Crítica: O Que Terá Acontecido a Baby Jane?


 
Foto: Leo Ladeira

Foto: Leo Ladeira

Por Renato Mello

“Então poderíamos ter sido amigas o tempo todo?”

Consta no anedotário hollywoodiano que o intricado jogo de perversão entre as irmãs Hudson foi mais além da mera ficção, se estendendo aos bastidores das filmagens de “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”, envolvendo 2 mitos que já se encontravam em fase descendente de suas carreiras, Joan Crawford e Bette Davis. Antes mesmo do seu início, Crawford teria exigido um camarim maior. Davis ironizou que “grandes camarins não fazem necessariamente bons filmes”. Crawford, uma das majoritárias acionistas da Pepsi, mandou instalar uma máquina de bebidas no estúdio. Davis então instalou no dia seguinte uma da Coca-Cola. Numa cena que Jane maltrata sua irmã Blanche, Davis teria realmente chutado Crawford sob o argumento de buscar, digamos que, um maior realismo. Crawford então colocou pesos no figurino de Davis numa cena em que necessitava se arrastar pelo chão. Resultado: Davis ficou 3 dias afastada do set devido a um problema de coluna. O filme estreou em 1962 com enorme repercussão e revitalizando o olhar público sobre ambas atrizes que pareciam ter ficado em algum lugar do passado. Concorreram a vários prêmios, mas somente Davis foi indicada ao Oscar. Crawford então contactou todas as demais indicadas e se ofereceu para representa-las caso ganhassem o Oscar e não pudessem comparecer. Por essas ironias da vida, Anne Bancroft não pôde estar presente na cerimônia e foi anunciada vencedora por sua intepretação em “O Milagre de Anne Sullivan”. Joan se aproximou da “companheira” de filme e sussurrou-lhe: “com licença, eu tenho um Oscar para receber”.

Todo esse extenso preâmbulo revestido de tintas pitorescas, de algum modo, mesmo que involuntariamente, contextualiza toda ambientação proposta pelas linhas do texto escrito por Henry Farrell, que Robert Aldrich levou para as telas de cinema. “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?” chega à cena teatral carioca após exitosa temporada em São Paulo, numa adaptação de Charles Möeller e Claudio Botelho, se apresentando até o dia 28 de maio no Theatro Net Rio.

Narra o embate entre duas irmãs. A pequena Baby Jane Hudson, uma estrela prodígio que encantava a todos em seus recitais angelicais entonando melosas canções pelos teatros vaudevilles, numa representação da imagem idílica  Norte-Americana sobre a ingenuidade da cândida infância, enquanto por outro lado, sua irmã Blanche,  que na infância limitava-se a uma posição secundária, passa a gozar de enorme sucesso como celebridade do star system hollywoodiano em sua fase de ouro, impondo contratualmente Jane como contrapeso em seus trabalhos, mas agora ela é quem eclipsa sua irmã. Até que um acidente de carro condena Blanche a viver o resto de seus dias em uma cadeira de rodas, sempre dependente dos cuidados de Jane. O resultado dessa intensa relação é a gestação e extravasamento de rancores arraigados desde tempos remotos.

O texto levado ao palco do Theatro Net Rio é uma transposição escrita pelo próprio Henry Farrell, traduzida por Claudio Botelho, construindo uma carpintaria dramatúrgica que disponibiliza vários escaninhos diferentes, abrindo compartimentos distintos para penetrar nos recônditos obscuros que habitam no tormento d’alma de duas irmãs envolvidas numa relação viperina de rixas e rivalidades em que as velhacarias vão graduando os tons da insanidade. A habilidade da narrativa de Farrell é conduzida num movimento pendular, compartilhando sentimentos contraditórios que se intercalam pelo declínio e ascensão, sucesso e ostracismo, que despudoradamente alcançam níveis burlescos. O modo como descreve todo esse percurso de decadência e a forma como revela os demônios dos personagens, de algum modo dialoga com outro dos mais brilhantes textos da história do cinema, “Crepúsculo dos Deuses”. Norma Desmond, assim como Blanche e Jane, recolhem-se em mansões decadentes, repletas da nostalgia de um passado que lhes aprisionam a viver num tempo presente que não lhes pertence.

Consta no release que recebi a informação que a função da direção coube especificamente a Charles Möeller, apesar de ser um espetáculo da Möeller & Botelho. Seguindo então com coerência o material oficial do espetáculo, reputarei os aspectos da composição cênica especificamente a Möeller.

