Crítica: O Pão e a Pedra


 
Foto: Lenise Pinheiro

Foto: Lenise Pinheiro

Por Renato Mello

Dia 8 de maio de 1978:

Era uma segunda-feira e Gilson Menezes, um ferramenteiro corpulento da fábrica de caminhões Scania, em São Bernardo, teve uma ideia e contou-a a apenas três pessoas. Na terça, já falara com vinte. Na quarta, ampliou a confidência, recomendando que só se tocasse no assunto nos ônibus e desde que não houvesse chefes por perto. Na quinta, foi ao sindicato, entrou na sala de Lula e disse-lhe que a Scania ia parar. ‘Ele balançou a cabeça e continuou mexendo com uns papéis. Não perguntou nada. Ele estava sozinho na sala, mexendo numa gaveta’.

Na manhã de sexta, dia 12, Gilson não ligou sua máquina. Nem ele nem os trinta colegas de sua seção. Havia operários por perto, esperando o sinal. Eles ouviram o silêncio dos tornos e partiram de bicicleta para outros setores. Meia hora depois a fábrica estava parada…A Scania anunciou que negociaria, desde que os operários voltassem ao trabalho. Lula, como presidente do sindicato, esclareceu que nada fizera para que houvesse a paralisação e, portanto, nada faria para manda-los de volta às máquinas. Ninguém pronunciava a palavra ‘greve’….Nos dias subsequentes 7 mil operários da Ford pararam. Em seguida os ferramenteiros da Volkswagen. Havia mais de 10 mil trabalhadores parados”.

O texto acima não faz parte do roteiro de “O Pão e a Pedra“. Foi extraído do livro “A Ditadura Acabada” do jornalista Elio Gaspari e de alguma forma ajuda na compreensão do significado de um momento que mudou o rumo da vida nacional, responsável por inserir os trabalhadores na luta pela redemocratização, gerando um movimento de massas que surpreendeu a elite econômica e  política, com consequências em anos subsequentes que  desaguaram na campanha salarial de 1979, na intervenção no sindicato dos metalúrgicos  e finalmente na greve de 1980 que mobilizou 300 mil trabalhadores por 41 dias.

Foto: Lenise Pinheiro

Foto: Lenise Pinheiro

O Pão e a Pedra”, espetáculo da Companhia do Latão, escrito e dirigido por Sérgio de Carvalho, mescla a turbulência do período com elementos ficcionais para recriar dentro de um microcosmo particular essa ambientação, ou como aponta sua própria sinopse oficial, “acompanha várias personagens do mundo trabalho – em especial uma mulher operária que se disfarça de homem para melhorar de vida – em meio à greve dos metalúrgicos de 1979 no ABC.” “O Pão e a Pedra” cumpre temporada no Teatro III do CCBB até o dia 13 de fevereiro.

Caso alguém vá ao teatro esperando encontrar nada mais que um típico produto de teatro  panfletário acabará desconcertado pela variante de possibilidades e leituras que o espetáculo da Companhia do Latão apresenta, não somente como um retrato político-social demarcado de uma época no contexto do movimento operário do ABC paulista, mas também o convite para uma reflexão da variante comportamental humana em momentos limites, nas relações de poder e como interagem com elas na irredutibilidade em seus valores em contradição com o vislumbrar de oportunidades. Não se atém na exaltação do movimento sindical, traz consigo um pensamento crítico de dentro para fora de sua própria engrenagem interna.

O arcabouço dramatúrgico que existe no texto de Sérgio de Carvalho se traduz no palco numa composição cênica potente, com plena capacidade de expandir as possibilidades narrativas e permitir que cada expectador apreenda distintas camadas contidas da representação. O modo como reveste a encenação com elementos diversos convergem num mesmo caminho para se tornar um vetor uníssono que costura um realismo que permeia toda a proposta.

Foto: Lenise pInheiro

Foto: Lenise pInheiro

A influência religiosa sobre um corpo social, seja pela matriz conservadora se contrapondo com a atuação crescente das pastorais populares que firmavam laços de defesa das reivindicações operárias. As referências sociais e de época vão sendo lançadas de forma cadenciada ao longo da narrativa e de diversas maneiras, que vão dando um tom até mesmo nostálgico. Citações (em detalhes) da série de maior sucesso da época, “O Homem de Seis Milhões de Dólares”; o megassucesso de Antônio Marcos, “O Homem de Nazareth”;  Roberto e Erasmo Carlos, “Sentado na Beira do Caminho”;  reclames da “Caninha Tatuzinho” e dos cigarros “Hollywood”.

