Crítica: Os Saltimbancos Trapalhões – O Musical


 

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Por Renato Mello.

5-estrelas1O público de pé não cansa de reverenciar o artista. Parado no meio do palco, olhos marejados, observa uma onda sonora que ecoa pela gigantesca sala e que aos poucos se transforma numa standing ovation. O artista permanece no mesmo lugar, inerte, desprotegido, emocionado. Tiro meu foco de sua direção e olho em volta. Aquele olhar é disseminado por toda a plateia. Todos os olhos ao meu redor estão úmidos, alguns tiram lenços dos bolsos, adultos choram como crianças.

Pensava ele já ter visto e vivido tudo, mas aos 80 anos voltava a ser um aprendiz, recomeçando e sentindo emoções que desconhecia. O que passava pela sua cabeça durante a ensurdecedora ovação? Pensava no quanto tinha apanhado dos críticos que esculhambavam seus filmes antes mesmo de os ver? Nos seus colegas de profissão invejosos porque ele não dependia de incentivos governamentais para manter ativa sua produção? Pensava nas filas dobrando os quarteirões para assistir um novo filme seu que entrava em cartaz? Mas naquele turbilhão emocional não havia lugar para ódios ou ressentimentos. O artista recebia uma declaração de amor de várias gerações que cresceram e o amaram sinceramente. Em 80 anos de vida ele cultivou esse amor e estava agora o colhendo.

Assim se encerrou a sessão de “Os Saltimbancos Trapalhões – O Musical”, dirigido por Charles Möeller e Claudio Botelho, que marcou a estreia de Renato Aragão no teatro musical sob a regência dos 2 mestres do gênero, numa adaptação daquele que talvez seja o grande clássico cinematográfico dos Trapalhões.

Esse musical tem uma trajetória interessante e circular, num raro caso em que um texto teatral inspira um filme e retorna à sua origem teatral revigorado pela sua experiência cinematográfica. Há 37 anos estreou no Canecão o espetáculo infantil “Os Saltimbancos”, através da adaptação que Chico Buarque fez da obra criada por Sérgio Bardotti e o maestro Luiz Enriquez Bacalov. Em 1981 Renato Aragão levou o texto de Chico para o cinema, adaptando a história à feição do quarteto, com inserção de novas e belíssimas músicas originais compostas especialmente pelo próprio Chico para o filme. Mas é preciso lembrar que essa história, na verdade, começou muito antes, séculos atrás quando os irmãos Grimm deram um formato definitivo a uma fábula que circulava oralmente pela Europa sobre um burro, um cão, um gato e um galo que maltratados por seus donos, os abandonam para partir rumo a Bremen na esperança de alcançar a liberdade, não por acaso numa cidade que era símbolo de libertação e um local perfeito para se viver sem submissão, servilismo ou patrões, em pleno período feudal.

Confesso que gosto mais do todo de “Os Saltimbancos Trapalhões” que o próprio “Os Saltimbancos”, começando pelas músicas que foram acrescidas por Chico Buarque que não constavam na peça original. Essas canções dão grande vida a dramaturgia da peça, além de serem lindas, como “Piruetas”, “Meu Caro Barão” e “Hollywood”.

O texto de Charles Möeller teve a virtude de se manter fiel ao filme, os principais diálogos, cenas e personagens estão presentes em toda sua essência. Mas estamos falando de universos distintos, cinema e teatro. Nas adaptações que foram necessárias, como inclusão de cenas, recriação de coreografias e mesmo de personagens, Möeller teve a delicadeza de fazê-lo de maneira que toda atmosfera do filme em nenhum momento fosse perdida ou afetada minimamente. Soube criar, mas ao mesmo tempo respeitar o original que trabalhava.

De início eu tinha em mente que o grande desafio de Möeller e Botelho seria equilibrar toda espontaneidade de Renato Aragão com o mínimo de rigidez necessária num musical, que depende tanto das marcas e deixas no tempo correto. Mas o desafio foi vencido. Não tenho como afirmar se Renato Aragão usou e abusou de seus já conhecidos improvisos, mas notava-se que estava atento e obediente ao seu posicionamento e papel, sem que ficasse podado e sem jamais deixar de ser o autêntico Didi. Estavam presentes todas suas expressões corporais, suas tiradas e jogos de cena, sem que o humorista atrapalhasse o musical e vice-versa. Como não cair na gargalhada quando Renato Aragão solta: “melhor um feio na mão, que dois bonitos se beijando”. Pudemos ter tudo que desejamos em cena, uma peça de Renato Aragão e ao mesmo tempo um musical de Charles Möeller e Claudio Botelho. Ninguém precisou se descaracterizar para perder sua assinatura clássica em cena.

