Crítica: Polacas, as Prostitutas Judias


 

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Por Renato Mello

A temática das polacas, judias vindas da Europa para se prostituírem nas regiões do entorno da Praça Onze e do Canal do Mangue no Rio de Janeiro, ao mesmo tempo que expõe a ilimitada sordidez humana, causa fascinação pela riqueza que habita em cada história de vida, que mesmo expostas nas mais desmerecedoras condições ainda assim venceram obstáculos não somente inerentes à condição de vida e de trabalho , mas mesmo aqueles impostos pela sua própria religião, que as consideram impuras e indignas, para dentro de uma visão coletiva alcançarem objetivos concretos contra o silêncio institucional da vida social brasileira das primeiras décadas do século XX.

Importantes pensadores da cultura nacional lançaram seu olhar sobre esse universo, desde Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda, mas com maior destaque e protagonismo em 2 romances de Moacyr Scliar, “O Ciclo das Águas” e “Sonhos Tropicais”, além do excelente livro de Esther Largman, “Jovens Polacas – Da Miséria na Europa à Prostituição no Brasil”. Em tempos mais recentes, o teatro nacional igualmente se debruçou sobre o assunto através do ótimo texto de Renata Mizrahi, “Silêncio!”.

Com “Polacas, as Prostitutas Judias”, o seu autor e diretor Dinho Valladares busca ampliar as perspectivas pela singularidade do seu ponto de vista, que como aponta sua “carta de princípios” já na sinopse oficial, tenta evita o prisma de “‘coitadinhas’ que foram enganadas pelos maridos ou pelos cafetões. Mas mulheres de verdade com erros e acertos que fizeram a opção pessoal de virem para a América tentar uma vida melhor … um resgate de uma parte da história da sociedade civil brasileira que se perdeu em meio a preconceitos e negligência”. O espetáculo realiza uma “dramatização a partir da história de prostitutas que viveram no Rio de Janeiro no século XX. Cinco prostitutas estão num prostíbulo a espera de clientes, quando são assediadas por um Caften e resolvem fugir para um lugar melhor“.

De saída Dinho Valladares já elabora um interessante impacto estético e narrativo num preâmbulo de aproximadamente 5 minutos que contextualiza o ambiente profissional de suas personagens em pleno exercício da labuta diária, despejando sobre a encenação um quadro de tintas despudoradas a partir de uma coloração avermelhada, num desenho dinâmico, que instiga para uma perspectiva promissora.

Segue-se uma oscilação dramatúrgica pela opção esquemática de como expor motivações pessoais e a individualização das personagens,  buscando unir as amarras dentro de um mesmo espaço físico-temporal. A partir de então é que o espetáculo logra desamarrar os nós narrativos e alça uma maior fluência. A interferência beckettiana na sua estruturação traz resultados positivos enquanto as personagens anseiam pela chegada de clientes intercalando-se com sonhos, reminiscências e conflitos, embasando os fundamentos da composição cênica.

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A direção de Dinho Valladares cria uma ambientação que discorre com naturalidade o arco da linha narrativa sobre o palco, encontrando boas soluções, impondo uma movimentação que apesar do numeroso elenco apresenta-se com coesão no  desenho de cena. Outro ponto proeminente do seu trabalho é a direção de atores

O elenco é formado por Aline Bourseau, Sofia Kern, Andrezza Leal, Clarissa Durão, Gisela Plombon, João de Carvalho, Carol Salles, Estaine Alencar, Fábio Felix, Léo Gonçalves, Victor Mafra e Xico Santos. Apesar de uma equanimidade entre homens e mulheres na ficha técnica, é uma peça estruturalmente de personagens femininos. O espetáculo pertence a elas, dominando por inteiro as rédeas num instigante jogo cênico e acima de tudo, de maneira harmoniosa. Um destaque pode ser conferido para a atuação de Aline Bourseau, desempenhando um papel de liderança dentro do universo da casa de prostituição e que sonha em conseguir um respaldo coletivo para os objetivos comuns, mas se defronta com as adversidades e traições no seu percurso. Aline consegue alternar com extrema exatidão as nuances que lhe espreitam para expor-se no palco numa atuação segura. Sofia Kern, Andrezza Leal, Clarissa Durão e Carol Salles realizam em conjunto com Aline Burseau um suporte mútuo em cena sem que se perceba um destoar nas alturas interpretativas, mantendo um nível adequado para as interpretações. Em relação ao elenco masculino João de Carvalho é o único que possui um personagem com um maior delineamento.

