Crítica: Perdoa-me por me Traíres


 

Perdoa-me

Por Renato Mello

Terminou no último fim de semana a temporada da montagem de Daniel Herz para a obra de Nelson Rodrigues, “Perdoa-me por Me Traíres”, na Casa de Cultural Laura Alvim. Me penitencio pela impossibilidade de publicar este texto em tempo hábil, mas creio ser relevante para o blog deixar um registro do trabalho realizado.

O dimensionamento do quanto a obra penetra nas zonas sensíveis do espectador, despertando mesmo os mais absurdos instintos, pode ser depreendido de um episódio ocorrido na primeira vez que o texto foi encenado em 1957, no Teatro Municipal, narrado no livro “O Anjo Pornográfico”, de Ruy Castro:

O pano caiu, parte da plateia começou a aplaudir, a maior parte a vaiar. Nelson Rodrigues veio à boca de cena e se pôs a chamar a plateia de ‘Zebus’! Wilson Leite Passos sentiu-se na obrigação de lavrar um protesto contra aquela cena desprimorosa num próprio da municipalidade. Afinal, era um vereador.
Valendo-se de uma voz de tribuno, conseguiu-se fazer ouvir sobre a balbúrdia e declarou
‘É um deplorável atentado à moral e aos bons costumes, incompatível com um teatro destinado a óperas, balés e clássicos sinfônicos!’
Um cidadão, dos que aplaudiam, afrontou-o no próprio balcão: ‘palhaço’!
Wilson Leite Passos, desabituado a esse tratamento, reagiu: ‘palhaço é você’!
O homem partiu para cima dele. Wilson Leite Passos empurrou-o…sacou sua arma…o bafafá transformou-se em tumulto, com espectadores dando shows de saltos ornamentais e corrida de obstáculos, pulando do balcão para a orquestra e galopando por cima de poltronas para salvar a vida. Ninguém sabe se houve um tiro”.
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Deixo aqui um relato de cunho pessoal da cena transcrita. Uma tia minha estava nessa sessão. Grávida, acabou perdendo o bebê.

Ainda em 1957 os críticos travaram uma contenda sobre seus valores. Simão de Montalverne, no “Última Hora” afirmava se tratar de uma obra “profundamente moralista.

“Basta como prova ver os degenerados e as degenerações que ele lança ao castigo e à condenação, sem a mínima piedade, sem o menor ensejo de remissão. Cremos que, sob este ponto, aliás, há em Nelson Rodrigues uma preocupação senão exagerada pelo menos tumultuária, tão grande a sua ânsia de perfeição do ser humano como espécie e como elemento da sociedade”.

Já nas hostes do “Diário de Notícias”, Henrique Oscar, mais além de classifica-la entre as piores do dramaturgo, apesar de reconhecer uma “estrutura entrosada” e “algumas frações de cenas boas”, mas…

como em tantas outras de suas obras, para não dizer em quase todas, essas qualidades indiscutíveis de dramaturgo que Nelson Rodrigues possui, submergem afogadas numa avalanche de morbidez e grotesco gratuitos, de um absurdo, de uma falta de verossimilhança que domina tudo e que fazem pensar numa procura pura e simples de sensacionalismo, de escândalos”.

Ainda no “Diário de Notícias” Paulo Francis escreveu sobre a peça:

As atitudes de Nelson Rodrigues antes e depois da estreia de suas peças já lhe renderam o apelido de Dr. Clichê. Sempre a loucura! Loucura entre aspas, com método, como a de Hamlet, mas sem a lucidez e a ressonância dos ‘disparates’ shakespearianas (…) Quem escreveu ‘Álbum de Família’ e ‘Senhora dos Afogados’ deveria saber que o palco não é picadeiro”.

Em relação as palavras de Paulo Francis, Nelson Rodrigues rebateu:

Graça a ‘Perdoa-me por me traíres’, desembaracei-me, afinal, de várias admirações intoleráveis… [por exemplo] o sr. Paulo Francis, débil mental evidente, que por várias vezes apontou-me como o mais importante autor brasileiro …

O tempo tende a ser libertador, no sentido que esse distanciamento permite-nos um olhar sem as passionalidades passadas para percebermos as sutilezas das entrelinhas de uma obra controversa desde seu nascedouro. Longe de ser datado, embora seu texto tenha uma contextualização muito específica no espaço físico, social e temporal, não se espera nos dias atuais destemperamentos mesmo de figuras sinistras como o então vereador Wilson Leite Passos(embora figuras sinistras à espreita não nos faltem) ou a agressividade gratuita de Paulo Francis, assim como a banalidade com que absorvemos as informações mais extremas de nossos tempos parecem nos anestesiar ao ponto que perdermos a capacidade de impactarmo-nos pelo sentimento de que tudo já vimos, mesmo que seja com uma obra artística. As inúmeras montagens das obras de Nelson Rodrigues ao longo desses últimos 60 anos nos retira algum efeito perturbador, mas deixa-nos mais abertos para percebermos a profundidade que se esconde por trás dos atos  e comportamentos extremados de seus personagens.

Como aponta sua própria sinopse oficial, “depois de matar a cunhada infiel, Raul (Ernani Moraes) passa a vigiar ferozmente a sobrinha, sob o pretexto de preservar sua castidade. Mas Glorinha (Clarissa Kahane) acaba conhecendo o mundo dos bordéis ao mesmo tempo em que prepara uma terrível vingança contra o tio”.

