Crítica: O Pastor


 

o pastor 1

Por Renato Mello.

Após mais de 1 ano de uma trajetória de sucesso e repercussão por onde passou, o espetáculo “O Pastor” encerra nesse fim de semana a atual temporada no Teatro Cândido Mendes, em Ipanema.

Sem a menor hesitação, “O Pastor” utiliza um contundente recorte de um culto evangélico para traçar o amplo painel sobre a utilização da religião e da fé como um mercado altamente lucrativo. Trata-se acima de tudo de uma representação corajosa que vasculha ingredientes repletos de paixão e fanatismo, com a consciência do altíssimo risco que isso pode representar e das polêmicas que inevitavelmente acabam por gerar.

É necessário sempre um cuidado com a polêmica pela polêmica, pois uma abordagem mal realizada corre o risco de desaguar num discurso diluído. Portanto, uma estruturação eficiente é primordial para que a força do tema ganhe relevância. Justamente é uma das grandes virtudes do texto de Daniel Porto. Há a construção de uma atmosfera muito sólida através do desenho que realizou de um típico culto evangélico proferido cotidianamente nas mais diversas Igrejas pentecostais. Existe uma aprofundada pesquisa por parte do autor, mesclada com sua vivência pessoal nesse ambiente para encontrar uma verdade no discurso empregado, inserindo questionamentos e jamais se omitindo de um olhar crítico.

Um dos aspectos mais fascinantes da maneira com que Daniel Porto estrutura sua proposta, absorvida inteiramente pela direção de Carina Cascucelli, é a sutileza irônica com que utiliza a metalinguagem, apresentando durante os 70 minutos um pastor(Alexandre Lino) que numa grande performance prega um discurso moral, intolerante, com uma grande capacidade de comunicação, persuasão e carisma para cooptar a aderência coletiva aos diversos “produtos” que sua “lojinha” tem a oferecer para sua audiência. Nesse momento a força do desenvolvimento cênico de Carina Cascucelli transforma-nos de espectadores para devotados fieis.

A direção de Carina Cascucelli mantém permanentemente acesa uma fagulha que pode deflagrar a qualquer momento um incêndio de inesperadas proporções. Sua grande virtude foi criar um esteio para que seus atores estejam aptos a se deparar com o inesperado, pois concebeu uma atmosfera que se mantém viva ao longo de toda a encenação e que mexe intensamente com os sentimentos dos seus espectadores, querendo propositalmente cavucar e incomodar .

O elenco é formado por Alexandre Lino, Kátia Camello e Casario Candhi.  A performance de Alexandre Lino como o pastor é arrebatadora! Trabalha todos os detalhes para uma composição verdadeira, seja na grandiloquência dos gestos, na empostação vocal, na busca pelo olhar de cada “fiel”, na ostentação e nas escolha de adereços e figurinos utilizados(méritos para a criação de Karlla de Lua), como relógios, joias de ouro e camisa social Lacoste. Kátia Camello a obreira braço direito do pastor, comportando-se dentro da teatralização do culto como uma ajudante de palco, ecoando o discurso proferido com intervenções surreais, mas bastante devota e subserviente. Uma adorável interpretação de Kátia Camello! Cesario Candhi, o descrente que se vê tomado inesperadamente por todo um jogo de cena marcado pela manipulação para conversão mentes e espíritos, transição que faz com bastante habilidade.

Como mencionado, os figurinos de Karlla de Luca tem importante componente para a composição dos personagens. O cenário é simples, mas inteiramente de acordo com a proposta. A direção musical de Alexandre Elias tem a capacidade de criar toda uma atmosfera propícia para as necessidades das intenções do autor e da diretora, contribuindo decisivamente para o resultado final.

O Pastor” é uma peça teatral de enorme qualidade, convidando para uma reflexão importante, que embora tenha um foco específico, deve ter sua discussão ampliada pelo modo como a manipulação da fé é utilizada para fins econômicos, sociais e políticos por todas as religiões ao longo da história da humanidade.

Foto: Janderson Pires.

Ficha técnica:
Texto: Daniel Porto
Direção: Carina Casuscelli
Elenco: Alexandre Lino, Kátia Camello e Cesario Candhi
Direção musical: Alexandre Elias
Direção de produção e Argumento: Alexandre Lino
Cenário e Figurinos: Karlla de Luca
Iluminação: Cristiano Gonçalves
Produção executiva: Daniel Porto e Mariana Martins
Programação visual: Guilherme Lopes Moura
Videografismo: Marcio Thess
Webdesigner: Mariana Martins
Operação de luz: Raisa Mousinho
Operação de som e de vídeo: Diogo Pivari
Idealização e Realização: Cineteatro Produções


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