Crítica: Os Amantes Passageiros


 

 

Nunca entendi muito bem o frisson em torno de Pedro Almodóvar, algo que ocorreu com recorrência nos últimos 15 anos a cada filme seu, seja em Cannes, seja no Oscar, ou mesmo na guerra pela disputa dos ingressos dos seus filmes em cada edição do Festival do Rio e da Mostra de São Paulo que fazia com que quem os conseguisse compra-los os exibisse como bilhete premiado de loteria. Lógico que Almodóvar tem inúmeros méritos, é um cineasta autoral, com um universo próprio e peculiar e criou uma estética ao longo de sua carreira. Mas sempre achei que ele era supervalorizado.  Penso que foi colocado quase que num pedestal e num status que não merecia, parecia que estávamos falando de um Pasolini, quando eu achava que era um Nelson Rodrigues de 2ª categoria. É um bom cineasta e só.

Inegavelmente fez filmes muitos interessantes e é notória a evolução narrativa de seus filmes, desde lá atrás com “Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos”, “Ata-me” e “Kika” até filmes mais recentes como “Tudo Sobre Minha Mãe“,  “Fale com Ela”(o meu favorito), “Má Educação”, “Abraços Partidos”, “Volver”, etc. Agora volta ao circuito comercial com “Os Amantes Passageiros”.

Bem, achei estranho e fiquei surpreso com o lançamento desse filme, não tinha ouvido o menor relato ou repercussão sobre esse trabalho, que não recordo que tenha passado por algum festival expressivo ou sequer citado na corrida pelos Goyas. Quando vi o trailer fiquei até mesmo chocado, porque era dublado!!!! Um absurdo completo, já que um dos grandes baratos dos filmes do Almodóvar é amaneira como ele se utilizada da língua espanhola, carregando nas tintas, por vezes acelerando os diálogos, deixando as cenas ásperas, vivas  e rascantes.

Mas ressabiado, fui a um cinema com medo de que fosse dublado, o que me faria com que me levantasse na hora, mas felizmente era legendado.

“Os Amantes Passageiros” não é apenas um filme menor de Almodóvar(o que não seria grave), mas é acima de tudo um retrocesso. Grandes cineastas fizeram de filmes aparentemente menores(leia-se baixo orçamento e menor pretensão artística) excelentes trabalhos, cito por exemplo um “After Hours”, de Martin Scorsese.

A história do filme, se é que podemos chamar de história, um avião com destino ao México tem uma falha técnica no trem de pouso poderá ocasionar a morte de todos os passageiros no momento que for pousar. Dentro do avião, passageiros e tripulação em meio à situação limite acabam por exacerbar impulsos e desejos internos e durante a pressão em que estão submetidos acabam revelando segredos íntimos.

Os Amantes Passageiros” é acima de tudo um equívoco total. Há uma tentativa de resgate do humor de seus primeiros filmes, só que aqui sem preocupações artísticas e intelectuais, o que acabou levando a fazer uma comédia rasa, vazia e com piadas toscas e previsíveis.  Almodóvar levou junto com ele seus atores favoritos para o buraco(sim, porque nenhum ator espanhol é doido de recusar um convite de Almodóvar, vai que ele se magoe), com participações ou atuações constrangedoras de Javier Câmara, Cecilia Roth, Antonio Banderas(bem, esse já está acostumado a pagar mico), Penelope Cruz e Paz Vega(que nem reconheci em cena).

O cenário do filme, com 80% passando dentro de um avião, chega quase a ser trash. A fotografia, que sempre foi um elemento essencial de seus filmes é fraca como todo o filme e o roteiro inexiste. Sinceramente, não consegui entender o que Almodóvar quis fazer com esse filme.

É preciso acima de tudo não confundir despretensão com falta total de conteúdo. É o caso desse filme, acima de tudo um grande enigma para mim.


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