Crítica: O Porteiro


 

 

Foto: Janderson Pires

Foto: Janderson Pires

Por Renato Mello

A capacidade de expandir os conceitos da comunicação segue sendo um dos insondáveis mistérios entre as mais diversas manifestações artísticas. Um percurso caprichoso cuja pretensão termina em decepção ou na confusão que se estabelece em muitos casos entre o “popular” e o “popularesco”. O que leva determinadas proposições a alavancarem-se eficientemente e outras não, independente de se seguir todo um roteiro pré-definido?

Atingir a comunicabilidade é uma tarefa nebulosa que em suas linhas essenciais normalmente advém da despretensão e acima de tudo na sinceridade de propósitos. Aquilo que escapa desse caminho normalmente resvala na vulgaridade, bem diferente dos preceitos de que é justamente na simplicidade que se esconde a complexidade.

São questões que me suscitaram reflexões sobre “O Porteiro”, que realizou sessões sempre esgotadas no Sesc Tijuca e parece que ganhará voos próprios escapando por completo ao controle de seus criadores, o ator e produtor Alexandre Lino, e o autor e diretor Paulo Fontenelle.

O Porteiro” representa a segunda parte da trilogia intitulada “teatro de um homem só”, após o monólogo “Lady Christiny”, ao mesmo tempo que penetra sobre uma linha dramatúrgica tão cara ao percurso artístico de Alexandre Lino, o teatro documental, igualmente presente em outra produção sua, “Nordestinos”. Justamente seguindo essa linha documental, “O Porteiro” se constrói a partir da coletânea de entrevistas com porteiros nordestinos que deixaram sua cidade natal rumo ao Rio de Janeiro, ou tal como aponta sua sinopse sugerida, “diante do não comparecimento do síndico a uma reunião de condomínio onde Waldisney(Alexandre Lino) trabalha, o porteiro assume o controle da situação”.

O espetáculo traz à tona um tipo humano peculiar dentro de nossa sociedade, tão próximo e ao mesmo tempo tão distante, em que de um modo geral nos limitamos ao “bom dia, boa tarde e boa noite”, mas que por trás da invisibilidade em sua mesa, conhece toda a rotina, manias e intimidade de cada um dos moradores que passam a sua frente diariamente.

Foto: Janderson Pires

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A proposta de Fontenelle e Lino busca uma interação permanente com o público, fazendo dessa troca o principal eixo de sustentação, que cenicamente funciona muito bem em razão da forma espontânea e hábil com que Alexandre Lino se utiliza de seu carisma para trazer o público para dentro do desenvolvimento narrativo. Essa intervenção, se por um lado é bem-sucedida, acaba por atenuar o que considero o principal problema d’“O Porteiro”, uma dramaturgia que se esgota em 30 minutos e que passa a repetir-se, com uma variante de situações que vão e vem, cujo espaço narrativo não conseguiu ser preenchido pela direção de Paulo Fontenelle.

Se a dramaturgia a partir de determinado ponto não avança, a interação de Alexandre Lino mantém uma dinâmica que aproveita com bastante eficiência as respostas deixadas pelo público e desse modo consegue manter o ritmo do espetáculo. Embora nordestino em sua origem, Lino carrega no sotaque e vocabulário do personagem, se utiliza com muita eficiência de uma postura corporal própria, que compõem uma imagem sintetizada de um porteiro e ganhando a empatia do público pela maneira enfática como explora o humor do seu tipo, mas sempre respeitando e demonstrando que serve seu corpo para uma homenagem a esse profissional.

Apenas a título de registro, considero curioso a popularidade que o nome Waldisney vem recebendo nas expressões artísticas por vias do humor, desde que o protagonista do filme “Cine Holliúdy”, o cinéfilo Francisgleydisson(vivido por Edmilson Filho) assim batizou seu filho em homenagem a Walt Disney. Mas quem conhece bem a sociologia nordestina(no meu caso o Rio Grande do Norte), sabe bem que é algo corriqueiro nomes como Franklin Roosevelt(se pronuncia Ruzivelti), Jorge Washington e agora Waldisney.

Um dos aspectos que permitirão longa vida ao espetáculo é sua construção com elementos que lhe proporcionam todo um aspecto de simplicidade que lhe cai muito bem, desde o figurino, representando bem o tradicional uniforme de porteiro com uma calça preta e camisa social azul clara, ou os objetos cenográficos, com uma mesa e um interfone, ambos concebidos por Karlla de Luca. O desenho de luz leva a assinatura de Renato Machado complementa com eficiência as alturas dramatúrgicas.

O Porteiro” consegue com simplicidade, sinceridade e espontaneidade expandir sua capacidade de comunicação para se tornar um espetáculo engraçado e genuinamente popular. Algo cada vez mais raro.

Foto: Janderson Pires

Foto: Janderson Pires

FICHA TÉCNICA:
Texto e Direção: Paulo Fontenelle
Com: Alexandre Lino
Iluminação: Renato Machado
Cenário e Figurino: Karlla de Luca
Assistente de Direção:  Rodrigo Salvadoretti
Preparação Corporal e voz: Paula Feitosa
Direção de Arte e Produção: Alexandre Lino
Produção Executiva: Equipe Cineteatro
Programação Visual: Guilherme Lopes Moura
Fotos: Janderson Pires
Assessoria de Imprensa: Minas de Ideias
Idealização e Realização: Documental.Cia e Cineteatro Produções


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