Crítica: Radiofonias Brasileiras


 

Radiofonias Brasileiras_ Elenco e músicos_Crédito Ananda Campana_8

Por Renato Mello.

Os mistérios insondáveis do teatro…um dos nossos melhores autores, um diretor extremamente competente e um ótimo elenco. A equação perfeita para resultar em um grande espetáculo. Mas o teatro está muito longe de se configurar com a exatidão de uma mera matemática.

Durante o mês de dezembro, o teatro Alcione Araújo, localizado no interior da Biblioteca Parque Estadual, apresentou o espetáculo “Radiofonias Brasileiras”, um musical de Bosco Brasil.

Essa definição de “musical” já no programa do espetáculo foi de certo modo desmistificada pelo próprio diretor Diego Molina ao afirmar que “isto não é um musical. Pelo menos não parecido com os que estou acostumado a ver”, completando mais abaixo: “Este espetáculo está mais para um encontro de sons e vozes. Uma polifonia teatral…”. Involuntariamente Diego acabou revelando o principal problema de “Radiofonias Brasileiras” que é a falta de definição sobre qual é exatamente sua proposta, que história quer contar e que caminhos pretende percorrer. Entre contar uma história de vida inserida nos bastidores da rádio Nacional ou num drama político, sendo que a interseção de ambas situações também seria um caminho válido, Bosco Brasil acabou não fazendo nem uma coisa e nem outra.

A dramaturgia de Bosco Brasil diluiu a força potencial da história de um autor de radionovelas em plena efervescência política e comportamental através de personagens secundários pouco interessantes, perdendo ao longo da narrativa seu foco principal em pequenas situações que nada acrescentam e que são inseridas sem uma justificativa. Há igualmente problemas na forma como os personagens são delineados, deixando o espectador sem compreender exatamente as suas motivações. A narrativa é irregular, agravada pelos exagerados 120 minutos de duração, aumentando ainda mais os espaços vazios deixados pelo autor.

 Em suas linhas gerais o espetáculo perpassa a trajetória de Amilcar(Reinaldo Gonzaga), que é recebido após sua morte pela Diaba(Maíra Lana),com quem conjuntamente passa a observar passagens de sua vida no período crítico para os profissionais do rádio, seja pelas mudanças estabelecidas pela força bruta do golpe militar, seja pelos efeitos diretos da concorrência que a televisão começava a impor sobre o rádio, tanto em termos de audiência e relevância, assediando profissionalmente os seus principais criadores para aderir ao meio de comunicação que passaria a ditar a vida nacional.

Radiofonias Brasileiras” foi o 2º espetáculo de 2015 que assisti com essa mesma temática dos bastidores do rádio e retratando o mesmo período conturbado. O outro foi “Caros Ouvintes”, que se apresentou em São Paulo e infelizmente não veio para o Rio. A encenação paulistana foi um dos 10 melhores espetáculos que pude assistir nesse ano que se finda.

Tecer críticas a um trabalho de um diretor que tanto aprecio quanto Diego Molina me é uma tarefa ingrata. Diego Molina estabelece uma dinâmica oscilante, muito em razão da base dramatúrgica que tem a sua disposição. Ainda assim consegue realizar algumas belas criações cênicas, entre as quais destaco veementemente Reinaldo Gonzaga cantando “Casaco Marrom”, com beleza e delicadeza, um deleite que a voz tão peculiar desse estupendo ator nos presenteia.

Um dos aspectos que mais me agrada em Diego Molina é sua direção de atores, que mesmo com a falha em suas concepções originais, é o ponto mais forte do espetáculo, especialmente Reinaldo Gonzaga e as 3 atrizes(Adriana Seiffert, Luciana Bollina e Maíra Lana) que o ladeiam e realizam atuações encantadoras.

Como é bom ver Reinaldo Gonzaga sobre um palco de teatro! Um ator com domínio completo do ambiente e  uma presença de palco rara. Uma pena não termos com mais frequência Reinaldo Gonzaga em cena. Adriana Seiffert, Luciana Bollina e Maíra Lana, três papeis que requerem diferentes registros e situações dentro da contextualização, mas cada uma tem seu momento de luz próprio, com belas interpretações e com um perfeito domínio do canto. O elenco se completa com José Mauro Brant, Alessandro Brandão e George Luís Prata, em papeis menos contundentes, mas defendidos com correção pelos atores. Consta na ficha técnica a presença do excelente ator e cantor Pedro Lima, que não se apresentou no dia que assisti à encenação. Uma menção para George Luís Prata que assumiu o papel do sonoplasta da rádio na véspera da estreia e conseguiu atender plenamente as necessidades de seu personagem.

Radiofonias Brasileiras_Alessandro, Adriana, Thiago, Reinaldo, Breno, Maira, Pedro_1_Crédito Ananda Campana_web

Para um espetáculo musical, outra questão que merece ressalvas é a trilha sonora que não desperta maiores empatias, embora as canções tenham sido bem defendidas por ótimos atores/cantores, uma banda competente(Banda Hétera) e uma boa direção musical de Tato Taborda. A ausência de uma maior comunicabilidade das composições acentuou ainda mais os problemas no desenvolvimento dramatúrgico e rítmico de “Radiofonias Brasileiras”.

Aurora dos Campos optou por se distanciar de um registro histórico na cenografia. Utiliza alumínios em formado de passarela, portas soltas no espaço físico, estética asséptica, o que para uma peça que tem dificuldade para encontrar que história pretende contar, também acaba não contribuindo para o resultado final.

Os figurinos de Colmar Diniz tem correta contextualização e bom gosto em suas formas.

A iluminação de Aurélio de Simone acerta na concepção do desenho de luz, criando texturas particulares para o generoso palco do Teatro Alcione Araújo e para as distintas ambientações propostas, deixando uma tonalidade apropriada nos diversos espaços físicos, contribuindo para não dispersarmos nossa atenção do eixo principal de cada cena.

Radiofonias Brasileiras” é um espetáculo que decepciona pelo desperdício de tantos talentos reunidos.

Fotos: Ananda Campana

Ficha Técnica:
Texto: Bosco Brasil
Direção: Diego Molina
Direção Musical: Tato Taborda
 .
Elenco:
Reinaldo Gonzaga(Amílcar Maranhão)
Adriana Seiffert(Fúlvia)
Alessandro Brandão(Zero)
José Mauro Brant(Tristão)
Luciana Bollina(Nice)
Maíra Lana (Diaba)
Pedro Lima (Villarino)
George Luís Prata(Sonoplasta)
 .
Músicos – Banda Hétera
Antônio Ziviani
Breno Góes
Felipe Ridolfi
Pedro Leal David
 .
Luz: Aurélio de Simoni
Cenário: Aurora dos Campos
Figurino: Colmar Diniz
Direção de movimento: Sueli Guerra
Adereços: Tuca
Preparação vocal: Pedro Lima
Assistente de direção: Carolina Godinho
Assistente de cenografia: Paula Tibana
Assistente de figurinos: Katerina Amsler
Assistente de direção de movimento: Priscila Vidca
Visagismo: Diego Nardes
Fotos e vídeos: Ananda Campana
Programação visual: Thiago Sacramento
Assessoria de imprensa: Daniella Cavalcanti
Sonorização: Cláudio Serrano (Dioclaw)
Assistente de visagismo: Paula Inez
Operador de luz: Rodrigo Bispo
Produção executiva: George Luis Prata, Thamires Trianon e Valéria Alves
Assistente de produção: Igor Miranda
Realização: 2BB2 Produções Artísticas


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