Crítica RJ: A Vida de Galileu


 

 

Por Renato Mello

Uma obra teatral com capacidade de nos fazer enxergar mais além do que está diante de nós e que surge num momento oportuno para refletirmos questões que ainda pairam ameaçadoras sobre o livre pensamento. “A Vida de Galileu”, escrita originalmente em 1939 para retratar a vida de um homem do Século XVII, cujos legados, tanto do autor como de seu personagem, se encontram tão presentes nos nossos dias.

Um homem que adorava observar o céu, desafiou a Igreja Católica e acabou enfrentando a Santa Inquisição”, como aponta sua sinopse oficial, se apresenta até o dia 15 de dezembro(atentar para datas e horários no serviço abaixo) no palco da Tenda da Ciência Virgínia Schall, no Museu da Vida da Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, a partir do texto clássico de Bertold Brecht e com direção geral assinada por Daniel Herz.

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A atual montagem traz algumas características muito particulares e que merecem alguns adendos:

A mais importante instituição de ciência e tecnologia em saúde da América do Sul é o espaço de acolhimento do espetáculo, lugar que mantive ao longo de minha vida, digamos que uma “familiaridade distante” de tanto passar na sua porta sem jamais ultrapassar suas grades, cerceando-me à descoberta de todos os encantos que escondia sob seu admirável castelo em estilo mourisco. Por si só já é um grande atrativo.

Sua proposição tem além do público adulto, também um direcionamento voltado para alunos do ensino fundamental e médio, que lotam principalmente as sessões do meio da semana, sendo que muitos deles em sua primeira experiência teatral. Mesmo tendo em conta essa particularidade, a montagem jamais diminui-se como arte ao não subestimar a capacidade de seu público, mantendo toda sua dimensão teatral de alto nível técnico e as premissas bretchianas intactas. São alunos que tem a oportunidade de vivenciar a atmosfera teatral com o melhor que ela pode oferecer, através de um dos maiores autores do século XX.

O complexo trabalho de adaptação feito por Daniel Herz, