Crítica: Peça Ruim


 

 

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Por Renato Mello.

É sempre necessário que existam espetáculos que se apresentem no circuito teatral para tira-lo do convencional e do banal, trazendo um enorme frescor através de um jorro incessante de criatividade e inquietude. Não é sempre que isso acontece, mas quando nos deparamos com eles, dá-nos um sentimento de que é sempre importante manter a crença que é na liberdade de criação que encontraremos o pleno prazer teatral. Foi justamente esse prazer que “Peça Ruim” me proporcionou.

O espetáculo, escrito e dirigido por Daniel Belmonte se encontra atualmente em cartaz no Sesc Tijuca e de modo mais aparente fala sobre o processo de concepção de um espetáculo teatral de uma companhia, trabalhando o tempo todo com a metalinguagem, do teatro dentro do teatro. Mas ao abordar esse processo de concepção, traz à tona outros elementos interessantes, como o exercício do poder e também embute uma grande sátira dos bastidores teatrais.

Conheci o trabalho de Daniel Belmonte através da montagem de “Uma Carta Perdida”, um trabalho bastante interessante, mas que exigia uma linha de criação mais clássica e convencional, que resultou numa deliciosa comédia. Em “Peça Ruim” há de minha parte uma nova descoberta de um autor e diretor sem amarras e liberto para levantar voo.

Para tentar definir o que é “Peça Ruim”, prefiro me apoiar em sua sinopse oficial:

Um diretor de teatro está em crise. Ele se vê perdido entre o confuso processo de ensaio da peça de sua companhia e a paixão não correspondida por uma atriz. Como forma de desabafo, decide escrever uma Peça Ruim, onde pode exprimir seus verdadeiros pensamentos em relação a seus atores, que julga ser um bando de idiotas, e se aproveitar da mulher por quem é apaixonado. Na peça ele se dá o nome de Bisão e divide sua atenção entre a Tal Garota Que Tem Mexido Com A Minha Cabeça, nome que dá a sua musa no plano ficcional, e a necessidade de manifestar que está completamente sem rumo como diretor e condutor de um grupo. A companhia está ensaiando Édipo Rei, uma proposta mais do que pretensiosa para a experiência do grupo. Tudo fica ainda pior quando o projeto passa para um edital da Bahia e a única condição para que eles possam ser contemplados com o financiamento é que o grupo seja composto por baianos. A companhia de atores cariocas decide, em comum acordo, ensaiar o clássico grego com sotaque nordestino.

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O roteiro de Daniel é muito bem escrito e possui diálogos que deixam a plateia inquieta com as situações inusitadas que vão se sucedendo, deixando uma perplexidade sobre a opção pelos caminhos escolhidos. A grande dificuldade residiria na sua execução, dar uma ordem lógica ao que aparentemente não tem ordem. Olhando de maneira superficial, parece que existe em cena um enorme caos, o que é um equívoco. Existe por trás um diretor que tem a perfeita noção do que pretende, mas que deixa um enorme caminho aberto para uma experimentação sem ter medo de correr riscos. Sua aposta foi acertada e o público premiado com uma apresentação muito original.

Além de dar ordem ao aparente caos, outra tarefa difícil para a proposta desse espetáculo é conseguir buscar o tom correto dos seus atores. Dando-lhes espaço para a subversão, mas sem que resvalassem no exagero, além da ordenada movimentação em cena, aparentando anarquia, o que torna ainda mais complexa a realização.  O elenco é composto por André Dale, Adriano Martins, Marianna Pastori, Hernane Cardoso, Leo Bianchi, Joana Castro e Pedro Thomé, que tem conjuntamente papel preponderante no processo de criação de Daniel, como já havia ocorrido em “Uma Carta Perdida”. Ouso afirmar que vejo em Daniel um diretor de prima pelo trabalho de criação coletiva e que se satisfaz em desenvolver seus espetáculos em contato direto com seus atores. Bisão, interpretado por André Dale, não é seu alter ego, mas uma antítese do diretor, justamente aquilo que ele não acredita, ressaltando o caráter crítico do espetáculo.

André Dale e Adriano Martins, longe de serem os atores idiotas de Bisão, são importantes colaboradores. André, ator de personalidade marcante em cena, faz um interessante trabalho de criação para seu diretor teatral. Que ótimo ator é André Dale! Dá prazer vê-lo representar. Assim como o “idiota favorito”, Adriano Martins, outro excelente ator. Marianna Pastori, a Tal Garota Que tem Mexido Com a Minha Cabeça, também se insere nesse mesmo processo. Em “Uma Carta Perdida”, Adriano foi co-autor do roteiro, enquanto Marianna assinou os figurinos e o visagismo, ressaltando esse caráter cooperativo. Em “Peça Ruim” ambos conseguem com bastante força cênica expressar as ideias contidas no roteiro em atuações muito bem concebidas e medidas. Hernane Cardoso é um show à parte, seja como Ricky ou seja deixando “Édipo penetrar” no seu ser. Hernane trabalha com a grandiloquência, transformando sua presença em algo impossível de tirar o olho em cena e é responsável pelas maiores risadas da plateia. Todos os atores estão plenamente inseridos na proposta. Mesmo pra aqueles cujos papeis tenham menos destaque, possuem importância cênica e dramática, realizando uma harmônica atuação em conjunto, como Joana Castro, Pedro Thomé e Leo Bianchi.

Peça Ruim” trabalha em todos esses elementos com a falsa desordem e negligência técnica. Os elementos cenográficos são panos velhos, que viram figurinos de Édipo ou estruturas de cenário, mas totalmente dentro do contexto expresso no roteiro. Assim como os “trapos” dos atores e as aparentes falhas da iluminação estão no contexto da atmosfera criada. Nada é o que demonstra ser. Tudo tem um propósito que fazem de “Peça Ruim” um grande prazer para quem gosta do teatro em sua mais profunda essência.

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Peça Ruim
Sesc Tijuca – Rua Barão de Mesquita, 539, Tijuca, Rio de Janeiro – RJ telefones: (21) 3238-2100 / (21) 3238-2129
Horário: 19 horas

FICHA TÉCNICA

Texto e direção: Daniel Belmonte
Elenco: Adriano Martins (Ator de Teatro), Andre Dale (Bisão), Hernane Cardoso (Ricky), Joana Castro (Idiota 3), Leo Bianchi(Idiota 2), Marianna Pastori (Tal Garota Que Anda Mexendo Com a Minha Cabeça), Pedro Thomé (Idiota 1)

Iluminação: Felipe Lourenço
Cenografia: Julia Marina
Figurino: Anouk Van der Zee
Supervisão de figurino: Colmar Diniz
Assistente de direção: Leonardo Bianchi
Fotos: Lourenço Parente e Rodrigo Daboit
Programação visual: Felipe Moreno e Kevin Costa
Preparação vocal e orientação em prosódia: Leila Mendes
Supervisão teórica: João Cícero
Produção: Daniel Belmonte e Daniel Zubrinsky


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