Crítica: Pulsões


 

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Por Renato Mello.

Na sala principal do belo casarão de Botafogo, a primeira imagem que nos deparamos é um corpo inerte no chão.  A medida que sentamos, vamos nos ambientando com o que está diante de nossos olhos através de uma coloração vibrante e sedutora que toma toda a dimensão física da sala de teatro. Aprofundando o olhar avistamos 2 músicos parados perante seus instrumentos. Um grande silêncio toma conta de nós, estáticos, diante de um enorme quadro construído minunciosamente a nossa frente. É possível então observar um dedo pulsando daquele corpo até então morto, amorfo. O movimento permanece minutos a fio como se fosse um músculo involuntário. Soa a 3ª campainha. A música passa a se fazer presente invadindo o nosso silêncio interior e o corpo inerte então se revela explodindo vida através de um olhar fixo mirando cada um de nós, meros voyers. O que a princípio parecia involuntário descobre ser na verdade um impulso energético interno, talvez inconsciente, que ganha forma completa através do corpo de uma bailarina que inicia uma dança pulsante que passa a investigar cada pedaço daquele quadro antes parado.

Pulsões” vai além de uma mera peça de teatro, é acima de tudo uma interessante experiência sensorial.

O espetáculo que está em cartaz até o dia 30 de agosto no Teatro Poeira, com direção de Kika Freire, desenvolve-se num espaço físico abstrato, através de uma relação entre uma bailarina com transtornos psicóticos(Fernanda Freitas) e uma maestro que carrega traços de esquizofrenia(Cadu Fávero). Construída através de uma série de fragmentos, num jogo que mistura realidade e delírio, utiliza-se de diferentes expressões artísticas para aguçar os diferentes sentidos do ser humano através da dança e da música para servir como um elo de comunicabilidade e da busca do afeto entre 2 almas atormentadas.

Como uma rosa dos ventos, “Pulsões” mostra 2 seres em busca de uma direção, um caminho, orientação. Kika Freire diante de tal complexidade soube conduzir um espetáculo revolto para um destino bem-sucedido. Sua grande virtude foi saber capitanear durante o transcurso desse caminho os distintos elementos que compõem uma peça teatral, numa harmonia rara em que todos os componentes tem uma personalidade particular, mas jamais deixando de ser uníssona.

A base de toda essa estruturação bem-sucedida está no texto escrito por Dib Carneiro Neto, responsável por construir os fundamentos principais para que os outros elementos ocupassem com qualidade os espaços que lhes cabiam. Um roteiro repleto de lirismo, limpo em sua composição e contendo uma riqueza dramatúrgica que possibilita a Kika Freire criar uma encenação que materializa em cena um mergulho no escuro do inconsciente desses seres perdidos num mundo em que realidade e imaginação se fundem e confundem. O modo como Dib constrói os diálogos e trabalha cada palavra acaba por transformar o roteiro numa peça de estudo que alterna com grande precisão sentimentos e sensações antagônicas que fazem de “Pulsões” um dos espetáculos mais relevantes desse primeiro semestre do ano.

Na busca por um equilíbrio em meio a um descompasso com a realidade, Fernanda Freitas e Cadu Fávero realizam um jogo cênico dentro de um permanente risco, mas seus personagens são sólidos e reais. Conduzidos através de uma bela direção de atores de Kika Freire, Fernanda e Cadu atingem uma atuação de grande nível e apuro técnico. Louvável o trabalho tanto de expressão corporal de Fernanda Freitas, como o trabalho vocal realizado, em que através de seu corpo diminuto se extrai uma força e devastação interior que leva o público a embarcar dentro de seus terríveis tormentos.

A criação das cenas de Kika Freire, utilizando a música executada por João Bittencourt no piano e Maria Clara Valle no Violoncelo levam ao espectador a  uma profunda gama da atmosfera do universo sensorial, atingindo seu ápice na bela construção das sequências sob a execução de Villa-Lobos, tanto em “Trenzinho Caipira”, mas principalmente num grande impacto sob “Bachianas nº 5”.  A dupla de músicos tem importante responsabilidade no êxito em se alcançar uma visceralidade exposta na proposta.

Os cenários criados por Teca Fichinski talvez estejam entre os mais bonitos do ano. Na verdade, trata-se da prova que sem maiores dispêndios, pode-se elaborar um cenário que está em perfeita adequação ao universo do espetáculo e que ao mesmo tempo causam uma agradável sensação ao olhar. São móbiles espalhados pelo palco, com uma forte coloração e bailarinas decepadas penduradas. Forte, vibrante e ao mesmo tempo terno. Os figurinos, também assinados por Teka seguem a mesma direção dos cenários, igualmente puxando pela coloração vibrante.

A iluminação de Fran Barros ajuda a evidenciar os cenários de Teca, assim como contribuem de modo importante na concepção dos momentos e sentimentos despertados pelo desenvolvimento das ações.

Pulsões” percorre uma linha distinta de um teatro convencional, ele convida para ir além, numa viagem pelo que de mais profundo pode habitar dentro dessa bailarina psicótica e do maestro esquizofrênico. É uma experiência fascinante e rara de se encontrar numa sala de teatro.

Foto: Victor Hugo Ceccato.

Serviço:
Temporada de 11 de junho a 30 de agosto de 2015
De quinta a sábado, às 21h. Domingo, às 19h.
Local: Teatro Poeira – R. São João Batista, 104
Horário de funcionamento: terça a domingo, das 15h as 21h
Ingressos: Quintas e sextas R$ 60,00 plateia /R$ 40,00 poleiro, sábados e domingos R$ 80,00 plateia /R$ 40,00 poleiro.

Duração: 1h
Classificação: 14 anos.
Lotação: 135 lugares.

Ficha Técnica:
De Dib Carneiro Neto
Direção: Kika Freire
Elenco: Fernanda de Freitas e Cadu Favero
Direção musical e Trilha sonora: Marco França
Piano: João Bittencourt
Violoncelo: Maria Clara Valle
Iluminação: Fran Barros
Cenários e Figurinos: Teca Fichinski
Caracterização: Rose Verçosa
Fotografia e Programação Visual: Victor Hugo Cecatto
Direção de Produção: Paula Salles
Coordenação Geral: Maria Siman
Produção Executiva: Joana D`Aguiar
Realização: Primeira Página Produções Culturais


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