Crítica: Os 7 Gatinhos


 
Foto: Dalton Valério

Foto: Dalton Valério

Por Renato Mello

É representativo que um dos melhores espaços culturais da cidade, o teatro Nelson Rodrigues, reabra suas portas após anos de reclusão ao público com um espetáculo justamente de autoria de quem homenageia. Palco de algumas montagens de textos de Nelson Rodrigues desde sua estreia em 1976 com “Vestido de Noiva” e aonde assisti a um espetáculo que particularmente arrebatou em definitivo meu rumo, entrelaçando-o de alguma forma ao teatro: “A Falecida”, dirigido por Gabriel Villela em 1995.

Os 7 Gatinhos”, escrito em 1958 por Nelson Rodrigues, recebe um novo tratamento pela Cia Teatro Esplendor para uma generosa temporada(algo cada vez mais raro) até o dia 29 de outubro, com direção assinada por Bruce Gomlevsky.

Classificada dentro do universo de Nelson Rodrigues entre as “tragédias cariocas”, conta a história de uma família da baixa classe média do Grajaú. Silene(Louise Marrie), 16 anos, a caçula de Aracy(Alice Borges) e Seu Noronha(Tonico Pereira e Lourival Prudêncio se alternando no papel), um contínuo da Câmara de Deputados, é a mais mimada entre todas as cinco filhas por ser a única pura, recebendo por suas virtudes o direito a uma boa educação em um colégio interno. A família aparentemente tão normal quanto as outras, esconde segredos inconfessáveis que vem à tona quando se descobre que a jovem não é tão pura quanto todos pensam.

Em seus 3 atos “Os 7 Gatinhos” estabelece uma transposição original da tragédia grega para os valores sociais da década de 50, em especial com “Édipo Rei” no sentido de destacar flexões martirizantes do patriarca para a preservação da unidade familiar. Nelson Rodrigues se utiliza com constância do mecanismo das “viradas” para ensejar as surpresas e desmascaramentos, embora elemento muito presente em toda sua obra, ganha aqui contornos agudos, assim como desenvolve todo um movimento de báscula que despeja uma estrutura cruel para com seus personagens, como a filha virgem considerada a reserva moral da família de valores apodrecidos que retorna ao lar após ser expulsa do colégio; o rapaz viril de caráter deficitário que só traja roupas brancas, símbolo da pureza; o chefe de família que prostitui as filhas; ou a mãe submissa que busca uma forma de extravasar seus desejos íntimos. As dicotomias do caráter dos personagens vão ganhando modulações acentuadas para acomodar um quadro de perversão crescente.

Foto: Dalton Valério

Foto: Dalton Valério

A temática do apodrecimento familiar num movimento de dentro para fora não é novidade no trabalho de direção de Bruce Gomlevsky, basta lembrar “Festa em Família” e o “Funeral”, tampouco o universo rodrigueano(“Anti-Nelson Rodrigues”), portanto há toda uma narrativa que molda-se a perfeição para o aprofundamento do tormento d’alma que habitam nesses personagens, sem jamais perder de vista os aspectos da tragicomédia que habita a obra de Nelson Rodrigues. Considero Gomlevsky um dos melhores diretores de atores da nossa cena teatral e isso fica muito claro em “Os 7 Gatinhos” pela maneira como o elenco ataca intensamente a amplitude comportamental e psíquica dos muitos personagens do texto, numa altura harmônica e aprofundando um olhar para suas naturais incoerências. Mas ressalvo alguns aspectos que de algum modo se relacionam com as opções cenográficas de Fernando Mello da Costa, que no meu ponto-de-vista não equilibrou adequadamente o bom espaço físico que o Teatro Nelson Rodrigues oferece, deixando a divisão dos cômodos do ambiente familiar (propositalmente) amontoado,  principalmente os quartos sobrepostos ao espaço da sala, que mesmo buscando uma atmosfera decadente, acaba deixando o espaço cênico um pouco confuso, além do contraste com o vazio do proscênio, amplamente utilizado(principalmente no 1º ato), desequilibrando as movimentações, deixando-as soltas e impedindo uma melhor fluência dramatúrgica