O cenário de Eduardo Carvalho compõe uma ambientação realista dentro do contexto histórico e social, representando de forma estilizada uma casa de prostituição degradada com sua estrutura aparente,   aonde se passa toda a encenação. Os figurinos de Luiza Valente se apresentam dentro de uma pesquisa que tem relevância no entendimento de cena e na composição dos personagens. Destaques para a iluminação de Rubia Vieira e Dinho Valladares e para a trilha sonora de Sérgio Roberto de Oliveira que demonstram capacidade de dialogar com a dramaturgia ao longo de toda encenação.

Polacas, as Prostitutas Judias” é um espetáculo realizado na crença por parte de seus criadores da necessidade de contar uma história relevante da vida social brasileira, que mesmo se os meios não são abundantes, o apuro técnico e sentido do dever artístico fazem com que o objetivo seja alcançado com méritos.

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Serviço.
Polacas, as prostitutas judias – texto e Direção: Dinho Valladares.
Duração (80 min).
Classificação: 16 anos.
Casa de Cultura Laura Alvim.
Quinta a sábado as 21hs e domingo as 20hs.
Info. 25375204 R$ 50.
De 09 de março a 02 de abril

Ficha Técnica
Coordenação de projeto: Cia. de Teatro Contemporâneo
Texto e direção: Dinho Valladares
Coreografias: Aline Bourseau
Trilha: Sergio Roberto de Oliveira
Desenho de Cenário: Eduardo Carvalho
Iluminação: Rubia Vieira e Dinho Valladares
Figurinos: Luiza Valente
Produção Executiva: Julio Luz
Pintura de Cenário: Eduardo Carvalho
Elenco:Aline Bourseau, Sofia Kern, Andrezza Leal, Clarissa Durão, Gisela Plombon, João de Carvalho, Carol Salles, Estaine Alencar, Fábio Felix, Léo Gonçalves, Victor Mafra e Xico Santos

Contatos
Aline Bourseau/Dinho Valladares
(21) 31725206 e 31725201
(21) 984141965 e (21) 984581294
ciacontemporaneo@gmail.com


Palpites para este texto:

  1. Ao longo da minha tregetória no meio teatral assisti inúmeros espetáculos. Cada uma é um diferente aprendizado, são exemplos do que podemos ou não repetir em nossas produções. Assisti a esta peça duas vezes ainda na primeira semana. Não costumo rever espetáculos a não ser que sejam realmente ótimos, inclusive pela minha falta de tempo. Nesse caso meu retorno soou mais como um voto de confiança. Mas infelizmente encontrei o mesmo que encontrara na minha “premiere”. A cena que abre o espetáculo é confusa, com marcas mal executadas e sem precisão. O texto subestima o entendimento do público com um diálogo quase didático, sem falar da repetição excessiva da palavra “agente”. A interação com os objetos de cena é quase nula. A morientação de cena repetitiva além do temperamento tempestuoso sem equilíbrio que parte da atriz principal, que representa a matriarca polacas, se espalha e contamina as outras atrizes com gestos e entonacoes caricatas dificultando o entendimento do enredo. Gostaria muito de concordar com o querido Renato Mello, mas não foi dessa vez.

  2. Cara Lia, a peça agora esta ainda mais amadurecida, gostaria de convidá-la para assistir pela terceira vez para analisar com mais cuidado os pontos apontados.

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