Critica: Poderosa Vida não Orgânica que Escapa


 
poderosa-vida-nao-organica-que-escapafoto-de-Thais-Grechi02.jpeg

Foto: Thaís Grechi

Por Renato Mello

Um dos aspectos que ressaltam na análise de um espetáculo como “Poderosa Vida Não Orgânica que Escapa” é a liberdade de experimentação que Diogo Liberano se permite no esteio criativo dos espetáculos da Companhia Teatro Inominável, na qualidade de diretor artístico e dramaturgo. Eu entendo que o trabalho dentro de uma Companhia é fundamental no desenvolvimento artístico, seja de um ator, autor ou diretor, um espaço em que seus ímpetos criativos devem ser sempre estimulados.

Essa observação ganha contornos mais nítidos quando teço uma linha comparativa dos seus trabalhos realizados “sob encomenda”. Só para citar alguns: “Santa”, “Janis”, “Os Sonhadores”, “Santa Joana dos Matadouros”, em que mesmo que o lado autoral ali ganhe acentuações mais sutis, seus traços pessoais não se diluem justamente pela forma com que o trabalho livre de amarras na Companhia lhe proporciona as ferramentas técnicas e a visão artística para encontrar um equilíbrio na divisão entre o que seriam seus impulsos teatrais originais e os de quem contrata um autor para desenvolver seus desejos artísticos. Se tivermos em conta o estrito repertório da Teatro Inominável, com algumas proposições bem resolvidas e outras nem tanto, é possível perceber na  inquietude o maior propulsor contra a obviedade narrativa e uma linearidade criativa, algo que tenho observado em alguns importantes autores de nossa cena teatral. Me passa o sentimento que Diogo Liberano tem plena consciência dos riscos de sua inquietação, mas que pouco se importa com eles. E como isso faz bem ao teatro!

O CCJF apresenta até o dia 24 de setembro a nova criação do repertório da Companhia Teatro Inominável, “Poderosa Vida Não Orgânica que Escapa”, com direção de Thaís Barros, buscando nas histórias em quadrinhos sua pesquisa de linguagem, mais especificamente na obra “O Edifício”, do quadrinista americano Will Eisner, conhecido por se utilizar de planos inusitados, ângulos inquietantes, jogo de sombra e luz para suscitar algumas questões do tecido nervoso humano dentro de uma coletividade, aonde seus personagens representados por estratos sociais tangíveis em nosso mundo real buscam uma fuga do cotidiano, vagando como fantasmas perdidos no seus abismos interiores.

Com aponta sua própria sinopse oficial: “No centro de uma grande cidade, um pequeno e velho edifício de três andares decide desabar levando consigo seus três moradores. Imagine se as coisas começarem a fazer isso com os que se autonomeiam seus criadores”.

Esse jogo de sombra e luz é um dos pontos cruciais com que Thais Barros consegue transpor ao palco um sentimento de opressão por personagens “aprisionados” num edifício que vai sendo corroído a partir de suas próprias entranhas, como que sugando não apenas as fundações estruturais, mas também todos os resquícios de qualquer florescer vital de personagens desencaixados do mundo social. Toda essa ambientação da direção de Thais Barros é obtida com parquíssimos recursos cenográficos, em que pela própria maneira como o palco se apropria do vazio já diz muito sobre a construção do espetáculo, passando a diretora a graduar e compassar sensações que transbordam emocionalmente do texto de Diogo Liberano, com um desenho de luz minimalista e um suporte de metal que projetado por uma lanterna cria diversas possibilidades cênicas.

A condução da direção de atores de Thais Barros nos leva a sentir por meio dos seus personagens, interpretados por André Locatelli, Diogo Liberano e Livs Ataíde, todo um grito de desespero pairado no ar, em que o seus dramas e desejos acabam justamente por dar-lhes contornos patéticos, demasiadamente humanizados, e por isso mesmo é possível enxerga-lhes poesia. Importante ressaltar a contribuição da direção de movimentos de Andrêas Gatto, Gunnar Borges e Márcio Machado no trabalho de composição dos atores, permitindo um maior aprofundamento em suas características através de gestos, ações e mesmo pequenos cacoetes.

O exercício da crítica teatral guarda algumas sutilezas que por isso não me agrada escrever de imediato. Tem espetáculos que necessito um tempo para decanta-lo internamente. Ocorre de por vezes em função de prazos exíguos para escrever, me penitencio posteriormente por alguns entusiasmos não podados. No caso de “Poderosa Vida Não Orgânica que Escapa” ocorreu o contrário. Levei alguns dias em suspenso, deixando alguns pensamentos soltos num arquivo de Word e quanto mais fui refletindo, percebi que gosto mais dele hoje do que no momento que deixei o teatro. Me escapam o senso da lógica tal sensação, mas fico me perguntando o motivo, independente de qualidade ou de conteúdo, de esquecermos rapidamente alguns espetáculos e outros permanecerem conosco.

Foto Thaís Grechi

Foto Thaís Grechi

Equipe de Criação
Dramaturgia: Diogo Liberano
Direção: Thaís Barros
Atuação: André Locatelli, Diogo Liberano e Livs Ataíde
Direção Musical: Rodrigo Marçal
Direção de Arte: Marcela Cantaluppi
Direção de Movimento: Andrêas Gatto, Gunnar Borges e Márcio Machado
Colaboração de Movimento: Natássia Vello
Iluminação: Diogo Liberano e Thaís Barros
Orientação de Direção: Jacyan Castilho
Orientação de Figurino: Suely Gerhardt
Assistência de Direção: Ana Paula Gomes
Assistência de Iluminação: Gabriela Villela e Luiz Buarque
Registro Audiovisual e Fotográfico: Thaís Grechi
Design Gráfico: Diogo Liberano
Bilheteria: Waldivia Juncken
Assessoria de Imprensa: Teatro Inominável
Produção: Clarissa Menezes
Realização: Teatro Inominável e Universidade Federal do Rio de Janeiro


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

novembro 2017
D S T Q Q S S
« out    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930