Crítica: Ópera do Malandro


 

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Por Renato Mello.

3-estrelas-valendoConfesso de antemão que estava com um pé atrás com essa nova montagem de “Ópera do Malandro”, que acaba de estrear no Theatro Net Rio, após ter realizado 2 apresentações no Theatro Municipal. Apesar de reconhecer em João Falcão um excelente encenador do teatro nacional, tinha alguns receios das escolhas dramatúrgicas assumidas. Mas ao cabo resultou num bom espetáculo, embora com falhas.

Sem dúvida essa criação de Chico Buarque se tornou com o passar dos anos um clássico do teatro musical brasileiro, recheada do início ao fim de canções que se tornaram verdadeiros hinos da MPB e que ganharam vida própria através de cantoras como Gal Costa, Maria Bethania, Zizi Possi, Elba Ramalho, além o próprio Chico Buarque. Mas ao mesmo tempo ela tem um problema crônico no desenvolvimento do seu roteiro, que se agrava muitíssimo na parte final quando tem-se a impressão que o autor resolveu numa “canetada” encerrar o espetáculo de uma hora para outra, prejudicando sensivelmente sua fluência narrativa.

Ópera do Malandro” foi escrita a partir da obra “A Ópera do Mendigo”(1728), em que John Gay fazia uma demolidora sátira da classe dominante inglesa,  e da “A Ópera dos Três Vinténs”(1928) de Bertolt Brecht e Kurt Weill que contextualiza sua trama nos cortiços londrinos em meio a um ambiente burlesco com a história do anti-herói MacNavalha e seu universo de ladrões, prostitutas e vigaristas.

 Em 1978 Chico Buarque transpôs a história para a Lapa da década de 40, debaixo da ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas e no apogeu da 2ª Guerra Mundial, momento propício de grandes oportunidades para grandes oportunistas, num ambiente repleto de bordéis, agiotas, cafetões, contrabandistas e policias corruptos. Em “Ópera do Malandro” o enfoque se dá no embate entre o cafetão, sob a fachada de próspero comerciante, Duran e o contrabandista Max Overseas. A rivalidade entre ambos irá se intensificar a partir do momento em que Teresinha de Jesus, filha de Duran, casa-se em segredo com Overseas.

A primeira montagem de “Ópera do Malandro” foi feita por Luís Antônio Martinez Corrêa, com direção musical de John Neschling tendo no elenco Ary Fontoura, Maria Alice Vergueiro, Otávio Augusto, Marieta Severo, Elba Ramalho e Emiliano Queirós, entre outros. Um elenco de tirar o chapéu. Em 1986 Ruy Guerra levou a obra para o cinema, fez uma bom filme, com lindas criações cênicas, em especial na sequência do “duelo” entre Elba Ramalho e Claudia Ohana em “O Meu Amor”, mas o filme tinha um seríssimo problema de elenco(típico do cinema brasileiro). Uma montagem que também deve ressaltada pela sua qualidade foi a realizada em 2003 no Teatro Carlos Gomes por Charles Möeller e Claudio Botelho com Alexandre Schumacher, Soraya Ravenle, Lucinha Lins, Mauro Mendonça, Cláudio Tovar, Alessandra Maestrini, Sandro Christopher, Ada Chaseliov, Sabrina Korgut, Renata Celidônio, entre outros nomes, com uma cenografia deslumbrante, assinada por Möeller, tendo os Arcos da Lapa ao fundo.

Nessa montagem que ora se apresenta no Theatro Net Rio, tem um elenco formado por Adrén Alves, Alfredo del Penho, Bruce Araújo, Davi Guilherme, Eduardo Landim, Eduardo Rios, Fábio Enriquez, Larissa Luz, Léo Bahia, Rafael Cavalcanti, Renato Luciano, Ricca Barros, Thomás Aquino e apresentando Moyseis Marques. Com exceção de Larissa Luz, interpretando João Alegre, todo o elenco é masculino.

 A princípio essa opção de João Falcão me pareceu equivocada. Sobre sua escolha, declarou ao (excelente) site “A Broadway é Aqui”(http://abroadwayeaqui.com.br/), “Acho que a ideia de atores interpretando mulheres causa um distanciamento, dá um toque de Brecht que interessa à peça, porque o Chico a escreveu bem inspirada na ‘Ópera dos Três Vinténs“. Vi também declarações suas na televisão remetendo referências aos primórdios do teatro na Grécia, em que todos os papeis, inclusive os femininos, eram interpretados por homens. Ainda se encontra em cartaz no Rio de Janeiro o espetáculo “A Importância de Ser Perfeito”, de Oscar Wilde, em que o mesmo expediente foi usado com enorme êxito. Mas pensando sobre o tema, antes mesmo de assistir ao espetáculo de João Falcão, acreditava que no caso da obra de Wilde o expediente funcionou por se tratar de uma farsa, em “Ópera do Malandro”, que existe uma contextualização e um estudo quase que antropológico sobre aquele microcosmo, acreditei que não funcionaria, podendo correr o risco de se cair numa caricatura grosseira, apesar de poder-se remeter a uma abordagem sobre um tipo tão emblemático da Lapa que são os travestis. Dito isto, não podemos afirmar que João Falcão se equivocou, embora pode-se optar pela outra via. Talvez o acerto na opção deva-se a qualidade do elenco, se a escolha tivesse sido equivocada poderia ter sido um desastre. Não foi. Mas cometeu um pecado na “economia” de atores para a quantidade de papeis que o espetáculo necessita, com os mesmos atores fazendo papeis masculinos e femininos. Isso é prática comum no teatro, mas em “Ópera do Malandro”, com os atores quase que permanentemente “travestidos”, atrapalhou a identificação dos personagens.

