Crítica: Para Onde Ir


 

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Por Renato Mello

Talvez nenhum escritor tenha tido a capacidade de descrever o tormento d’ alma humana com a mesma profundidade que Fiodor Dostoiévski, a tal ponto que muito se pode encontrar em seus personagens uma prefiguração das ideias de Freud acerca do inconsciente. Isso fica muito explícito quando um personagem secundário cuja passagem se limita a um capítulo de “Crime e Castigo” alça voo próprio para gerar a construção de todo um espetáculo teatral.

Para Onde Ir”, com texto e interpretação de Yashar Zambuzzi, sob direção de Viviani Rayes, leva à Casa de Baco, na Lapa, um monólogo com a “história de Marmieládov, um ex-funcionário público que após perder o emprego entrega-se ao álcool. Em uma Taverna, Marmieládov bebe em uma mesa de bar. Ao ver que o ambiente começa a ficar cheio de fregueses, aproxima-se ora de um, ora de outro, para contar-lhes as dificuldades que passa por conta do vício, a necessidade de sustentar sua família e as desventuras de sua vida”.

Mais além de “Crime e Castigo”, o espetáculo se complementa dramaturgicamente através de “Temporada no Inferno”, de Arthur Rimbaud e na poesia de Bertold Brecht. Mas toda a base de sua estruturação é encontrada em Marmieládov, personagem que cruza um ponto de passagem do transcurso literário de Raskólnikov para ganhar no texto de Zambuzzi o porto seguro que norteará a apresentação de “Para Onde Ir”, sendo destrinchado na atmosfera constituída de mesas, cadeiras, luminárias, reproduzindo uma enevoada taverna russa do século XIX, por onde o ator Zambuzzi derrama os questionamentos e lamentações  de Marmieládov, aprofundando o dimensionamento humano do personagem, convidando o público a refletir sobre (ausências de) motivações e sobre os aspectos que o paralisam diante do correr da sua vida.

O pensamento transcrito nas linhas de Dostoiévski ganham na voz de Zambuzzi a representação física de Marmieládov, como poder já depreendidas por fragmentos contidos na obra original, levados à cena.

– Meu senhor, a pobreza não é um pecado, é a verdade. Sei também que a embriaguez não é nenhuma virtude. Mas a miséria, meu senhor, a miséria… essa sim, essa é pecado…

– Mas se uma pessoa não o vai procurar, a quem é que há de acudir? É forçoso que todos os homens vão aonde podem ir. Porque estamos numa época em que é preciso ir a alguma parte. Quando a minha única filha foi matricular-se na polícia pela primeira vez, fui eu que a acompanhei…

A questões impressas para aquele jovem ex-estudantes de São Petersburgo, Raskolnikov, são tomadas pelas percepções particulares do público instalado na ambientação proposta pela cenografia assinada pelos próprios criadores Yashar Zambuzzi e Viviani Rayes, tendo às mesas um pouco de cachaça ou café, e um punhado de amendoim, enquanto vamos dimensionando sua vida. A direção de Viviani Rayes objetiva ampliar essa visão, conduzindo Yashar Zambuzzi a compartilhar no olho de cada espectador a amplitude do perecer que o personagem flagela para si e para aqueles que ama, atingindo o cerne principal da proposta, humanizando-o.

Essa capacidade de humanização respalda-se inclusive no ótimo trabalho interpretativo do ator, seja na exteriorização das emoções, na gravidade com que emposta a modulação vocal, no desenvolvimento corporal, na maneira como desenha sua movimentação cambaleante, no modo como segura o olhar e na contribuição   do figurino, propositalmente esfarrapado, criado por Rogério França.

A iluminação de Elisa Tandeta reflete sobre a ambientação aspectos que capacitam o transporte para um outro plano físico, aproximando-se da nebulosidade de uma taverna de São Peterburgo e acentuando os momentos graves da narrativa.

Para onde Ir” é uma experiência teatral que carrega toda uma densidade dramatúrgica que abre as janelas para a compreensão do espectro humano de um personagem soterrado pelas suas próprias misérias pessoais, que largou-se em algum ponto de sua estrada de vida.

Ficha Técnica:

Para Onde Ir

Elenco: Yashar Zambuzzi/ Texto: Dostoiévski e Rimbaud, fazendo uma homenagem a Brecht/ Adaptação e atuação: Yashar Zambuzzi

Direção: Viviani Rayes/ Figurinos: Rogério França/ Iluminação: Elisa Tandeta/ Trilha Original: Chico Rota/ Cenário: Yashar Zambuzzi e Viviani Rayes

Assessoria de Imprensa: Duetto Comunicação/ Programação Visual: Thiago Ristow, Thiago Fontin e Raphael Jesus/ Ilustrações: Raphael Jesus

Fotos de Cena: Lu Valiatti/ Idealização: Te-Un TEATRO/ Produção Executiva e Realização: Rayes Produções Artísticas

 


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