Crítica: O Menino que Brincava de Ser


 

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Por Renato Mello.

O teatro Cândido Mendes apresenta até o próximo fim de semana as últimas sessões da temporada de um espetáculo infantil repleto de predicados: “O Menino que Brincava de Ser”.

Adaptado e dirigido por Cleiton Echeveste a partir do livro homônimo de Georgina Martins, “O Menino que Brincava de Ser” é uma produção original de 2007 da Pandorga Companhia de Teatro. Importante ressaltar que a Pandorga faz parte de um rol de produtoras sobre as quais tenho louvado o modo como trabalham o teatro infantil. O fato de 8 anos depois de sua estreia manter ainda viva essa peça é uma prova de como a seriedade e a busca incessante pela qualidade dramatúrgica são fundamentais para a perenidade de uma obra através do tempo, evitando constantemente as tentações dos apelos fáceis de espetáculos fugazes, que infelizmente são tão comuns por aí e com capacidade de atrair uma legião de pais que saem da sala de teatro com o sentimento de que cumpriram sua obrigação de “iniciação à arte teatral”.  Além desse espetáculo, a Pandorga apresentou ainda em 2015 aquele que considero um dos 3 melhores espetáculos infantis do ano, “Juvenal, Pita e o Velocípede”, na qual ator Eduardo Almeida(produtor de “O Menino que Brincava de Ser”) realiza, na minha opinião, a melhor interpretação masculina deste ano no teatro infantil.

O Menino que Brincava de Ser”, segundo sua própria sinopse oficial “conta a história de três crianças durante o ensaio de um espetáculo de teatro que apresentarão em breve, no auditório da escola. E o texto escolhido para este espetáculo é “O Menino que Brincava de Ser”. De uma maneira lúdica e bem-humorada, numa grande brincadeira de meta-teatralidade, o espetáculo trata de questões presentes no universo familiar e escolar de toda criança: o respeito à diversidade, a busca da liberdade e do direito à livre expressão, o bullying, o questionamento de limites e padrões socialmente impostos e o lugar de afeto e apoio que a família e a escola devem representar para ela. Neste espetáculo a fantasia é um instrumento para educar, provocar e repensar conceitos.”

Pela leitura acima nota-se a quantidade de caminhos a percorrer com o intuito de abarcar e amarrar tantas questões. A construção da base dramatúrgica de Cleiton Echeveste não permite a diluição da narrativa e nem o esvaziamento do conteúdo, conseguindo manter o vigor da proposta através de um roteiro com a solidez fundamental para a estrutura cênica que dele se construiu. Atinge a profundidade no tom apropriado ao seu público para tocar em questões que podem mesmo ser controversas(talvez a mentalidade de alguns pais os levem a sentir incômodo, como pude testemunhar recentemente num outro contexto), mas temas absolutamente pertinentes, presentes e tratados de forma clara, com honestidade e de forma direta.

Um dos aspectos mais encantadores e cuja a qualidade dramatúrgica foi fundamental para seu êxito é o modo como Echeveste propõe uma brincadeira lúdica com seus atores, numa mutação constante de personagens em que todos interpretam cada um dos personagens. O modo como Echeveste conduz esse jogo consegue manter a delineação de cada personagem, independente de que ator esteja por baixo de sua pele. Realiza uma criação cênica de todo um universo utilizando poucos elementos, bastando uma arara de roupas, que com sua movimentação e o modo como se preenche, modifica contextos e situações, além de boas soluções na composição das cenas a partir das necessidades dramatúrgicas.

O elenco é composto por Giuseppe Marin, Leo Campos e Tatiana Henrique e na proposta de “O Menino que Brincava de Ser” o jogo cênico entre os atores é mais intenso que de costume, pelo próprio rodízio nos personagens, pois no momento em que finda um personagem começa o outro, sem que se perceba uma alteração brusca nas  sutilezas e características de cada um deles, algo que só pode ser atingido com uma sintonia muito afinada e um perfeito entendimento da proposta, com a necessidade de cada ator despir-se de suas “vaidades” naturais como atores em prol de um projeto de atuação coletiva. O trabalho de Jan Macedo na preparação corporal ganha enorme relevância diante do que foi apresentado pelos atores para uma homogeneidade corporal de distintas características físicas.

Tecnicamente o teatro Cândido Mendes apresenta alguns desafios estruturais permanentes. Mas com artistas tão criativos na Pandorga em sua concepção cênica, foi possível supera-los utilizando pouquíssimos elementos para a construção da ambientação necessária para se contar essa história, desde a já mencionada arara de roupas, acrescido do desenho de luz pensado pelo sempre competente Tiago Mantovani, além dos excelentes figurinos de Daniele Geammal, fundamental para compor tantos personagens em distintos corpos. A arregimentação de distintos elementos por Echeveste compuseram um espetáculo sólido em sua concepção e com uma dramatização que consegue atingir o riso infantil sem perder sua capacidade de aprofundamento.

Para quem é um apaixonado por teatro infantil, como eu, assistir um espetáculo da Pandorga é um enorme prazer, pois existe a certeza de que nos depararemos com artistas que dignificam o seu ofício numa entrega para oferecer o melhor da arte teatral para o público infantil.

Foto: Renato Mangolin

FICHA TÉCNICA
Espetáculo inspirado no livro homônimo de Georgina Martins
Dramaturgia e Direção Cleiton Echeveste
Elenco: Giuseppe Marin, Leo Campos e Tatiana Henrique
Stand in: Jan Macedo
Figurino Daniele Geammal
Cenário Pandorga Companhia de Teatro
Trilha Sonora Original Gustavo Finkler
Preparação Corporal: Jan Macedo
Iluminação Tiago Mantovani
Montagem de luz: Ricardo Lyra Jr.
Operação de Luz Ricardo Lyra Jr. e Hebert Said
Projeto Gráfico Fernando Nicolau
Assistência de produção: Lucimar Ferreira
Produção André Roman e Eduardo Almeida
Realização Pandorga Companhia de Teatro, Pita Produções e AR Produções

O MENINO QUE BRINCAVA DE SER
Teatro Cândido Mendes
Endereço: Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema
Temporada: 03 de outubro a 1º de novembro
Dias e horários: Sábados e domingos, às 17h
Informações: (21) 2523-3663
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)
Duração: 55 minutos
Classificação etária: Livre
Recomendação etária: crianças a partir dos 6 anos
Lotação: 102 lugares


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