Crítica: Para os que Estão em Casa


 

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Por Renato Mello.

Em temporada até o dia 08 de fevereiro, o teatro de arena do SESC Copacabana apresenta neste momento um belo espetáculo, “Para os que Estão em Casa”, escrito e dirigido por Leonardo Netto.

A peça trata de temas absolutamente atuais dentro do mundo que se constituiu atualmente a nossa sociedade, em que o mais aparente é a “comunicação”(ou a sua falta), no sentido mais amplo que essa palavra pode oferecer, pela inter-relação de nossas vidas em função da tecnologia e a construção dos nossos mundos através das conexões. Paradoxalmente, a “solidão” caminha em paralelo com tanta interação a partir do momento que excedemos nas relações virtuais em detrimento das reais. A grande questão que se coloca é afinal se tanta tecnologia nos aproxima ou nos afasta.

O ponto de partida na concepção do espetáculo surge de “Denise Está Chamando”, filme de 1994, dirigido por Hal Salwen. Embora tenha visto esse filme há muitos anos, em minhas recordações essa produção aponta para um certo pessimismo sobre a invasão tecnológica de nossas vidas, num tempo, estamos falando do início da década de 90, que os meios de comunicação e interação nem de longe se comparam ao que temos disponíveis atualmente.

Para os que estao em casa _2_Crédito Julia Rónai

Não percebi alguma tentativa de julgamento por parte Leonardo Netto, que faz com “Para os que Estão em Casa” sua estreia como dramaturgo. Em “Para os que Estão em Casa” existe acima de tudo um retrato contemporâneo de nossas relações. Pode-se afirmar que a estreia de Leonardo como autor é bastante auspiciosa, criando uma estrutura sólida, com ritmo, ótimos diálogos, interessantes situações, espaço para reflexão e bastante humor. O teatro de arena foi o espaço perfeito para a sua proposta, com o espaço sendo ocupado de maneira extremamente eficiente pelos 7 atores, Adassa Martins, Ana Abbott, Beatriz Bertu, Cirillo Luna, Isabel Lobo, João Velho e Renato Livera. Talvez um formato mais convencional perdesse um pouco do impacto e da essência da proposta inicial. No palco, cada ator se torna uma representação de 6 ilhas. Isolados um dos outros, cercados por seus mundos particulares, compostos basicamente computadores, laptops, celulares, alguns poucos móveis e livros pessoais. O que os une são as ondas eletromagnéticas entre seus respectivos aparelhos. É através delas que se dão as mais intensas relações, com interação permanente, mas sem nunca se encararem nos olhos. A exceção dessa configuração é a personagem interpretada por Beatriz Bertu, que surge sempre de modo inesperado, mas sem perder a virtualidade do seu status.

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Em relação ao elenco existe uma homogeneidade nas atuações, com todos no mesmo tom e de maneira adequada ao universo projetado por Leonardo Netto, mesmo que alguns personagens sobressaiam um pouco mais que outros e algumas relações acabem se tornando um pouco mais interessantes, como a vivida por Isabel Lobo e Renato Livera, ou ainda a personagem de Ana Abbott, que demonstra uma maior incidência sobre a vida dos demais personagens, tentando interferir positivamente no destino alheio. Porém é necessário ressaltar que todo o elenco tem bela atuação, em que mais uma vez é necessário destacar o trabalho de Leonardo Netto, agora na direção de atores, que foi preponderante para colocar todos no mesmo nível e falando o mesmo idioma.

Para os que estao em casa II 58b

Não tem como deixar de ressaltar o excelente trabalho de iluminação realizado por Aurélio di Simoni, criando um ou dois focos para cada uma das várias ações que ocorrem permanente, facilitando nossa fixação ao que realmente interessa em cada momento. Assim como o cenário de José Dias, elaborando com grande qualidade e funcionalidade o universo para casa uma das “ilhas” em que habitam os personagens.

Confesso que fui assistir “Para os Que Estão em Casa” despretensiosamente. Foi a melhor coisa que fiz. Poucas coisas nessa vida são tão prazerosas como entrar desarmado num teatro e sair muito feliz por ter visto um espetáculo de ótima qualidade.

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Fotos: Vicente de Mello e Júlia Rónai.

FICHA TÉCNICA
Texto: Leonardo Netto
Concepção e Direção: Leonardo Netto
Elenco: Adassa Martins, Ana Abbott, Beatriz Bertu, Cirillo Luna, Isabel Lobo, João Velho e Renato Livera
Participação em vídeo: Andréa Dantas e Santiago Karro Trémouroux
Cenário: José Dias
Iluminação: Aurélio de Simoni
Figurinos: Marcelo Olinto
Vídeos: Leonardo Netto e Renato Livera
Trilha Sonora: Leonardo Netto
Design Gráfico: Lê Mascarenhas
Fotografia: Vicente de Mello
Assistência de Direção: Júlia Rónai
Direção de Produção: Luísa Barros
Produção Executiva: Carol Kern
Realização: Fulminante Prod. Culturais e Capitão Comunicação e Cultura
Parceria: SESC

SERVIÇO
Temporada: de 16/01 a 08/02
Local: Espaço Sesc – Teatro de Arena
(Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana)
Horários: Quinta a sábado, às 20h30. Domingo, às 19h


Palpites para este texto:

  1. Regina Cavalvcanti -

    Sua resenha me deixou bastante interessada, vou conferir!

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