Esses elementos, acrescidos da cenografia de Cassio Brasil, sobre um palco giratório, transformam por completo a ambientação com utilização de objetos, por vezes mesmo que volumosos,  assentados sem movimentos bruscos, fazem a transição de um vestiário para um setor de montagem e posteriormente para uma birosca,  reverberando a força da estética do espetáculo, que por vezes com soluções simples alcançam belo impacto visual e sempre a serviço da dramaturgia.

A direção musical de Lincoln Antônio não se contenta em ser acessório, mas se converte em elemento de representação, ritmando intenções que ecoam do piano e instrumentos percussivos, expandindo a sonoridade por uma ambientação que deixa no ar um rumo suspenso e em outros uma dinâmica efervescente.

Quando assistimos um espetáculo de uma companhia com solidez na sua  história é que percebemos com mais profundidade o diferencial que reside na harmonização de um elenco maturado pela ação do tempo, trabalhando uma linguagem comum e íntima a todos. Não se nota em Beto Matos, Débora Rebecchi, Érika Rocha, Helena Albergaria, João Filho, Ney Piacentini, Rogério Bandeira, Sol Faganello e Thiago França qualquer resquício de individualismo em suas atuações, estando todos à serviço de um bem comum para estruturar um trabalho de pesquisa dramatúrgica. Há um suporte mútuo, o jogo é permanente e o equilíbrio eficaz, independente das nuances que cada ator impõe ao seu personagem. Ainda assim é possível um destaque adicional para as atuações de Rogério Bandeira e Ney Piacentini, com processos profundos de composição, expressividade, presença física e no caso mais específico de Rogério, na utilização do instrumento corporal e vocal.

Cassio Brasil, além da cenografia, assina também os figurinos, contribuindo com eficácia para a composição dos personagens numa  pesquisa social e de época realizada com muita competência, que pode ser notada nos pequenos detalhes.

O Pão e a Pedra” apresenta-se em 2 horas e 50 minutos, divididos em 2 atos. Pode parecer excessivo para alguns, mas é o tempo necessário para que uma proposta tão contundente se apresente plena e sem diluição de sua força dramatúrgica. É teatro no seu melhor nível, aprofundando o momento histórico que colaborou decisivamente para  virarmos uma página infeliz.

Foto: Lenise Pinheiro

Foto: Lenise Pinheiro

LOCAL: Centro Cultural Banco do Brasil – Rio de Janeiro
ENDEREÇO: Rua Primeiro de Março, 66 – Centro – RJ
HORÁRIO: 19H30
DURAÇÃO: 2h50.
Intervalo: 15 min.
Ato I: 1h35.
Ato II: 1h.

TEMPORADA: 19 de janeiro a 13 de fevereiro de 2017
CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 16 anos
VALOR: R$20,00 (inteira) e R$10,00 (meia)
INFORMAÇÕES: Tel. (21) 3808-2020

FICHA TÉCNICA COMPLETA
Elenco: Beatriz Bittencourt / Beto Matos/ Érika Rocha/ Helena Albergaria/
João Filho/ Ney Piacentini / Rogério Bandeira / Sol Faganello / Thiago França

Direção Musical, composição e execução: Lincoln Antonio
Cenário e figurinos: Cassio Brasil
Iluminação: Melissa Guimarães e Silviane Ticher
Operação: Melissa Guimarães
Cenotécnico: Valdeniro Pais
Dramaturgo assistente: Julian Boal
Colaboração na dramaturgia: Helena Albergaria
Registro videográfico: Natália Belasalma
Assistência de direção: Maria Lívia Nobre
Equipe de pesquisa: Julian Boal, Marcelo Berg, Maria Lívia Nobre, Natália
Belasalma, Olívia Tamie, Sérgio de Carvalho.
Fotografias do cartaz: Cristiano Mascaro
Arte do programa e cartaz: Marcelo Berg
Assistência de produção: Olívia Tamie
Produção: João Pissarra
Dramaturgia e direção: Sérgio de Carvalho


Palpites para este texto:

  1. Parabéns, belíssimo texto.

  2. saudades dessa peça. foi muito boa!

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