Crítica: Os Desajustados


 
Foto: Manu Tasca

Por Renato Mello

A intimidade em torno de uma mesa. Um instante capturado ocultando fragilidades de 4 mitos. Cada um a seu estilo, no seu personagem, no universo próprio. A troca de olhares revela cumplicidades aos pares, enquanto camadas podem ser percebidas, desvendadas, sugeridas ou especuladas por uma mera fotografia. Hollywood, verão de 1960. Em um bangalô do Beverly Hills estão hospedados Marilyn Monroe e seu marido, o dramaturgo Arthur Miller. Recebem numa confraternização íntima, contraditoriamente registrada pelo fotógrafo Bruce Davidson, o casal Yves Montand e Simone Signoret. Marilyn e Montand em processo de filmagem de “Adorável Pecadora”, nesse momento mais que simplesmente colegas de trabalho ou amigos. Miller e Marilyn num relacionamento em vias de caminhar para sua parte final. Montand e Signoret, símbolos políticos, artistas cultuados, um casal aparentemente maduro em suas afeições. Marilyn e Signoret, duas atrizes margeando diferentes fronteiras entre o sucesso comercial, a conceituação artística e a condução afetiva.

Foto: Bruce Davidson – verão de 1960

Possibilidades que rondam a observação de um olhar intruso, diluindo a divisa entre o público e o privado de personagens tão particulares. São questões que o texto de Luciana Pessanha se propõe a investigar no espetáculo “Os Desajustados”, dirigido por Daniel Dantas. O projeto é instigante, mas a execução se mostra frágil.

O espetáculo se inicia promissor, enquanto ainda transita nas amenidades e em aspectos mais superficiais, mas o texto de Luciana Pessanha perde o prumo no conflito e embate existencial dos personagens, que ao final resulta num aprofundamento vazio, com um arco dramático que se enverga além do que o necessário, permitindo uma oscilação na sua dinâmica, algo que a direção de Daniel Dantas não conseguiu amenizar.

Algumas opções adicionais igualmente contribuíram para a perda de um ponto de unidade comum ao projeto. A ideia de convidar um fotógrafo profissional para transitar em cena teve efeitos distintos. Visualmente é positivo, com suas fotos exibidas quase em tempo real ao fundo, mas surtiu na quebra do ritmo e algum desconcerto por um elemento com outra dosagem emocional vagueando pelo palco, embora, em tese, a ideia seja coerente, mas na prática resultou supérflua.  A direção de Daniel Dantas se demonstra falha igualmente na maneira como coaduna os elementos cênicos, gerando alguns descompassos, inclusive na movimentação cênica com marcações que pouco acrescentam, mas encontra alguma compensação na direção de atores

No elenco sobressai-se Cristina Amadeo(Simone Signoret), com um tom sóbrio que lhe propícia alcançar diferentes alturas emocionais em níveis acertados. Isio Ghelman(Arthur Miller) encontra um ritmo adequado na escala emocional do seu personagem. Tainá Müller(Marilyn Monroe) busca em simultâneo apurar e revolver o caricatural do real no seu personagem, com êxito na aplicação. Felipe Rocha(Yves Montand) tem atuação correta na impostura do seu personagem, mas causa estranhamento,  que colocarei na conta da direção, a escolha, em contraponto com Cristina Amadeo, na utilização ou ausência do sotaque francês. Ambos caminhos seriam válidos, não a dissimilitude.

A cenografia de Marcelo Lipiani e Fernanda Vizeu capta adequadamente aspectos de tempo e do universo retratado, mesmo em pequenos preciosismos que contribuem um retrato do tempo marcado. Igualmente os figurinos de Marcelo Olinto, com leveza, ressalta o espírito dos personagens e da época. A iluminação de Renato Machado acerta na acentuação dos diferentes climas e dialoga com as fotos de fundo.

Os Desajustados”, a princípio uma boa ideia, mas com problemas de execução.

Foto: Paula Kossatz

FICHA TÉCNICA:

Texto: Luciana Pessanha Direção: Daniel Dantas Elenco: Cristina Amadeo, Felipe Rocha, Isio Ghelman, Tainá Müller e um(a) fotógrafo(a) convidado(a) Direção de Produção: Tatiana Garcias Textos Projeto: Aline Cardoso e Luciana Pessanha Produção Executiva: Dayana Lima Assistente de Direção: Luisa Espíndula Sistema de vídeo: Corja Cenógrafo: Marcelo Lipiani e Fernanda Vizeu Figurinista: Marcelo Olinto Iluminação: Renato Machado Projeto Gráfico: Heleno Bernardi Direção Musical: Alexandre Pereira Direção de Movimento: Dani Lima Visagismo: Dayse Teixeira Assessoria de Imprensa: Daniela Cavalcanti Fotos de Divulgação: Murillo Meirelles Fotos de estudo e ensaio: Manu Tasca Realização: Mera Semelhança Produções

SERVIÇO:

Local: Oi Futuro (Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo) Telefone: 3131-3050 Horário: de quinta a domingo, às 20h Ingressos: R$30,00 (inteira) | R$15,00 (meia) Capacidade: 63 lugares Duração: 70 minutos Classificação: 14 anos Bilheteria: de terça a domingo, das 14h às 20h Vendas on-line: ticketplanet.com.br Contato Ticket Planet: 2576-0300 Temporada: 28 de março a 19 de maio de 2019


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