As virtudes do elenco são inequívocas, com Tonico Pereira e Lourival Prudêncio alternando-se no papel de seu Noronha(no dia que assisti apresentava-se Tonico Pereira), Alice Borges(D. Aracy), Jaime Lebovitch(Seu Saul), Luiza Maldonado(Arlete), Gustavo Damasceno(Bibelot), Karen Coelho(Aurora), Luiz Furnaletto(Dr Bordalo), Ingrid Gaigher(Hilda), Thiago Guerrante(Dr Portela), Louise Marrie(Silene) e Patricia Callai(Débora). Atuação brilhante de Tonico Pereira, interpretando Noronha, cujo emprego de contínuo lhe proporciona mesmo dentro do contexto familiar, uma autoridade frágil, que nos momentos de tensão familiar lhe é permanente relembrado como um xingamento(contínuo!!!). É o próprio Noronha que em dado momento revela não ser um alto funcionário da Câmara, que costumeiramente deixa subtender em busca de um melhor tratamento para sua filha, baseado numa premissa social falsa e desfrutando de um poder que não possui. “- O senhor tinha me dito, quando matriculou sua filha, que era funcionário da Câmara, mas na semana passada estive lá e qual não foi minha surpresa em vê-lo servindo cafezinho aos deputados! O senhor não me viu e eu achei muita graça, até”, diz-lhe Dr Portela, diretor do colégio. É fornecida então a senha da libertação completa para o personagem de seus complexos, que o ator acentua em notas altas, mantendo uma linearidade coerente com as intenções dramatúrgicas.

Entre os demais membros do elenco, destaque para as atuações de Gustavo Damasceno interpretando Bibelot, o estereótipo do cafajeste, ao mesmo tempo que remete à pureza pelos trajes e com apelido de menções delicadas, dentro de uma ambiguidade em que as atitudes representam o masculino e os adereços ao feminino; Karen Coelho, como Aurora, uma das cinco filhas, com função direta no desencadear dos acontecimentos, como no triângulo involuntário, a função de pressionar Silene para descobrir a identidade do responsável pelo seu estado e quando atinge o objetivo vem-lhe o espanto e a fúria, situações muito bem exteriorizadas pela atriz; e Alice Borges, sufocada , subjugada e que o turbilhão que ocorre a sua volta serve-lhe como o destampar do emocional reprimido.

Figurinos de Carol Lobato em adequação com o perfil dos personagens, respeitando aspectos temporais e iluminação bem executada por Elisa Tandeta, explorando adequadamente situações paralelas e acentuando os momentos dramáticos da obra.

Os 7 Gatinhos” é o retrato de um mundo corrompido até suas entranhas pela hipocrisia, levado a bom termo artístico pela direção de  Bruce Gomlevsky. Fico feliz em recebermos de volta em nossa cidade, num momento que tantos estão sendo fechados, esse excelente teatro. Melhor ainda que seja com Nelson Rodrigues.

FICHA TÉCNICA
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Bruce Gomlevsky

Elenco / Personagem:
Alice Borges / D. Aracy
Tonico Pereira e Lourival Prudêncio / Seu Noronha
Karen Coelho / Aurora
Louise Marrie / Silene
Luiza Maldonado / Arlete
Patricia Callai / Débora
Ingrid Gaigher / Hilda
Gustavo Damasceno / Bibelot
Jaime Lebovitch / Seu Saul
Luiz Furlanetto / Dr. Bordalo
Thiago Guerrant / Portela

Músicos: Felipe Cotta e André Silvestre
Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurino: Carol Lobato
Iluminação: Elisa Tandeta
Direção de Produção: Luiz Prado
Realização: LP ARTE Produções
Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany


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