Crítica: “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”


 

Uma dos textos mais interessantes e complexos do teatro moderno, “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”, do dramaturgo norte-americano Edward Albee, ganha agora no Teatro dos 4 do Shopping da Gávea uma interessante e bem sucedida montagem. O que em si já é um êxito, em virtude da algumas históricas montagens que essa peça já teve no Brasil. Entre as mais marcantes, podemos citar a realizada por Maurice Vaneau em 1965 tendo no elenco nada menos que Cacilda Becker, Walmor Chagas, Lilian Lemmertz e Fúlvio Stefanini. Não podemos esquecer ainda a montagem de 1978 de Antunes Filho, num elenco que tinha Tonia Carrero, Raul Cortez, Eugênia di Domenico e Roberto Lopez.

Dessa vez a encenação ficou por conta de Victor García Peralta, tendo no seu elenco Zezé Polessa, Daniel Dantas, Ana Kutner e Erom Cordeiro.

O embate desses 4 personagens ocorre todo ele na sala do casal Jorge e Marta. Ele um professor de história de uma Universidade na Nova Inglaterra na década de 60 e ela, a filha do reitor. Em meio a um ambiente caótico e carregado, Jorge e Marta levam uma vida de insultos, injúrias e frustrações, regado a muito álcool e fumaça de cigarro, incapazes de interromper essa relação doentia nem mesmo na presença de um jovem casal recém chegado na cidade e no ambiente universitário. Com “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?Albee ridiculariza o sonho americano, a instituição do matrimônio e a classe média intelectualizada, num permanente jogo que mistura realidade e ilusão, aonde não nos é possível de imediato distinguir verdade, mentira, inocência e hipocrisia. O linguajar feroz e pulsante, faz desse texto uma das obras menos complacentes com o público do teatro americano, aonde a dimensão do drama humano e psicológico que envolvem o casal incomodam o espectador mais sensível diante da dureza e da violência contida na força e na visceralidade dos diálogos.

Após mais de 2 horas diante da dimensão da experiência catártica vivida, nos damos conta e conseguimos colocar as coisas em seus devidos lugares, ainda mais quando lembramos de autores incensados em tempos recentes, como uma Yasmina Reza, para então nos darmos conta de sua artificialidade diante da profundidade de um texto como esse de Albee.

Ao contrário da Bárbara Heliodora, que não gostou do cenário proposto por Gringo Cardia: “aberto, ao qual falta a claustrofobia que serve bem ao texto, o que não fica compensado pelo efeito giratório”, tenho a opinião que a força do texto por si já causam tamanha sensação de claustrofobia que o cenário pouco teria a acrescentar nesse aspecto. Eu, ao contrário, acho que o cenário este perfeito para ambientarmos a desconstrução e a tempestuosidade do casal. Antes mesmo de qualquer ator entrar em cena, o cenário já faz nos sentir no tempo, no local, no meio e no caos que vamos vivenciar.

O grande destaque é Daniel Dantas, como Jorge. Dono de um humor ácido e penetrante, um raciocínio rápido e mordaz, utilizando essas características como arma para aguentar as décadas de humilhação sofridas por seus fracassos e frustrações profissionais. Sua soberba atuação é quase uma catarse e joga ao público uma gama de emoções desconfortáveis. Zezé Polessa mantém o jogo com Dantas no mesmo nível, como sua frustrada esposa, permanentemente jogando na cara de Jorge os seus projetos desperdiçados. O jovem casal formado por Ana Kutner e Erom Cordeiro estão num nível de atuação um pouco abaixo de Dantas e Polessa, mas não chegam a comprometer  a harmonia e o equilíbrio do espetáculo. Erom como o jovem e ambicioso professor de Biologia, atado às hipocrisias e convenções da sociedade, que deixa cair sua máscara assim que a oportunidade lhe aparece pela frente. Já Ana interpreta a tola esposa do novo professor, possuidora de um nível intelectual inferior ao marido, numa crítica de Albee à formação familiar da classe média americana. Ambos permanentemente ameaçam ir embora diante do espetáculo de pusilanimidade que testemunham, mas uma oculta perversão os impede e os instigam a seguir naquela turbulenta atmosfera.

Somando-se a tudo isso, a bela tradução, a cargo de João Polessa Dantas, e a eficientíssima direção de Victor García Peralta fazem dessa atual montagem de “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” uma ótima, não necessariamente confortável, experiência teatral. Uma peça que merece a atenção de quem se importa de fato com um belo texto numa bela montagem.

Quem tem medo de Virginia Woolf?
Texto: Edward Albee
Direção: Victor Garcia Peralta
Elenco: Zezé Polessa, Daniel Dantas, Ana Kutner, Erom Cordeiro
Duração: 140 min
Teatro dos 4: Marquês de S. Vicente, 52 – Lj. 265. Gávea, Rio de Janeiro.
Telefone: (21) 2239-1095 (21) 2239-1095
Qui e Sáb às 21h; dom às 20h.
R$ 70 (Sex) e R$ 80 (Sáb e Dom).


Palpites para este texto:

  1. QUALQUER MONTAGEM QUE VENHA A SER FEITA DESSE GRANDE TEXTO QUE E QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF QUE CAUSOU UM REBULICO NOS ANOS 60 E FOI UM SUCESSO ESTRONDOSO, VAI SER IMPOSSIVEL NAO COMPARA-LA COM O MARAVILHOSO FILME DIRIGIDO EM 1966 POR NIKE NICHOLS E MAIS AINDA, PELA EXTRAORDINARIA, APAIXONADA, PERFEITA E COMOVENTE INTERPRETACAO DA DIVA ELIZABETH TAYLOR, QUE DEU UM SHOW DO INICIO AO FINAL E GANHOU O PREMIO DA ACADEMIA. O QUE ELA FEZ NUNCA FOI VISTO NO CINEMA E NENHUMA ATRIZ TEVE CORAGEM DE FAZER. APLAUSOS PARA ELA , QUE FAZ MUITA FALTA. RICHARD BURTON NAO FICA ATRAS, COMO O MARIDO EMOCIONALMENTE PERTUBADO. ENFIM, UM GRANDE TEXTO FEITO PARA GRANDES ATORES. FICA ESSE TESOURO CINEMATOGRAFICO , UM GRANDE FILME ,UM DOCUMENTO HISTORICO. BRAVO!!!!

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