Crítica: O Tempo e o Vento


 

Ninguém poderia esperar que toda a enorme saga escrita por Érico Veríssimo em “O Tempo e o Vento” pudesse caber num longa-metragem, por maior que seja sua duração. Apesar de instigante e épica essa obra-prima da literatura nacional, sem dúvida uma das maiores obras da história da nossa literatura, não creio que ela seja adaptável para a tela grande sem que tenhamos a amarga sensação de que tenha sido esfacelada e picotada de maneira brutal. Lógico que assim ocorreu com o longa-metragem dirigido por Jayme Monjardim.

Tornei-me nos últimos anos cada vez mais intolerante com filmes que tenham mais do que 2 horas e meia de duração, mas faria uma exceção para “O Tempo e o Vento” pois sei da necessidade de uma longa duração para que a essência da obra Érico Veríssimo tenha alguma fidelidade. Mas Jayme Monjardim entregou seu corte final com menos de 2 horas mesmo. Resultado: mais um fracasso artístico de um diretor que se tornou especialista em jogar no lixo livros memoráveis.

 Quando soube que Monjardim estava filmando “O Tempo e o Vento” confesso que me deu certo arrepio, pois ainda vive muito fresco na minha cabeça a absurda adaptação que fez do livro “Olga”, um equívoco absurdo em todos os sentidos. Mas é preciso relativizar o fracasso de Monjardim. Tem cineastas que fracassam porque simplesmente não conseguem colocar na tela aquilo que idealizaram. Não é o caso de Monjardim, ele tem competência e meios suficientes para imprimir exatamente o que tem na cabeça. E “O Tempo e o Vento” que apresentou é exatamente o filme que queria fazer. Seus objetivos são outros, sua escola é outra. Sua formação vem da televisão e isso não faz dele menos competente que cineastas de formação, mas sua visão dramatúrgica é equivocada. Tecnicamente é um belo diretor, mas sua visão dramatúrgica vem de um meio de comunicação que está acostumado com a ausência de uma crítica especializada e de um público que aplaude qualquer bobagem que lhes apresentem. No cinema o buraco é mais embaixo, as exigências de crítica e público são mais agudas.

O Tempo e o Vento” de Monjardim foca no período que está nos volumes de “O Continente”, que começa com a chegada de uma índia na colônia dos jesuítas nas Missões dando luz a Pedro Missioneiro, passa por Ana Terra, seu filho Pedro, a neta Bibiana que se apaixona por “um certo Capitão Rodrigo” Cambará, tudo isso tendo como pano de fundo a formação política e geográfica do Rio Grande do Sul e  a constituição de sua elite política,  entre suas diversas guerras e disputas como a Farroupilha e a Federalista, aonde é revelada a imagem do homem gaúcho valente e machista numa visão superficial, mas no fundo a força está em mulheres como Ana Terra e Bibiana.

O elenco escolhido por Monjardim parece casting de novela das 9, com Thiago Lacerda, Cleo Pires, Marjorie Estiano, reforçados por Fernanda Montenegro. Se suas atuações não chegam a ser desastrosas, não passam a credibilidade necessária. Pode parecer tolo e superficial dizer isso, mas é impossível encontrar algum realismo diante dos sorrisos exageradamente brancos de Thiago Lacerda e Cleo Pires em meio aquele ambiente quase selvagem e hostil. Esses detalhes mínimos deveriam fazer parte da composição. Toda vez que Thiago Lacerda sorria(e ele sorria todo o tempo) me dava vontade de perguntar quem era o dentista de Rodrigo Cambará?

A fotografia de Afonso Beato deslumbra. Além de sua conhecida competência, Beato soube fotografar lindamente os pampas gaúchos, o que convenhamos, não é difícil. O roteiro, a cargo dos escritores gaúchos Tabajara Ruas e Letícia Wierzchowski, picota de maneira exagerada a obra. Mais do que deveria, mas sabemos que o fizeram sob o pulso firme do centralizador Jayme Monjardim. A boa notícia em relação a trilha sonora é que dessa vez nos livramos dos violinos melosos de Marcos Viana. O problema é que a trilha sonora, gravada pela Filarmônica de Budapeste(o dinheiro estava sobrando) é colocada de maneira exagerada. Monjardim deveria saber que por vezes o silêncio em uma cena diz mais do que diálogos e trilhas.

O cinema gaúcho tem uma grande frustração por ainda não ter conseguido levar para o cinema um êxito gauchesco sobre sua história e tradição. Todos fracassaram pelos mais diversos motivos. Não me refiro a Jorge Furtado, que não faz cinema gaúcho, faz cinema brasileiro. O fato de “O Tempo e o Vento” se tornar um grande sucesso de público, não fará dele necessariamente um filme a ser lembrado na posteridade.


Palpites para este texto:

  1. Cinema gaucho eh paraguaio?

    • Achei muito chato esta colocação sua. Pois o filme ficou lindo e as músicas deveriam ter sido sim do Marcus Viana, que fez muita falta. Jayme Monjardim grande autor e diretor.

  2. Realmente é difícil, fazer um filme de um livro como “O Continente” do “Tempo e o Vento”, mas como leitora,fã e gaúcha ,gostei do resultado. Ao contrario do crítico, vi no sorriso do ator, o que mais caracterizava o Capitão Rodrigo.

  3. Ele assassinou a obra. Pelo amor de Deus, se os personagens ganhassem vida, o Capitão Rodrigo o chamaria pra um duelo, Bibiana lhe viraria a cara e o Monjardim seria preso pelos Amarais.

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