Toda a amplitude do texto de Farell poderia esvair-se em mãos poucos hábeis para calibrar a descarga emocional, mas que no processo de adaptação de Charles Möeller encontrou uma tradução de reverbera cenicamente a enorme capacidade dramatúrgica, alcançando a dimensão em níveis adequadamente elevados para expor o tormento que devasta a dignidade das personagens e lhes fustiga os fantasmas internos. O desenho cênico alcança plenamente esse extravasamento emocional, com contribuição fundamental da excepcional cenografia de Rogério Falcão, transbordando sobre a atmosfera todo um aspecto de decadência, sentindo-se o mofo das gigantescas paredes de cores esmaecidas da velha mansão, com enormes janelas que amplificam o clima de assombro. Toda essa criação cenográfica impacta fortemente no sentimento de angústia, assim como tecnicamente, facilita as transições dos espaços de tempo.

A direção de Möeller é extremamente eficaz como se utiliza de todos esses elementos para erigir um espetáculo grandioso. Quando menciono “grandioso”, refiro-me tanto a questões de dimensões físicas, quanto dramáticas, fazendo de “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?” um autêntico TEATRO na sua plena concepção dialética, ao enfatizar emoções particulares em sentimentos de algum modo universais, com a verdade exposta através da contraposição e a reconciliação aplainada nas contradições interiores. O alto nível técnico se desenha mesmo nos detalhes, passando inclusive pela trilha sonora que corre paralela às ações, amplificando sensações, mas igualmente pela fluência narrativa que atravessa harmonicamente os espaços de tempo e acima de tudo, na direção de atores.

No que se refere a temporada paulista, o elenco sofreu algumas alterações, dentre as quais a assunção de Nathalia Timberg em substituição a Nicette Bruno no papel de Blanche. Eva Wilma permanece interpretando Jane. Acima de tudo trata-se de uma oportunidade rara de podermos testemunhar um embate entre duas de nossas maiores atrizes sob uma mesma esfera teatral.  O resultado é memorável! A atuação de Eva Wilma atinge os ápices técnicos, seguramente uma das mais solidas interpretações que observamos na temporada teatral carioca desses últimos tempos. Sua composição de Baby Jane reveste-se de camadas profundas que podem ser observadas em vários aspectos, desde o ritmo de sua respiração, o sentido impregnado em cada palavra extravasada e igualmente no processo de composição física, seja no cabelo desgrenhado, no visagismo de Beto Carramanhos ou nos figurinos típicos de uma menina de 10 anos, que beiram ao grotesco, ao interpretar a si mesma cantando “I’ve Written a Letter to Daddy”, num desenho de cena arrebatador criado por Charles Möeller. Afundada no alcoolismo, Eva Wilma traça um avassalador espiral de loucura para sua personagem, em que a criança que habita em si não acompanhou seu desenvolvimento etário e permaneceu trancada em suas entranhas, permitindo-se sair para realizar estripulias com a irmã imobilizada. Nathalia Timberg traça um percurso mais dramático e menos sutil para uma personagem que passa ao longo da apresentação vitimizada e tiranizada pelo horror, que lhe retira justamente algumas dessas camadas que foram erguidas pelo personagem de Eva Wilma. Mas encontra um canal de comunicação para acentuar a perversidade do jogo que trava com sua companheira de cena, encontrando uma modulação que permite extrair de Blanche a coerência do pêndulo dramatúrgico de Farrell.

Foto: Leo Ladeira

Foto: Leo Ladeira

Juliana Rolim e Karen Junqueira interpretam respectivamente Jane e Blanche jovens, vivenciando um momento chave para entendermos todo o desenlace que desemboca no estágio que as personagens se apresentam no tempo futuro, com atuações ajustadas pela condução do diretor para possibilitar a coerência das motivações de Jane e Blanche interpretadas por Wilma e Timberg.

Há um natural revezamento das crianças nos papeis de Jane e Blanche, interpretados na infância por Sophia Valverde, Duda Matte, Alessandra Martins e Ágatha Félix. Na noite em que assisti os papeis foram interpretados por Sophia Valverde e Duda Matte, que encantam pela forma ao mesmo tempo graciosa e perversa com que ditam suas participações. Adoráveis!

Paulo Goulart Filho interpreta três personagens distintos, alcançando bons momentos quando interpreta o pianista oportunista, mas sobressa-se na dualidade do caráter paterno, que se divide na dicotomia do pai dedicado e do pai explorador.

