Crítica: Reprodução, de Bernardo Carvalho


 

 

O lançamento de um novo romance de Bernardo Carvalho é algo que não pode passar despercebido. Não somente por tratar-se de um dos melhores e fundamentais autores da atual literatura nacional, mas acima de tudo por saber como poucos colocar em discussão temas contemporâneos sem cair no lugar comum e sem precisar abordá-los de maneira política para atingir a relevância com que se apresenta em seus livros.

Não é um autor best-seller e provavelmente nunca será. Carvalho não dá nada de graça aos seus leitores, não é uma leitura fácil e palatável para mentes mais dispersas. É necessário atenção e concentração para entrar no universo que nos propõe. Não que seja um autor hermético, longe disso, mas não abre mão dos seus escrúpulos.

Reprodução”, seu último romance lançado pela Companhia das Letras, é o retrato perfeito e atual do nosso mundo. Aqui Carvalho coloca mais algumas discussões interessantes, entre elas a difusão e a ambiguidade dos discursos nesses tempos de interação on line, em que todos os absurdos podem ser ditos e difundidos de maneira invisível e sem rostos aparentes, aonde todo mundo tem uma opinião definitiva e contundente sobre qualquer coisa.

Um exemplo desses discursos difusos é o utilizado pelo próprio Carvalho em recentes entrevistas, em relação a dificuldade que temos atualmente de definirmos e classificarmos os discursos políticos. Até ontem era fácil situar o lugar de um Hitler, um Mussolini e até a pouco tempo atrás podíamos classificar um Jean Marie Le Pen e seu Front National, com convicção e bem longe de estereótipos maniqueístas. Hoje assistimos uma dificuldade de diabolizar a face mais moderna do Front National na figura de Marine Le Pen, uma mulher do seu tempo, divorciada, com filhos, risonha, carismática e com um discurso que o senso comum tem por concordar, como o Estado Laico, o combate à corrupção e de repente embutido vem um antissemitismo e antiarabismo batendo na nossa cara, num discurso que com o tempo vamos perdendo a capacidade de nos indignarmos, vendo com mais naturalidade, num pacote único e com uma linguagem mais palatável. Um retrato que simboliza a confusão que norteia os tempos atuais.

Esse estado de confusão é o retrato apresentado em “Reprodução”. Seu protagonista, um estudante de chinês, demitido há algum tempo do mercado financeiro e separado, que vê no idioma chinês a futura língua do poder geopolítico, se encontra no aeroporto de Guarulhos embarcando para a China, quando na fila reconhece sua professora de chinês e lhe acena. A partir daí, num ritmo perfeito desenvolvido por Carvalho, os fatos se precipitam e sem tempo para mais nada a professora é arrancada da fila por um agente e logo em seguida, ele também é conduzido à delegacia local. A partir daí o romance se passa o tempo inteiro numa salinha sem janela. Carvalho passa a narrar seu livro, sem distrações ou parágrafos, lançando um enorme jorro sem dar chance para respirarmos em 3 grandes monólogos, que na verdade são diálogos, tendo um delegado como o interlocutor que representa a invisibilidade absoluta, em contraponto com o estudante de chinês, um assíduo comentarista de blogs e portais de internet, com um discurso que por vezes pode soar lógico, mas ao mesmo tempo contraditório, racista, homofóbico e antissemita, aonde tudo se mistura, tudo é opaco e nada é absoluto.

O mundo apresentado por Carvalho, é o retrato de nossos dias em que o fascismo acontece no lugar do inconcebível. Fez-me lembrar de um professor de História que me disse certa vez: “O fascismo está dentro de todos nós, só está a espera de uma oportunidade para se manifestar”. E que lugar maravilhoso é a internet para manifestarmos nosso fascismo obscuro, podemos falar os maiores absurdos de maneira invisível, aonde qualquer um pode ter seu espaço para falar do que bem entender(como eu, você pode pensar), sem se preocupar com coerência e coesão, tal como este texto.


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