Crítica: O Misantropo


 
Foto: Aliança Francesa

Foto: Aliança Francesa

Por Renato Mello

Beira o absurdo o ineditismo nos palcos brasileiros de “O Misantropo”. Uma prova inequívoca do abismo aberto na sedimentação de nossa formação cultural.  A sua 1ª montagem nacional cumpre temporada na Arena do Sesc Copacabana até dia 7 de maio.

Encenado originalmente em 1666, esse texto de Molière dividido em 5 atos satiriza a aristocracia francesa por suas fraquezas morais. Após o banimento de seus textos imediatamente anteriores, “Tartufo” e “Dom Juan”, Molière subjugou sua proposta original para torná-la mais palatável à sensibilidade da nobreza, impondo uma dubiedade no caráter do personagem principal, Alceste. Ao invés de um delineamento heroico por seus rígidos padrões morais, percebe-se a  tolice em suas visões idealistas e irrealistas sobre a sociedade. Apesar das concessões, “O Misantropo” não foi bem recebida, mas tinha entre seus maiores entusiastas Jean-Jacques Rousseau, que o considerava como a melhor obra do autor francês, apesar de expressar publicamente que odiava o modo como Alceste era representado como um néscio e que o público deveria apoiá-lo ao invés de lhe depreciar.

O Misantropo” descreve o comportamento antissocial de Alceste, que se recusa a ser cúmplice da engrenagem que move as relações da corte francesa, com sua “politesse” e a hipocrisia do falso “honnête-homme”, optando por excluir-se da vida social acreditando que ninguém em seu redor tem a estatura moral dos seus princípios. Apaixona-se por Célimène, jovem viúva, vaidosa e que habita um mundo de frivolidades que ele tanto despreza.

Com tradução e adaptação de Washington Luiz Gonzales e direção de Marcio Aurelio, propõe uma visão contemporânea ao transpor o enredo para sociedade brasileira, localizando-a no apartamento cobertura de Célimène(Paula Burlamaqui), que conforme descreve sua própria sinopse oficial, o lugar em que “amigos, familiares e amores dessa dama da sociedade se reúnem para confraternizar, beber, dançar, comer e…falar da vida alheia!”. Os textos de Molière se prestam à perfeição para esse tipo de adaptação pela maneira como constrói um leque de arquétipos sociais que se mantém plenamente atual.

Algumas interferências que irrompem a concepção cênica prejudicaram aspectos da proposta. Independente dos méritos que igualmente possui.

A adaptação de Marcio Aurelio busca elevar-se através da eloquência dos diálogos, despindo o palco de arena de maiores elementos cenográficos, que se limitam a cadeiras acrílico dispostas em função da proposta cênica, assim como sincretiza conceitos, que embasam o processo de composição dos personagens. Essas opções resultam num espetáculo que em distintos momentos acaba interrompendo a fluência narrativa, por vezes mesmo em momentos que se inclinava para deslanchar. O desenvolvimento dramatúrgico apresenta-se com eficiência, pontuando coerentemente as motivações dos personagens principais, porém personagens coadjuvantes acabam deslocados dentro do desenho de cena, que num teatro com o formato do Sesc exige alguns caprichos adicionais.

4 - 4.3 - Celimene (Paula Burlamaqui) e Acacio (Alexandre Bacci)