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Um aspecto que chama a atenção foi a harmônica qualidade vocal de todo o elenco. Me incomodou um pouco em recentes(e até bem sucedidos artisticamente) espetáculos musicais um certo desnível na qualidade vocal entre os participantes. Mérito das escolhas pontuais de João Falcão e do trabalho de preparação vocal realizado por Laila Garin. No caso de “Ópera do Malandro” ainda tinha uma dificuldade adicional, porque vários atores interpretam papeis femininos. Como achar o timbre certo para dar veracidade ao personagem e sem parecer caricatural? Laila parece ter achado o caminho certo para equacionar o problema.

João Falcão não tem medo de correr riscos. Admiro isso. Escolheu para protagonista o sambista Moyseis Marques, estreando como ator. Moyseis saiu bem em sua prova de fogo, esbanja todo o carisma que o envolvente e sedutor personagem do malandro Max Overseas necessita. Além do personagem de Max, o núcleo central do espetáculo gira em torno de Teresinha(Fábio Enriques), Vitória(Adrén Alves), Duran(Ricca Barros), Tigrão(Alfredo del Penho). Desses, o maior destaque fica com Ricca Barros, ator com personalidade forte e excelente técnica vocal. Mas se é preciso apontar destaques individuais, esses são Léo Bahia(Lúcia) e Eduardo Landim(Geni). Léo Bahia, embora não tenha papel de grande destaque, foi o responsável pelas maiores risadas da plateia com sua rechonchuda e apaixonada personagem. Já Eduardo Landim chama a atenção sempre que aparece e recebe os maiores aplausos de toda a peça quando canta “Geni e o Zepellin”. Em relação ao restante do elenco, há uma boa uniformidade e boa técnica vocal, embora considere que Davi Guilherme(Big Ben) carecia de um papel mais representativo dado ao seu já reconhecido e notório talento. Quem viu o sublime dueto de Davi Guilherme com Malu Rodrigues em “Tatuagem” no espetáculo “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos” sabe do que estou falando.

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Em relação ao cenário, assinado por Aurora dos Campos, foi montada uma enorme estrutura tubular com andaimes que tem a vantagem de ser eclética para as necessidades cênicas. Porém é preciso ressaltar que tal expediente tem virado frequente em vários espetáculos teatrais que vi recentemente, demonstrando uma aposta na praticidade em detrimento da criatividade e da beleza. Na hora que a Mills descobrir o filão que está perdendo no teatro…

No aspecto técnico o elemento que mais chamou minha atenção foi a iluminação, criação de Cesar Ramires, que realizou um belíssimo jogo de luzes que acaba por vezes amenizando a pobreza estética da cenografia.

Os figurinos de Kika Lopes são corretos e adequados. Se não chegam a brilhar, não comprometem.

É preciso ressaltar a ótima direção musical de Beto Lemos. Arranjos de muito bom gosto contando com uma competente banda formada pelo próprio Beto se revezando na rabeca, viola, bandolim e guitarra, Daniel Silva no violoncelo e baixo elétrico, Roberto Kauffman no teclado e acordeon, Dudu Oliveira na flauta, sax e pandeiro, e por fim, um destaque especial para o belíssimo clarinete de Frederico Cavaliere.

Não resta dúvida que João Falcão fez uma leitura original de “Ópera do Malandro”.  É sempre bom ver um criador inquieto e que tenta sair do caminho óbvio. Mas apesar de inegáveis qualidades, não conseguiu acertar todo o tempo. É um bom espetáculo, mas com um pé atrás.

 Crédito de fotos de cena: Leo Aversa.

FICHA TÉCNICA:

ADAPTAÇÃO E DIREÇÃO
JOÃO FALCÃO

DIREÇÃO MUSICAL
BETO LEMOS

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO E IDEALIZAÇÃO
ANDRÉA ALVES

COM: ADRÉN ALVES, ALFREDO DEL PENHO, BRUCE ARAÚJO, DAVI GUILHERMME, EDUARDO LANDIM, EDUARDO RIOS, FÁBIO ENRIQUEZ, LARISSA LUZ, LÉO BAHIA, RAFAEL CAVALCANTI, RENATO LUCIANO, RICCA BARROS E THOMÁS AQUINO.

APRESENTANDO: MOYSEIS MARQUES

CENOGRAFIA
AURORA DOS CAMPOS

FIGURINOS
KIKA LOPES

ILUMINAÇÃO
CESAR DE RAMIRES

COREOGRAFIA
RODRIGO MARQUES

PROJETO DE SOM
FERNANDO FORTES

VISAGISMO
UIRANDÊ DE HOLANDA

ASSISTENTE DE DIREÇÃO
CLAYTON MARQUES

PROGRAMAÇÃO VISUAL
GABRIELA ROCHA

MÚSICOS:
BETO LEMOS (rabeca, viola e guitarra), DANIEL SILVA (violoncelo e baixo elétrico), RICK DE LA TORRE (bateria e percussão), ROBERTO KAUFF (teclado e acordeon), FREDERICO CAVALIERE (clarineta) e DUDU OLIVEIRA (flauta, sax e bandolim).

Classificação: 14 anos


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