Crítica: Pequenos Poderes


 

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Por Renato Mello.

Terminou na semana passada a temporada do espetáculo “Pequenos Poderes” na Sede das Cias, na Lapa. Uma pena ter assistido a essa montagem apenas no seu último dia de apresentação, pois assim perde-se um dos papeis da crítica, orientar e situar o público entre as opções de escolha de um espetáculo teatral. Mas penso ser também importante deixar o registro do trabalho de artistas e técnicos, na esperança que volte a se apresentar numa nova temporada, até porque tem grandes predicados para isso.

Pequenos Poderes” teve sua produção viabilizada através de financiamento coletivo, a partir de uma idealização de Diego Molina e contou com a direção de Breno Sanchez. Aborda com um humor vivo os conflitos típicos das relações humanas, colocando uma ênfase no inusitado que situações banais acabam por gerar numa sociedade desestruturada em seus valores morais. Assumidamente satírica, os distintos painéis vão se entrelaçando para montar um enorme mosaico dos absurdos que nos deparamos cotidianamente, em que em muitas vezes a lei do mais forte(ou do mais esperto)acaba por prevalecer.

O texto escrito por Diego Molina ressalta essas situações com uma estrutura dramatúrgica que explora com enorme competência distintas zonas do humor, com diálogos rascantes e que surpreendem o tempo todo com o inesperado. O texto muito bem trabalhado, consegue correr solto e não tem o menor pudor em passar ao largo do politicamente correto, sem se preocupar com temas que são alvos constantes de patrulhamento, brincando com assuntos que infelizmente estão quase que virando tabus no humor, como a religião, o regionalismo, deficiência física e a sexualidade. Pode-se apontar exageros, mas é justamente assim que a sátira trabalha, ela ridiculariza e aumenta consideravelmente os fatos, a ponto de transformar um acontecimento banal em algo ridículo. A sátira é cruel e avassaladora, por isso mesmo tão eficiente e  temida.

Através de uma boa dinâmica cênica, Breno Sanchez estrutura as distintas cenas sem perder o ritmo em nenhum momento, mesmo nas mudanças da ambientação. Conduz ainda seus atores para boas atuações, sabendo exatamente o tom a explorar a cada momento, mesmo naquelas em que há um exagero necessário e contextualizado.

O elenco é formado por Andy Gercker, Bia Guedes, Mariana Consoli e Zé Auro Travassos, que formam um elenco harmonioso, que usa todas as armas do humor, explorando com êxito a expressão corporal, com cada um dos 4 integrantes com seu momento de protagonismo. As transformações por que passam os atores em exíguo tempo acaba por exigir uma gama de possibilidades muito bem aproveitadas, onde por exemplo, um padre se transforma na sequência seguinte num afetado dançarino de programa de auditório. Os eventuais exageros com gestos, caras e bocas são justificados em decorrência da proposta do espetáculo e atingem em cheio o objetivo.

O cenário, criado pelo próprio Diego Molina, é formado basicamente por mesas e cadeiras, pensadas de modo funcional para que a ambientação fosse alterada repentinamente a cada mudança de contexto, o que acabou sendo bastante eficiente para a proposta.

Ótima iluminação de Ana Luzia de Simone, utilizando eficientemente as laterais do palco e realçando as diversas situações que por vezes ocorria dentro de um mesmo espaço cênico.

O figurino de Bruno Perlatto tinha a missão de procurar algo eclético, variado para as mais distintas cenas, ambientações e que ao mesmo tempo fosse funcionais para as mudanças repentinas. Bruno foi bastante competente, alcançando o objetivo, num figurino que além de correto para cada personagem, conseguia também surpreender.

Um espetáculo muito divertido e que sinceramente, espero que tenha novas temporadas para que possamos dar boas risadas de nossas próprias misérias como seres humanos.

FICHA TÉCNICA
Texto e Idealização: Diego Molina
Direção: Breno Sanches
Elenco: Andy Gercker, Bia Guedes, Mariana Consoli e Zé Auro Travassos
Desenhos: Nani
Iluminação: Aurélio de Simoni e Ana Luzia M. de Simoni
Figurinos e Direção de arte: Bruno Perlatto
Cenografia: Diego Molina
Trilha sonora: Armando Babaioff
Programação visual e Vídeos: Ananda Campana
Produção executiva: Fernanda Pascoal
Produção: Pagu Produções


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