Teca Pereira vive a empregada devota a Blanche e Nedira Campos a vizinha que busca desvendar o que revelam as sombras da velha mansão, com atuações que se demonstram adequadas e dentro de uma linha que solidifica como um todo a proposta cênica de Charles Möeller e Claudio Botelho.

Os belos figurinos de Carol Lobato interagem coerentemente  na  proposição e mesmo nas transições temporais por que passam as personagens ao longo de toda encenação, desde a concepção num ambiente de teatro de grand guignol, como também possibilitam transparecer o revolver que fustiga o interior das protagonistas. Mais um trabalho preciso de Carol Lobato!

A iluminação de Paulo Cesar Medeiros acentua com precisão todo o peso da ambientação e realça todo um jogo de luzes e sombras que balanceia o desenvolvimento narrativo.

Poderia até soar pejorativo afirmar que Charles Möeller e Claudio Botelho saíram de sua “zona de conforto” ao optar por um espetáculo distante de suas tradições musicais. Para aqueles que imaginam que o teatro musical é algo alienante e de menor alcance dramatúrgico, o modo como os diretores impulsionam uma obra com tal imersão psicológica só reforça a demonstração do quanto suas experiências em um segmento tão complexo quanto o teatro musical, lhes escancara as portas para se aprofundar em qualquer tipo de manifestação artística. “O Que Terá Acontecido com Baby Jane?” é a prova mais do que viva disso.

Ficha Técnica:
EVA WILMA e NATHALIA TIMBERG em O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE?. Um espetáculo de Charles Möeller & Claudio Botelho. Com Paulo Goulart Filho, Teca Pereira, Nedira Campos, Juliana Rolim, Karen Junqueira e as crianças Sophia Valverde, Duda Matte, Alessandra Martins e Ágatha Félix. Autor: Henry Farrell. Adaptação: Charles Möeller. Tradução: Claudio Botelho. Direção: Charles Möeller. Cenografia: Rogério Falcão. Figurinos: Carol Lobato. Iluminação: Paulo Cesar Medeiros. Visagismo: Beto Carramanhos. Design de som: Ademir Moraes Jr. Coordenação Artística: Tina Salles.

Realização: Brain+
– Presidente/Diretor: Frederico Reder
– Vice presidente/Financeiro: Juliana Reder
– Diretor de espetáculos: Leo Delgado
– Gerente de espetáculos: Leandro Bispo
– Produtor executivo: Bruno Avellar
– Assistente de produção: Leonardo Leone

SERVIÇO:
O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE?
Theatro Net Rio – Sala Tereza Rachel. Rua Siqueira Campos, 143 – Sobreloja – Copacabana. (Shopping Cidade Copacabana).
Temporada: 21 de abril até 28 de maio de 2017
Horário: Quinta-feira às 18h / Sexta e sábado às 21h / Domingo às 18h.
Classificação: 14 anos.
Duração: 70 minutos.
Ingresso: R$ 150,00 (plateia e frisas) R$ 110,00 (balcão) e R$ 50,00 (Balcão com visão parcial).
Direito à meia entrada e descontos : http://www.theatronetrio.com.br/pt-br/bilheteria.html
Capacidade do Teatro: 622 lugares.
Telefone do teatro: 21 2147 8060 / 2148 8060
Site: www.theatronetrio.com.br
Vendas pela internet: www.ingressorapido.com.br ou pelo aplicativo do Ingresso Rápido.
Vendas pelo telefone: Informações e compra Ingresso Rápido – (11) 4003 – 1212
Atendimento pós venda Ingresso Rápido – (11) 4003 – 2051
Informações sobre ponto de venda da Ingresso Rápido de outros eventos fora do Theatro Net Rio, somente pelo telefone – (11) 4003 – 1212
Horário de funcionamento – Todos os dias das 10h às 18h.
Horário de funcionamento da bilheteria: De segunda a domingo, das 10 às 22h, inclusive feriados.
Reservas para grupos: Beatriz Barcelos – beatrizbarcelos@brainmais.com
Somente pelo telefone: (21) 96629 – 0012
Horário de atendimento – De Segunda a Sábado de 14h às 21h.
Formas de pagamento: Aceitamos todos os cartões de crédito, débito, vale cultura nas bandeiras (Alelo & Ticket) e dinheiro. Não aceitamos cheques.
Acessibilidade
Estacionamento no Shopping, entrada pela Rua Figueiredo Magalhães, 598.


Palpites para este texto:

  1. Magnífica crítica!!! Assisti a este espetáculo em São Paulo, e realmente EVA WILMA está avassaladora como Jane Hudson!!!

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