualizados, trabalhando tecidos e formas, que contribuem para ressaltar contextos geográficos e sociais. A iluminação de Paulo Cesar Medeiros ressalta os momentos dramáticos com sensibilidade.

O Jornal – The Rolling Stone” é um espetáculo muito bem montado sob um texto que mais do que sua qualidade dramática, apresenta com bastante força toda a capacidade humana para uma intolerância irracional.

 

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Ficha Técnica
Texto de Chris Urch
Tradução de Diego Teza
Direção de Kiko Mascarenhas
Codireção de Lázaro Ramos
Com André Luiz Miranda (Joe), Danilo Ferreira (Dembe), Heloísa Jorge (Mama), Indira Nascimento (Wummie), Marcella Gobatti (Naome) e Marcos Guian (Sam)
Assistência de Direção de Ana Luiza Folly
Direção de Movimento de José Carlos Arandiba (Zebrinha)
Preparação Vocal de Edi Montecchi
Realização e Produtores Associados Lázaro Ramos e Kiko Mascarenhas
Produção KM ProCult e BR Produtora
Direção de Produção Viviane Procópio e Radamés Bruno
Produção Executiva e Administração Viviane Procópio
Assistência de Administração Jandy Vieira
Equipe de Produção Igor Dib, Milena Garcia e Diego Teza
Iluminação Paulo César Medeiros
Assistência de Iluminação Júlio Medeiros | Montagem de Luz Boy Jorge, Luíza Ventura, Fabiano Gomes, Vilmar Ollos e Rodrigo Emanuel
Operação de Luz Walace Furtado
Trilha Sonora Original Wladimir Pinheiro
Operação de Som Marcito Vianna
Estúdio de Gravação “DRS” e “FD”
Cantores Flavia Santana, Lu Vieira, Renato Ribone, Wladimir Pinheiro
Cenografia Mauro Vicente Ferreira
Assistência de Cenografia Rogério Chieza
Construção de Cenário Em Família Cenografia e Eventos
Adereços Mauro Vicente Ferreira
Figurinos Tereza Nabuco
Assistência de Figurinos Júlia Custódio
Costureiras Adélia Andrade e Severina da Silva Viana (Mainha)
Calçados Jailson Marcos
Assessoria de Imprensa de Antonio Trigo
Comunicação Web Urgh
Arte e Lay Out do Projeto Léo Dória / BR Produtora
Projeto Gráfico Novo Traço
Fotos de Estúdio Jorge Bispo

Serviço:
Teatro Poeira: Rua São João Batista, 104, Botafogo, Rio de Janeiro.
Bilheteria de terça a sábado, das 15h às 21h, e domingo das 15h às 19h. Tel. 21 2537 8053. Capacidade: 160 lugares.
Duração e classificação: 90 minutos / 14 anos

Quando? De 03 de novembro a 25 de fevereiro, de quinta a sábado. às 21h, e domingo às 19h, exceto feriados de Natal, ano novo e carnaval.

Ingressos? R$80 inteira e R$40 meia. À venda na bilheteria do Teatro Poeira ou por meio do site www.tudus.com.br.

Observações: Descontos de meia entrada previstos pela Lei e 20% de desconto do ingresso no valor de inteira para os clientes do Clube Eu sou + Rio

Mais informações e fotos
Trigo Comunicação


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