Crítica: Papai Está na Atlântida


 

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Por Renato Mello.

Um dos mais destacados dramaturgos mexicanos ganha comovente montagem que permanecerá até o dia 17 de setembro no Teatro Eva Herz.

Papai Está na Atlântida” é um texto original de 2005 de autoria do escritor Javier Malpica e que lhe rendeu o prestigioso Prêmio Nacional de Dramaturgia Victor Hugo Rascón no México, tendo sido explorado ao longo desses 11 anos com as mais diversas possibilidades, inclusive no exterior. A narrativa de Malpica centra sua história no desamparo de 2 crianças a partir da emigração paterna para os Estados Unidos, já tendo sido interpretados por 2 atores mirins (numa montagem norte-americana), por 2 meninas, por atores idosos e encontrei até o registro de uma montagem destinada ao público infantil, algo que considero surpreendente diante de uma aspereza que há embutida nas camadas de um texto de grande densidade.

2 Papai Esta na Atlantida webDois irmãos desembarcam no interior do México para o que julgam ser apenas uma temporada na cada da avó. Órfãos de mãe, o pai parte em busca do sonho americano e acaba construindo um gigantesco muro obstaculizando um mundo de aconchego aos filhos, que sob o teto da velha casa da avó vivem diante da obscuridade, da incerteza e da insegurança, agravando-se com a morte desta, mergulhando-os definitivamente numa travessia forçada ao amadurecimento pelas cruezas impostas pela nova vida.

Sem resvalar em nenhum momento a qualquer resquício de pieguice e concessões, mas sem abrir mão do humor e de alguma delicadeza, Malpica constrói uma história emocionante sobre o desamparo, com a capacidade de impor no espectador uma amargura n’alma enquanto testemunham o retrato de 2 crianças que mesmo diante do abismo permitem-se a sonhar com os jogos dos Atlanta Braves numa terra de acolhimento e felicidade utópica.

A direção de Guilherme Delgado dispensa elementos que alienem de distrações para concentrar suas ações na potência da história e na excelente direção de atores. Encontra boas soluções cênicas que preenchem com competência as necessidades dramatúrgicas e ocupa com consciência o espaço físico de modo a alcançar uma representação que dimensiona a tragédia do desamparo infantil.

Para o êxito artístico da prop11 Papai Esta na Atlantida webosta o principal desafio talvez seja expressar os sentimentos de 2 crianças a partir de atores em idade madura como Daniel Archangelo e Ricardo Gonçalves, algo atingido a partir de ótimas atuações, não deixando qualquer resquício caricatural, alcançando a verdade de cada um deles a partir de um adorável jogo cênico. Daniel Archangelo compõe um personagem que se embute da necessidade de se tornar o “homem da casa” por ser o mais velho, ocultando seus medos, sofrimentos e devaneios de um olhar ingênuo em detrimento de uma falsa segurança que pretende guiar os desígnios de seu irmão caçula. Ricardo Gonçalves interpreta o medroso e chorão irmão mais novo, realizando um brilhante trabalho corporal e que busca através da doçura do seu olhar a essência do seu personagem. Daniel Archangelo e Ricardo Gonçalves realizam registros diferentes, mas inteiramente complementares para a proposta dramatúrgica imposta no texto de Malpica.

A variação física da ambientação resume-se além de alguns elementos exposto à margem do cenário, a 3 bancos que vão engenhosamente compondo e transformando o espaço físico para impor o espaço para o desenvolvimento dramatúrgico. Cenografia simples, preenchida pela qualidade narrativa e da encenação de Guilherme Delgado e que ganha a partir de um desenho de luz bem elaborado os contornos dramáticos para a árdua travessia dos personagens.

Apenas como registro gostaria de destacar a relevante safra de autores latino-americanos contemporâneos que tem recebido cuidadosos tratamentos  na cena carioca, como os mexicanos Javier Malpica e Juan Pablo Villalobos, o peruano Gonzalo Rodriguez-Risco ou o argentino Juan Pablo Gómez. A lamentar que somados quantifique-se ainda em número inferior,  como mero exemplo, somente as montagens recebidas pelo romeno Matéi Visniec, que nos 2 últimos anos teve 6 peças em cartaz no Rio(algumas montagens péssimas, outras ótimas) e virou uma espécie de “autor da moda”, independente de sua inegável qualidade. Não sei se a comparação que fiz é injusta ou despropositada, mas foi apenas para ressaltar como ainda necessitamos descobrir os horizontes da dramaturgia latino-americana, algo que “Papai Está na Atlântida” nos proporciona.

Papai Está na Atlântica” é um espetáculo que remexe vivamente em nosso emocional, a partir de texto atual, perturbadoramente real e que ganhou  montagem de inegável qualidade.

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Local: Teatro Eva Herz
Endereço: Livraria Cultura – Rua Senador Dantas, Nº 45 – Centro.
Telefone: (21) 3916-2600
Sessões: Quinta a sábado às 19h
Período: 11/08 a 17/09
Elenco: Daniel Archangelo e Ricardo Gonçalves
Direção: Guilherme Delgado
Texto: Javier Malpica
Classificação: 12 anos
Entrada: R$ 60 (inteira); R$ 30 (meia)
Funcionamento da bilheteria: Quinta a sábado a partir das 17h
Gênero: Drama
Duração: 80 minutos
Capacidade: 178 lugares


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