Crítica: O que Restou do Sagrado


 

O que Restou do Sagrado - Cláudio Silveira 9

Por Renato Mello.

Até o dia 09 de dezembro, o universo de Mario Bortolotto estará presente no Castelinho do Flamengo através do espetáculo “O Que Restou do Sagrado”, com direção de Nirley Lacerda e no primeiro trabalho em conjunto do Grupo Fragmento e Tartufaria de Atores.

Bortolotto, como é notório, é um autor que não deixa em nenhum momento o espectador em zona de conforto, cavucando fundo na parte mais incômoda do inconsciente humano através de uma dramaturgia construída meticulosamente e que nesse texto específico escrito em 2004, percebe-se a fluidez com que lida com sua proposta de inserir seus personagens confinados num ambiente que conhece com intimidade, seminarista que foi, adicionando um processo de sadismo e tortura mútua para investigar a existência de Deus e sua relação com o homem.

Segundo sua sinopse oficial, “O Que Restou do Sagrado” conta uma história em que “a salvação da raça humana depende de sete indivíduos descrentes confinados em uma igreja. Eles precisam confessar seus piores pecados, arrependerem-se e pedirem perdão. Como convencê-los a fazer isso? E, mais difícil, como conseguir seus arrependimentos sinceros?”

O que Restou do Sagrado - Cláudio Silveira 12

Nirley Lacerda realiza uma concepção cênica que utiliza com enorme competência a singularidade das limitações físicas de um ambiente tão específico quanto o Castelinho. Acomoda seus 20 espectadores como se fossem presenciar algo próximo de um concerto sacro, mas que em dado momento a modulação atinge a tons tão agudos que vão invadindo em ondas todos ângulos e frestas da sala a tal ponto que o arrombamento de portas e janelas torna-se imprescindível para deixar o ambiente minimamente respirável diante do jorro despejado. E isso é puro Mario Bortolotto!

Essa adequação num formato próximo de um huis clos concebido pela diretora permite a fluência das intenções do autor e se revela uma dinâmica bastante propícia para expor confissões que se revelam da mais baixa extirpe da espécie humana, independente de origens de cada elemento, dentro de um espaço que tem em sua essência uma tradição litúrgica e aspirações existencialistas, remetendo-me em algumas oportunidades aos sentimentos propostos por Sartre em “O Muro” com seus prisioneiros empurrados para uma mesma cela em que cada um transparece seus reais sentimentos enquanto aguardam o fuzilamento.

A força da encenação de Nirley Lacerda para alcançar essa potencialidade atinge um desenvolvimento pulsante e exige do espectador uma integração permanente, lhe roubando uma atenção para distintas situações ocorridas em diferentes cantos do espaço cênico, chegando mesmo a vulnerabilizá-lo na sua condição básica voyer.

O que Restou do Sagrado - Cláudio Silveira

O elenco formado por Ana Carolina Dessandre, Daniel Bouzas, Diogo de Andrade Medeiros, Fábio Guará, Elio de Oliveira, Lucas Tapioca, Nara Parolini e Monique Vaillé, realiza uma alternância permanente através de um jogo cênico de idas e vindas, em que cada personagem tem seu momento solista dentro da coletividade. A direção de atores de Nirley Lacerda faz um encaixe correto nessa troca em cena e na alternância constante nos diálogos, com atuações que encontram o acerto do tom para a dimensão das tragédias interiores de cada personagem. Um trabalho de elenco pautado num espírito comum, em que se abre mão de vaidades individuais, mas com um registro particular de cada integrante para o encontro com a caracterização desenhada por Bortolotto. Essa condução do elenco pela diretora se adequa na altura da expressividade de cada ator, com uma movimentação planejada em detalhes e que se estrutura decisivamente para o êxito artístico dessa peça teatral.

Patrícia Muniz tem importante contribuição nesse processo com os figurinos concebidos, com relevo para a construção dos personagens e adequação para cada composição. Uma enorme qualidade sem dúvida no trabalho desenvolvido por Patrícia Muniz, a quem reputo como uma das mais competentes figurinistas da cena teatral carioca.

Iluminação de Paulo César Medeiros, explorando os cantos da sala e importante para a criação da atmosfera necessária à força dramatúrgica. Correção no cenário de Diogo de Andrade Medeiros para transformar a sala numa pequena igreja e forçando uma integração física entre elenco e público.

O que Restou do Sagrado”, uma oportunidade de se assistir um texto forte, com uma proposta original, resultando num espetáculo de enorme vitalidade em que é possível perceber-se a enorme paixão pelo “fazer teatral” de cada artista ou técnico envolvido nesse ótimo processo de criação artística.

SERVIÇO
DSCF7705O que restou do Sagrado
Estreia: 4 de novembro
Local: CASTELINHO FLAMENGO – Centro Cultural Municipal Oduvaldo Vianna Filho
Endereço: Praia do Flamengo 158 – Flamengo
Horário: Quarta-feira – 20h30
Temporada: De 4 de novembro até 9 de dezembro
Classificação indicativa: 16 anos
Entrada Gratuita (distribuição de senhas a partir de 20:00)
Duração: 50 min.
Gênero: Drama

FICHA TÉCNICA
Texto: Mário Bortolotto
Direção: Nirley Lacerda

Elenco: Ana Carolina Dessandre, Daniel Bouzas, Diogo de Andrade Medeiros, Fábio Guará, Elio de Oliveira, Lucas Tapioca, Nara Parolini e Monique Vaillé

Cenário: Diogo de Andrade Medeiros
Iluminação: Paulo César Medeiros
Figurino: Patrícia Muniz
Assessoria de Imprensa: Minas de Ideias
Direção de Produção: Monique Vaillé
Design: Elio de Oliveira
Realização: Grupo Fragmento e Tartufaria de Atores
Apoio: Casa da Glória


Palpites para este texto:

  1. E o que restou do Sagrado, afinal? Na opinião dessa gente tão talentosa? Por que uma mulher com uma coroa de espinhos? Fiquei curiosa… infelizmente não posso assistir a peça pra conferir. Podem me dizer?

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