Möeller e Botelho fizeram um daqueles espetáculos de encantar os olhares com tanta riqueza visual. Cada cena tinha a beleza de um quadro, em que a dupla de encenadores parecia saber usar com precisão as cores na paleta para criar um contraste e variação que impressionavam. A junção dos figurinos, cenários e iluminação faziam brotar um resultado que por vezes lembrava uma aquarela. Mais adiante falaremos individualmente desses elementos

 Numa adaptação de um filme que tinha um elenco composto por figuras e personalidades tão marcantes, a escolha do casting também se tornou um desafio, começando pela ausência dos 2 trapalhões já falecidos.  Uma característica de Möeller e Botelho é sua direção de atores. Sua capacidade nessa área impede sempre qualquer desnível(como tenho presenciado em outros espetáculos), seja na escolha acertada e cirúrgica que fazem de seus elencos ou seja na sua preparação. Lógico que no caso de “Os Saltimbancos Trapalhões” havia a proposta de se fazer o espetáculo em torno de Renato Aragão, mas é preciso notar o cuidadoso trabalho feito com o elenco como um todo.

A presença de Dedé Santana foi uma grande notícia. Poucos atores souberam fazer com tanta graça e dignidade a escada para que o humorista principal, como no caso de Renato Aragão, despejasse seu inesgotável repertório. Em cena fez o que se esperava de Dedé Santana.

Substituir Lucinha Lins. Atriz, cantora e bailarina, que nos anos 80 estava no auge do seu apogeu artístico e da beleza, vivendo a doce e delicada Karina. Coube a Giselle Prattes tal tarefa ingrata. Como uma boa “gata”, agarrou com as unhas e colocou no palco todos os atributos que Lucinha imprimiu nas telas, além de um tipo físico semelhante: personalidade, beleza, belo canto e desenvoltura na dança. Seu melhor momento em cena foi “Hollywood”. Foi uma escolha acertada.

Confesso que de início Adriana Garambone me incomodou um pouco porque me remetia ao último personagem que a vi encenar, na sua elogiada atuação em “Como Vencer na Vida Sem Fazer Força”. Mas aos poucos consegui fazer uma distinção melhor nas composições de ambos papeis e Adriana acabou me conquistando.  Chegava ao ponto, em determinado momento do espetáculo, que bastava Adriana colocar a cara em cena para que o público começasse a rir. Não resta dúvida que Adriana Garambone é hoje em dia uma das maiores atrizes de musical no Brasil. Além de cantar e dançar, tem um timing espetacular para o humor.

Roberto Guilherme, ator perfeito para o Barão. Difícil esquecer de Paulo Fortes, que viveu o personagem no cinema. Barítono em inúmeras óperas, Paulo parecia talhado para o papel. Mas Roberto Guilherme sempre foi um ator de forte personalidade e figura marcante. Não tem papel que Roberto Guilherme passe desapercebido e certamente ficará marcado também seu belo registro como o Barão ganancioso e explorador. Assim como Nicola Lama interpretando um papel feito pelo marcante Eduardo Conde, ator e bailarino de saudosa lembrança, principalmente na inesquecível sequência do “eu vou popotizar você”.  Parabéns a Nicola Lama!

Havia uma certa desconfiança em torno da escalação de Livian Aragão. Mas a atriz parece ter levado com serenidade e maturidade essa carga que o parentesco inevitavelmente lhe cobra. Livian justificou em cena sua escalação e protagonizou um dos números mais interessantes na canção “Alô, Liberdade”, que além de ser uma das mais belas, no original foi gravada por Bebel Gilberto.

Não podemos deixar de mencionar também as boas atuações de João Gabriel Vasconcellos, Tadeu Mello, Ada Chaseliov e Nicolas Prattes.

