Crítica: O Princípio de Arquimedes


 

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Por Renato Mello

A recém terminada temporada da montagem do espetáculo “O Princípio de Arquimedes”, no Teatro Sesc Tijuca, amplia a busca por uma mirada contemporânea da dramaturgia latina por parte d’A Lunática Companhia de Teatro e da Territórios Produções Artísticas, assim como nos seus trabalhos anteriores, “Matador”, texto do venezuelano Rodolfo Santana, encenado em 2012; e “Esse Vazio”, do argentino Juan Pablo Gómez, que ganhou uma montagem no ano passado.

O Princípio de Arquimedes” é um texto escrito em 2011 pelo catalão Josep Maria Miró, recebendo nos palcos brasileiros a direção de Daniel Dias da Silva.

Segundo apontamentos de sua própria sinopse, “gira em torno dos acontecimentos após um gesto de carinho de um professor de natação infantil em seu aluno. O cenário é o vestiário da escola aonde, supostamente, pode ter ocorrido um crime. Ou não.”

O espetáculo lança diferentes reflexões sobre o comportamento humano e como determinados gestos aparentemente inofensivos podem ganhar uma dimensão desproporcional, dependendo dos olhos de quem os vê, arrastando não somente o protagonista, mas igualmente os seus colegas e mesmo o espectador a um estado de inquietações. Miró é bastante hábil na forma como lança questões, sem fechá-las necessariamente, obrigando o espectador durante todo o seu percurso a tirar suas próprias conclusões, mas sem que tenha convicções delas.  Embora ganhe uma roupagem de contemporaneidade na forma como aborda o reverberar da situação exposta através das atuais formatações sociais, creio que a proporção atingida pelo fato ocorre independente desses meios se levarmos em conta fatos similares que ocorreram em outros tempos aqui mesmo no Brasil, há exatos 23 anos, quando a velocidade das informações caminhava por outro ritmo. Uma outra discussão que podemos depreender, embora por vias paralelas e em 2º plano, seria sobre uma pedagogia em voga de maior delicadeza de métodos em detrimento de uma maior disciplina de gestos, mas que acaba em determinado ponto submergida pela precipitação da catástrofe que leva os personagens ao abismo.

A construção narrativa de Miró consegue atingir uma acentuação muito bem dosada pela forma como “estica” os momentos dramáticos chaves, indo e voltando no tempo, reestruturando-se e remontando-a de um ângulo diferente. Miró faz um movimento como quem desenha um quadro começando pelo centro da tela, mas os elementos só começam a ganhar formas mais nítidas no momento em que delineia o entorno.

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Um aspecto importante para o êxito artístico é a forma como o diretor Daniel Dias da Silva respeita as predisposições contidas na dramaturgia de Miró, com uma cenografia simétrica(criada por Cláudio Bittencourt), enfatizando diferentes olhares para um mesmo plano, que ganham aqui uma execução muito eficiente, temperando gradualmente a altura dramática. Sua concepção mantém uma dinâmica bem dosada, assim como a movimentação e a ocupação do espaço físico ocorre de maneira que permita uma boa fluência cênica. Outra importante virtude do seu processo criativo é a maneira como conduz sua direção de atores, encontrando uma tonalidade acertada e homogênea para dimensionar as exposições do autor.

O elenco formado por Helena Varvaki(atriz convidada), Cirillo Luna, Gustavo Wabner e Sávio Moll tem uma coesa atuação, mantendo um embate entre os personagens com um bom nivelamento por todos os atores. Cirillo Luna mantém um ritmar na gradação da exasperação que lhe toma corpo, trabalhando adequadamente os aspectos ambíguos de modo que mesmo querendo acreditar na sua sinceridade, ainda assim deixamos a desconfiança em estado de espreita. Gustavo Wabner mantém-se numa firme atuação diante de um personagem que possui uma maior linearidade comportamental, mas que ainda assim o ator consegue ainda assim atingir zonas mais elevadas da dramaticidade. Savio Moll modula coerentemente toda a indignação de pais que chegam à beira da histeria,  demonstra a indignação por seus valores sem resvalar em tonalidades desnecessárias. Helena Varvaki se destaca com uma bela atuação, trabalhando diferentes nuances ao longo da representação, de início marcial e implacável, ocultando toda uma fragilidade que vai sendo delineada com extrema sutiliza, permitindo-lhe uma linha coerente.

A cenografia de Cláudio Bittencourt tem papel preponderante para a expansão dramatúrgica do texto de Miró e contribui para o desenho de cena da Daniel Dias da Silva na recriação do ambiente de vestiário, lugar em que ocorre toda a representação. Os figurinos de Victor Guedes se apresentam corretos para a ambientação do espetáculo e composição dos personagens.

O princípio de Arquimedes” é uma interessante montagem que abre questões sobre medos contemporâneos, relações humanas, preconceitos e confiança em tempos que a cada dia se tornam mais extremos para os singelos gestos de afetos.

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Ficha Técnica: O Princípio de Arquimedes
Autor: Josep Maria Miró
XXXVI Prêmio Born de Teatro (Espanha)
Tradução e Direção: Daniel Dias da Silva
Um espetáculo da Lunática Companhia de Teatro e da Territórios Produções Artísticas Ltda.

Elenco: Helena Varvaki (atriz convidada), Cirillo Luna, Gustavo Wabner e Sávio Moll

Cenografia: Cláudio Bittencourt
Figurinos: Victor Guedes
Iluminação: Walace Furtado
Preparação Corporal: Sueli Guerra
Design gráfico: Gamba Junior
Assistente de Figurino: Camila Scorcelli
Assistente de Iluminação: Vilmar Olos
Cenotécnico: André Salles
Fotos e imagens: Zero8Onze (Aguinaldo Flor / Fernando Cunha Jr.)
Assessoria de Imprensa: Mônica Riani
Estagiário de Direção e Produção: Daniel Mello
Produção Executiva: Leticia Reis
Direção de Produção: Daniel Dias da Silva e Gustavo Falcão
Realização: Sesc


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