Washington Luiz(Alceste) expõe com correção a angústia de um personagem que é obrigado a frequentar um ambiente que contrapõem-se diretamente aos seus princípios éticos, que justamente por não deixar-se tomar pela hipocrisia, tende a perder a sutiliza e o balanceamento do tratamento que profere aos demais interlocutores. Paula Burlamaqui embasa com qualidade uma interpretação madura para  personagem que se presta às aparências sociais e que se deixa cortejar, em que a atriz jamais se permite cair nas armadilhas e facilidades que esse percurso poderia sugerir, adequando uma tonalidade que permite o aprofundamento de uma visão complexa de Célimène. A composição de Joca Andreazza propícia alguns dos mais interessantes momentos da criação cênica de Marcio Aurelio, com uma maior especificidade na 2ª cena do 1º ato no embate entre seu personagem, Oroente, com Alceste. Os movimentos e nuances com que veste um personagem sem senso de ridículo, confiante e incapaz de lidar com as críticas, propulsionam uma atuação de muito bom nível técnico. Eduardo Reyes vive Filinto, que tem em suas bases gerais a função de construir a escada para que Alceste embase sua linha de atuação, buscando de algum modo moderar as opiniões do amigo dentro da contextualização social, que o ator realiza de maneira correta. Renata Maia defende Eliane, que se equilibra entre a ênfase individual e a conformidade social, com uma atuação expressiva e boa utilização dos recursos corporais e vocais pela atriz na modulação do seu personagem. Acácio ganha vida por Alexandre Bacci, que acredita ser merecedor do amor de Célimère. Bacci seguramente é quem mais padece pelo modo como foi concebido seu personagem tanto no desenho de cena, quanto na adaptação, deixando-o sem uma maior efetividade na narrativa. Regina França é Aricene, moralista que oculta ciúmes das atenções de Alceste por Célimène, que igualmente carece de uma maior força dramatúrgica, dada sua relevância para o desenrolar da trama, não ficando tão marcada as razões que lhe faz mover as peças do tabuleiro.

A idealização dos figurinos por parte de Marcio Aurelio e André Liber Mundi não permite a complementação de uma ambientação coerente, utilizando-se de elementos heterogêneos, que independente das reais intenções do diretor e mesmo da inegável qualidade estética dos figurinos, não funcionaram na intenção de criar um pensamento teatral híbrido. A Iluminação de Marcio Aurelio e Kadu Moratori pontua com assertividade os momentos narrativos, realçando a capacidade cênica da proposta.

Pode até não ter razões práticas ou mesmo sentido a afirmação que farei, mas confesso que fico um pouco reticente quando o encenador assume igualmente os demais elementos teatrais, como figurino, cenografia e iluminação, passando-me a sensação de que faltou uma maior contribuição entre as partes para abrir os horizontes cênicos.

Misantropo” é um bom espetáculo, porém deixa o sentimento que poderia ter ido mais além.

Foto: Silvia Santos

Foto: Silvia Santos

Ficha técnica
O MISANTROPO

Texto: Molière
Tradução e adaptação: Washington Luiz Gonzales
Encenação: Marcio Aurelio
Elenco (em ordem alfabética):
Alexandre Bacci (Acácio)
Eduardo Reyes ( Filinto)
Joca Andreazza (Oronte)
Paula Burlamaqui (Celimene)
Regina França (Aricene)
Renata Maia (Eliane)
Washington Luiz ( Alceste)
Assistente de encenação Ligia Pereira
Cenário Marcio Aurelio
Figurino Marcio Aurelio e Andre Liber Mundi
Iluminação Marcio Aurelio e Kadu Moratori
Sonoplastia Marcio Aurelio
Preparação Vocal Marcelo Boffat
Preparação Corporal Marize Piva
Assistentes de produção Roberta Viana
Assessoria de imprensa Barata Comunicação
Direção de produção Rosí Fer
Produção Criola Filmes
Idealização Ó Artes e espetáculos

Gênero: comédia
Duração: 90 min.
Recomendação: 12 anos
Estreia: dia 13 de abril
Temporada: de 13 de abril a 7 de maio
Quinta a sábado, às 20h30, e domingos, às 19h
Sala Multiuso do Sesc Copacabana | Mezanino do Sesc
Copacabana | Arena Sesc Copacabana
Ingressos: R$ 6 (associado do Sesc), R$ 12 (meia), R$ 25 (inteira)
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de
Janeiro – RJ
Informações: (21) 2547-0156
Bilheteria: aberta de terça a domingo, sendo de terça a sábado
das 13h às 21h e domingos das 13h às 20h.

 

 


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

julho 2017
D S T Q Q S S
« jun    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031