Para preencher a boca de cena tão grandiosa, mais uma vez Rogério Falcão fez um trabalho perfeito. Construiu um belo circo no palco. Assim como soube ser lúdico quando precisava em cenas que remetiam ao sonho e à fantasia como “Hollywood” ou “História de uma Gata”. Os cenários de Rogério Falcão sempre são sinônimos de adequação e criatividade. Sem contar que é mais um desafio preencher o palco enorme da sala principal da Cidade das Artes. Lindíssimos figurinos de Luciana Buarque, de bom gosto, coloridos, visualmente encantadores.

Bela direção musical de Marcelo Castro, à frente de uma banda formada por 7 músicos, formada pelo próprio Marcelo no teclado, Zaida Valentim também no teclado, Anderson Pequeno no violino, Omar Cavalheiro no baixo e violão, Whatson Cardozo no clarinete e clerone, Matheus Moraes no trompete e Márcio Romano na bateria e percussão, que fizeram belas releituras dessas canções que já viraram clássicos. Até “Minha Canção” que eu particularmente não gosto me agradou bastante. Um pequeno detalhe, que pode até parecer bobagem minha: ainda bem que Möeller e Botelho não caíram nessa onda politicamente correta, falo do caso específico de “Hollywood” em que Los Hermanos a regravaram tirando o trecho “De amanhã cair da tela/E acordar/Em Nova Iguaçu”, que substituíram a cidade da baixada fluminense para “E acordar/Na casa do Gugu.

Assim como ótimo trabalho de recriação de coreografias outrora marcantes, executadas dessa vez pelo sempre excelente Alonso Barros e pelo próprio Charles Möeller.

Resta-me agradecer a Charles Möeller e Claudio Botelho. Graças a eles eu tive a oportunidade de ver um ídolo da minha infância no palco, num espetáculo que se consegue fazer as crianças se divertirem muito, fazem os adultos lembrarem de alguns dos mais felizes momentos de suas infâncias.

 

FICHA TÉCNICA
CHARLES MÖELLER Texto
CHICO BUARQUE, LUIS BACALOV, SERGIO BARDOTTI Música e Letras
MARCELO CASTRO Arranjos e Regência      
ALONSO BARROS Coreografia
ROGÉRIOFALCÃO Cenário              
LUCIANA BUARQUE Figurinos
MARCELO CLARET Design de Som          
PAULO CESAR MEDEIROS
Iluminação
BETO CARRAMANHOS Visagismo
MARCELA ALTBERG Casting    
EDSON BREGOLATO
Direção de Produção
EDSON MENDONÇA/ ALESSANDRA AZEVEDO
Produção Executiva
TINA SALLES Coordenação Artística        
CLAUDIO BOTELHO
Direção Musical
CHARLESMÖELLER
Direção

Elenco:

Renato Aragão Didi
Dedé Santana Dedé
Adriana Garambone  Tigrana
Roberto Guilherme Barão
Tadeu Mello Coisa
Giselle Prattes Karina
João Gabriel Vasconcellos Frank
Ada Chaseliov Zorastra
Nicola Lama Assis Satã 
Livian Aragão Ana/João
Nicolas Prattes Pedro
Diego Luri Ogro
Cristiana Pompeo  Trupe do Circo 
Marcel Octavio Trupe do Circo
Augusto Arcanjo Trupe do Circo
Laís Lenci Trupe do Circo
Zago Mirabelli Trupe do Circo
Andrei Lamberg Trupe do Circo
Gabi Porto Trupe do Circo
Camila Marotti Trupe do Circo
Kostya Biriuk Trupe do Circo (acrobata)
Jessica Gardolin Trupe do Circo (acrobata)
Yulia Suslova Trupe do Circo (acrobata)
Jonatan Karp Trupe do Circo (acrobata)
Erica Henriques Trupe do Circo (acrobata)
Rafael de Abreu Trupe do Circo (acrobata)
Olavo Rocha Trupe do Circo (acrobata)
Fabiana Tolentino (Diretora Assistente / Swing)

 

LOCAL
Cidade das Artes (Grande Sala)

Palpites para este texto:

    • A Giselle está muito bem, Renata. Além disso, ela tem currículo para ser uma das protagonistas de um espetáculo dessa dimensão. Recentemente atuou em “Para Sempre, Abba”, que fez muito sucesso aqui no Rio.

  1. Queria saber se a peça vem para São Paulo e ser avisada com
    Antecedência para conseguir comprar, meus filhos e eu amamos!!!

  2. Livingstone Pinheiro de Rezende -

    Alguém sabe em que cidades foram gravadas as cenas do filme?

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