Crítica: O Preço


 
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Foto: Gustavo Paso

Por Renato Mello

Great drama is great questions or it is nothing but technique. I could not imagine a theater worth my time that did not want to change the world”, afirmou certa vez Arthur Miller. Compreensível em se tratando de Miller, pois é quase impossível deixar impunemente uma sala de teatro após assistir um texto seu, em que reflexões sobre a alma humana escavam as entranhas de seus personagens diante do vendaval que lhes sufoca a alma. Não sei se saímos melhores, mas aumentamos uma perspectiva mais aprofundada das nossas falências pessoais.

Viver a experiência de presenciar um texto desse grande autor é possível neste momento com a temporada que “O Preço” faz atualmente na arena do Sesc Copacabana sob direção de Gustavo Paso.

O Preço” é um texto originário de 1968, tendo recebido na ocasião 2 indicações ao Tony(melhor peça e cenografia), em que nos deparamos com a representação emblemática de uma cadeira vazia. É justamente esse vazio que deflagrará a devassa nos seus personagens. Dois irmãos antagônicos, vistos por diversas camadas, competem enquanto acertam contas com seus passados, perdidos num sótão repleto de móveis, como uma metáfora da acumulação da carga emocional da qual não conseguem se libertar, em que o elemento catalisador recai justamente sobre o vácuo da cadeira em que o pai, apesar de morto, ainda ocupa.

Ao longo do 1º ato o filho policial(Romulo Estrela) negocia o mobiliário com um antiquário(Glaucio Gomes), hábil quando percebe uma vantagem a se tirar. Surge então o irmão(Erom Cordeiro) no momento em que a transação parece concluída. A esposa do policial(Luciana Fávero), sonhando com dias melhores, também se envolve nas críticas ao preço acordado. O texto vai gradativamente tecendo o retrato de uma sociedade em que para se alcançar um status social é preciso satisfazer as exigências da própria ambição, à despeito das responsabilidades. No 2º ato todo o discurso moralista é diluído, as faces se clarificam, as insinuações se confrontam e o teor dramático se acentua, transbordando intenções, quando a avaliação dos objetos antigos submerge à apreciação da vida dos personagens.

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Foto: Gustavo Paso

A concepção proposta por Gustavo Paso é hábil em expor a natureza do texto e no modo como elabora sua dinâmica cênica, começando pela construção da cenografia, sobre uma “colcha de tapetes” e diversos objetos dispostos ao longo do palco, em que o diretor executa com competência a ocupação do espaço físico com ações que ganham contornos e dimensões adequadas à altura narrativa. O aspecto que impede o espetáculo de alcançar maiores ambições reside na direção de atores, mais especificamente na assimetria existente entre os 4 atores, que deveriam, em tese, escorar conjuntamente a harmônia de uma superfície  quadrilateral. Erom Cordeiro e Glaucio Gomes alcançam a profundidade necessária do caráter de seus respectivos personagens, porém percebe-se uma gradação aos demais membros do elenco. Luciana Fávero vive uma personagem frustrada na incapacidade de se encontrar com suas próprias ambições, como um simbolismo do americano mediano, mas cuja atuação não resulta na apreciação plena dos seus pontos de princípios. A graduação das intenções verbais do policial vivido por Romulo Estrela é o principal problema na sua atuação, ampliado por questões relacionadas com a altura da sua emissão vocal, não conseguindo atingir dessa forma os níveis emocionais necessários a uma atuação coerente.

Apesar da observação, o resultado da proposta é positivo, pois alguns dos principais aspectos da obra original seguem intocados, como a aguda crítica de uma sociedade no auge de uma crise econômica sem precedentes, cujos alicerces dos personagens, assim como da sociedade americana da época,  desmoronam.

Independente do aspecto temporal do texto, a atualidade nas obras de Miller está sempre presente.

Foto: Gustavo Paso

Foto: Gustavo Paso

SERVIÇOS:
Estreia dia 14 de março
Temporada de 14 a 31 de março – quinta a domingo – sempre às 19:00
Local: Arena do Sesc Copacabana
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro – RJ
Ingressos: R$ 7,50 (associado do Sesc), R$ 15 (meia), R$ 30 (inteira)
Informações: (21) 2547-0156 – Bilheteria – Horário de funcionamento: Segundas – de 9h às 16h;
Terça a Sexta – de 9h às 21h; Sábados – de 13h às 21h; Domingos – de 13h às 20h.
Classificação indicativa: 12 anos
Duração: 90 minutos
Lotação: 200 lugares
Gênero: drama

Ficha Técnica
Texto: Arthur Miller
Tradução: Thiago Russo e Gustavo Paso
Direção: Gustavo Paso
Elenco: Romulo Estrela, Erom Cordeiro, Glaucio Gomes e Luciana Fávero
Figurinos: Luciana Fávero
Iluminação: Bernardo Lorga
Cenário: Gustavo Paso
Direção Musical: André Poyart
Direção de Produção: Luciana Fávero
Assistente de Ensaio: Vinicius Cattani
Administração da Temporada: Andre Roman
Designer: Paso D´Arte Eventos
Assessoria de Imprensa: Duetto Comunicação
Realização: CiaTeatro Epigenia

 


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