Crítica: Paraíso Zona Sul


 

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Por Renato Mello.

Jô Bilac, um dos mais notáveis dramaturgos do teatro brasileiro está presente novamente nos palcos cariocas através da montagem do espetáculo “Paraíso Zona Sul”, que se encontra em cartaz na Sede das Cias, na Lapa, sempre às quartas, quintas e sextas-feiras, numa temporada que se estenderá até o dia 22 de maio.

Realizado pelo Grupo Fragmento e com direção de Nirley Lacerda, “Paraíso Zona Sul” parte de 6 histórias curtas e independentes escritas por Bilac para construir um mosaico de tipos humanos que habitam a Zona Sul carioca sob a ótica e o universo muito particular do autor, atados por todo o turbilhão de acontecimentos que ocorrem em meio a loucura de uma metrópole como o Rio de Janeiro. A fragmentação da dramaturgia, tal como a psique humana, acaba por fazer uma interessante investigação sobre as distinções comportamentais, com personagens que se cruzam nos entreatos para cada um deles ganhar sua vida própria. Jô Bilac, como nenhum autor nacional contemporâneo viaja com tanta fluidez pela comicidade, ambiguidade e suplício da alma com habilidade e talento, expondo a podridão do caráter interior do ser humano com inteligência ao colocá-lo em situação de humor e ridículo. Nos seus textos, em especial nessas histórias mais curtas, a influência de Nelson Rodrigues é bastante notória, sendo inclusive uma das cenas mais interessantes do espetáculo uma livre citação de “Beijo no Asfalto”.

Se olhar, de perto ninguém é normal”, frase atribuída a Nelson Rodrigues, no fundo é uma boa síntese dos personagens que habitam o “Paraíso Zona Sul”. São tipos comuns, com quem podemos cruzar facilmente em cada esquina, mas que escondem um lado obscuro. Os 5 atores se revezam nos mais distintos e ordinários papeis, como o dono de uma doceria na Glória atormentado pela dúvida da fidelidade da mulher após receber um telefonema anônimo, um jovem médico pretendente a mão de uma moça com poucos atributos físicos, o jovem que aguarda ansioso na sala de estar a chegada da garota que vai levar ao baile enquanto recebe um estranho assédio da sogra, o surfista pressionado pela namorada a passar num concurso público, a namorada que é apresentada a futura cunhada. Situações absolutamente prosaicas, mas que Jô Bilac consegue enredar e transformar o normal em algo muito mais complexo e interessante quando o patético ganha uma maior dimensão e mesmo a patologia passa a sufocar a alma humana, mas sem jamais perder o humor. Assim como seus ótimos diálogos em frases desconcertantes e que, talvez, só quem mora no Rio de Janeiro consiga entender, como: “Eu não caso sem seu nome sair na Folha Dirigida”.

Algumas das histórias de “Paraíso Zona Sul” já tinha tido a oportunidade de assistir num outro espetáculo apresentado ano passado no Rio, “Delírios e Vertigens”, dirigido por Rita Clemente. Porém o mais interessante é como as mesmas histórias podem novamente ser vivenciadas em cena de modos tão distintos e igualmente belos, demonstrando as diversas camadas que podem ser encontradas em qualquer texto de Bilac.

As situações acima são expostas em cena com muita habilidade pela diretora Nirley Lacerda, sabendo com extrema competência criar uma ambientação propícia para revelar universos distintos dentro de uma mesmo espaço físico. Delimitou o palco em 5(talvez 6) áreas bem demarcadas, divididas entre si por corredores ou ruas(como preferir), aproveitando-se da profundidade do palco para trabalhar com ambientações diversificadas e fazendo com que cada espaço cênico tenha seu próprio universo particular, sendo importante para tal composição a cenografia criada por Vanessa Alves, importante elemento para o trabalho de criação final de Nirley Lacerda,  assim como a bela iluminação de João Gioia, que explora diversos modos o seu trabalho, realçando as diferenças propostas pela diretora para cada história.

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O elenco é formado por Ana Carolina Dessandre, Carolina Ferman, Diogo de Andrade Medeiros, Elio de Oliveira e Monique Vaillé, no qual devido a estrutura dramatúrgica é absolutamente necessário que ocorra uma homogeneidade de atuações em tipos tão heterogêneos, o que foi conseguido na boa direção de atores executada por Nirley Silveira. “Paraíso Zona Sul” é um trabalho de grupo e tal fato fica bastante nítido em cena. É o típico trabalho que realizar destaques individuais dentro de uma bela atuação coletiva seria algo inteiramente injusto. Há uma correta movimentação em cena, ocupação de espaço, mesmo se exista uma fragmentação em cena, bom trabalho de composição, com personagens pungentes e sem jamais caírem no estereotipo, mesmo diante de comportamentos pouco convencionais de alguns.

Voltando a falar de elementos cenográficos, interessante notar também os pequenos detalhes ou pistas colocadas em cena para situar o espectador, seja mesmo no figurino através do desenho da calçada de Copacabana no salto de um sapato, seja uma foto de Roberto Carlos num típico jornal de bairro para imediatamente nos remeter a Urca ou uma mera sacola com referência a Ipanema.

Os figurinos de Patrícia Muniz dão importante contribuição a criação dos personagens. Bem desenhados, adequados para tão diferentes personagens. Belíssimo trabalho de Patrícia Muniz!

Uma curiosidade na ficha técnica do espetáculo é a informação: “luxuosa colaboração artística: Carol Garcia”. Não sei exatamente no que reside sua colaboração ao resultado final, mas pela sua excepcional atuação em “Bodas de Fígaro”, de Daniel Herz, em que se apresentou em cena como uma atriz de vastíssimos recursos, numa das melhores atuações que presenciei no final do ano passado, sua presença na equipe de criação de qualquer espetáculo é um enorme ganho.

Paraíso Zona Sul” é mais um ótimo espetáculo teatral que nos dá mais uma oportunidade de estarmos em contato com um dos mais interessantes dramaturgos do teatro contemporâneo brasileiro, numa montagem competente e de difícil transposição para o palco devido a dificuldade de criar uma estética única para diversos ambientes. Exitosa pelas mãos de uma diretora talentosa e com um elenco que teve a sensibilidade de se diversificar sem jamais perder o foco principal nos textos de tanta qualidade.

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SERVIÇO:
De 06 a 22 de maio – Estréia da peça “Paraíso Zona Sul” na SEDE DAS CIAS
Endereço: Rua Manoel Carneiro 10, Lapa
Informações: (21) 2137-1271
Classificação indicativa: 16 anos
Preço do ingresso: R$ 20,00 (inteira)
Duração do espetáculo: 60 min
Gênero: tragicomédia
Horário: 20h
Temporada: quartas, quintas e sextas (06/05 à 22/05)
Compre pela internet: http://www.compreingressos.com/espetaculos/4365-Paraiso-Zona-Sul

FICHA TÉCNICA
Texto: Jô Bilac
Direção: Nirley Lacerda
Elenco: Ana Carolina Dessandre, Carolina Ferman, Diogo de Andrade Medeiros, Elio de Oliveira e Monique Vaillé
Trilha Sonora: Frederico Demarca
Operador de Som: Carolina Krause
Iluminação: João Gioia
Figurino: Patrícia Muniz
Cenografia: Vanessa Alves
Luxuosa Colaboração Artística: Carol Garcia
Orientação de Movimento: Marcelle Sampaio


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