O conceito do espetáculo de alguma forma é depreendido na leitura de seu título, que transparece a delicadeza íntegra por trás da contundência das motivações dos personagens, mesmo que pela inconsciência. “Perdoa-me por me Traíres” tem uma divisão dramatúrgica muito bem demarcada ao longo de 3 atos em que passado e presente permeiam-se mutuamente, talvez por isso mesmo, sua irregularidade acabe por aclarar-se mais nitidamente, com um início extremamente vigoroso que acaba se diluindo rumo a um melodrama de moral pequeno-burguesa. Dentro daquilo que convencionou na sua obra como “tragédia carioca”, contém arquétipos que acompanharam seus textos, como a estudante que se prostitui, a cunhada impossível(“só conhece o amor quem possui a “cunhada impossível”) ou a esposa catatônica. A moral pequeno-burguesa fica bem representada no momento em que o personagem Gilberto(Marcelo Pallotino) é pressionado pelos seus parentes à infrigir um castigo contra sua mulher, cobrando-lhe uma humilhação pública, assim como Raul(Ernani Moraes) expressa a contradição de seus sentimentos quando defende que a adúltera deve ser punida, ao mesmo tempo que isso só ocorre porque repele os sentimentos de quem “verdadeiramente a amava”, aonde a honradez masculina se manifesta explicitamente no desejo tácito que Judite seja  de fato uma adúltera para manter relações extraconjugais com ele.

Daniel Herz elabora uma concepção cênica limpa e despojada, utilizando-se apenas de longas persianas para separar ambientes e tempos físicos, em que a cenografia de Fernando Mello da Costa, sob o efeito da iluminação de Aurélio de Simoni ocultam e revelam a essência das cenas e dos personagens, aclarando as intenções e imprimindo fluência rítmica. Daniel Herz realiza uma leitura fiel ao tempo rodrigueano, mas sem se prender obrigatoriamente à correntes estilísticas, concebendo dentro do seu despojamento cenográfico um espaço apropriado para criar cenas com a gradação em consonância às necessidades do texto de Nelson Rodrigues, mas cuidadosamente evita algum transbordar desnecessário nas emoções afloradas.

O elenco formado por Bebel Ambrosio, Bob Neri, Clarissa Kahane, Ernani Moraes, Gabriela Rosas, João Marcelo Pallottino, Rose Lima, Tatiana Infante e Wendell Bendelack tem papel preponderante na relevância artística atingida, com atuações harmônicas em suas intensidades e na qualidade com que alcançam a dimensão do tormento que aflige a alma de todos os personagens em suas contradições interiores. Clarissa Kahane tem um ótimo desempenho vivendo a protagonista Glorinha, a reprimida órfã que tem como único freio para seus impulsos o demasiado temor que tem pelo tio. O ponto de destaque se revela na excelente recriação de Daniel Herz para a cena do bordel em que é “iniciada” com o Deputado Jubileu(Bob Neri), aonde o inusitado atinge o píncaro da sordidez, graças ao diálogo cênico realizado por ambos atores.

DR. JUBILEU – Ora veja! Quer dizer que você nem conheceu sua mamãe… Mas deve ter retratos, lembranças!
GLORINHA – O senhor está me apertando!
DR. JUBILEU – Sabe datilografar? Te arranjo um lugarzinho, sim, arranjo. Mas olha: não repare no que eu disser não… As duas modalidades de eletrização que podemos observar nos corpos correspondem às duas espécies de carga elétrica encontradas no átomo. Não se mexa: fique assim!
GLORINHA – Me largue! O senhor está maluco!
DR. JUBILEU  – Não interrompa! Não me interrompa!
GLORINHA  – Velho gagá!

Ernani Moraes destaca-se na vitalidade imposta através da expressividade corporal e potência vocal, que vestem o ator de uma temível imagem para Raul. Admirável atuação de Ernani Moraes! Bebel Ambrosio representa exitosamente a colegial que conduz Glorinha ao universo da prostituição, ampliando a expressividade de sua atuação na cena do aborto. Gabriela Rosas trabalha com adequação da dualidade imposta entre a esposa adúltera e oprimida. Tatiana Infante vive a cafetina Madame Luba, realizando bom trabalho de composição.  João Marcelo Pallottino vive o marido atormentado, atingindo adequada modulação para expressar sua perturbação, Rose Lima é a esposa doente que vagueia pelas ambientação, enquanto Wendell Bendelack se destaca pelo consistente trabalho de composição e encontrando o equilíbrio para dar a veracidade a um  personagem que possui complexidade, acertando numa modulação que o impede  de atravessar tons que soariam desnecessários.

Os figurinos de Antonio Guedes tem capacidade para revestir os personagens com adequação, contribuindo com o processo de composição do elenco como um todo.

Perdoa-me por me Traíres” resulta numa montagem de alto nível para uma das mais controversas, dentro da já controversa obra de Nelson Rodrigues.

Ficha Técnica:
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Daniel Herz
Elenco: Bebel Ambrosio, Bob Neri, Clarissa Kahane, Ernani Moraes, Gabriela Rosas, João Marcelo Pallottino, Rose Lima, Tatiana Infante e Wendell Bendelack
Direção musical: Ricco Viana
Direção de movimento: Duda Maia
Iluminação: Aurélio de Simoni
Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurino: Antônio Guedes
Assistente de direção: Tiago Herz
Assistente de figurino: Renata Mota
Programação visual: Leticia Moraes
Consultoria psicanalítica: Evelyn Disitzer
Assessoria de Imprensa: MNiemeyer
Coordenação financeira: Rinoceronte Entretenimento
Produção executiva: Fernanda Alencar
Direção de Produção: Renata Campos

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