Crítica: Os Sonâmbulos – Como eclodiu a primeira guerra mundial


 

 sonamb3

Por Renato Mello.

 3-estrelas-valendoO pretexto para o começo da 1ª Guerra Mundial foi o assassinato do arquiduque do Império Austro-húngaro Francisco Ferdinando. Isso todos sabemos e lembramos lá dos tempos dos bancos escolares. Mas o que raramente nos foi explicado é quem era exatamente Francisco Ferdinando? Quais as motivações de Gavrilo Princip para matar Francisco Ferdinando? Por que sua morte desencadeou um dos mais sangrentos embates bélicos da história da humanidade?

Os Sonâmbulos – Como Eclodiu a Primeira Guerra Mundial”, escrito por Christopher Clark, professor de história da Universidade de Cambridge e editado no Brasil pela Companhia das Letras, procura sair do lugar comum em relação à historiografia existente sobre o conflito. Clark não descreve batalhas ou táticas de guerra. Seu olhar está nos gabinetes de embaixadores, monarcas e políticos, fazendo uma vasta pesquisa em documentos públicos e pessoais das cabeças que fizeram a roda da história chegar a esse ponto.

Clark começa em busca de um foco. Já nas primeiras páginas desenvolve uma narrativa ágil e instigante, apontando seu olhar aponta para a Sérvia, mais precisamente na noite de 11 de junho de 1903 em Belgrado, em que rebeldes invadiram o palácio real em plena madrugada vasculhando cômodo por cômodo à procura do Rei Alexandre I e sua mulher. Ao encontraram o monarca escondido num vestíbulo mataram-no barbaramente.

“Pouco depois das duas da manhã de 11 de junho de 1903, 28 oficiais do Exército sérvio aproximaram-se da entrada principal do palácio real em Belgrado. Depois de uma troca de tiros, as sentinelas à porta foram detidas e desarmadas. Com as chaves tomadas do capitão em serviço, os conspiradores entraram no saguão da recepção e seguiram para o dormitório real, correndo pelas escadas e passagens. Encontraram os apartamentos do rei barrados por duas pesadas portas de carvalho. Explodiram-nas com uma caixa de dinamite. A carga fortíssima arrancou as portas dos gonzos e as arremessou para dentro da antecâmara, matando o ajudante real que estava atrás delas. A explosão queimou os fusíveis do palácio, que mergulhou na escuridão. Impassíveis, os intrusos descobriram velas em um aposento próximo e entraram no apartamento real. Quando chegaram ao quarto de dormir, o rei Alexandar e a rainha Draga já não estavam lá. Mas um romance francês jazia aberto com a capa para cima na mesinha de cabeceira da rainha. Alguém notou que a cama ainda estava quente: pelo jeito, tinham saído fazia pouco tempo. Depois de vasculharem o quarto em vão, os intrusos esquadrinharam o palácio à luz de velas, de revólver em punho”….

A partir desse episódio aparentemente isolado, tem início um complexo processo e uma enorme corrida armamentista, graças principalmente a criação da rede terrorista Mão Negra, que tinha enormes tentáculos no seio da nova ordem política regional e que ajudaram a carimbar na Sérvia a fama de ser o grande barril de pólvora da Europa.

Clark então tira o foco da Sérvia e abre seu olhar por toda a organização política vigente na Europa. Uma das teses do livro é não responsabilizar unicamente a Alemanha pelo conflito. Fato esse que acabou gerando uma onda de críticas.

“- Não estou tirando a responsabilidade da Alemanha sobre o que aconteceu. Até porque os alemães têm uma substancial parcela de culpa” disse Clark em recente entrevista ao jornal O Globo, ressaltando ainda que as origens do conflito devem ser analisadas do ponto de vista do cenário europeu da época, levando-se em conta os vários filtros de então: “- Depois da guerra com armas nos campos de batalha, veio a guerra dos documentos”.

Clark opta por vasculhar a complexa rede de eventos, interesses e o equilíbrio de forças dos principais atores do cenário em que se desenrolaram as intrigas, provocações e jogo de interesses, administrados de maneira inapta e desastrada numa batalha de bastidores pelos principais envolvidos em Belgrado, Viena, Londres, Berlim, São Petersburgo e Paris.

Em determinado momento a narrativa tende a ficar um pouco enfadonha, principalmente na descrição da intrigada rede de bastidores. Mas Clark é muito feliz ao descrever os eventos chaves, como no momento em que narra a execução do atentado a Francisco Ferdinando. O saldo final é positivo e tem entre seus grandes méritos de expor a base dos acontecimentos, para podermos melhor compreender as consequências que acabaram por gerar, mesmo que isso tenha algum custo suplementar ao leitor nas 700 páginas desse bom livro.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

maio 2017
D S T Q Q S S
« abr    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031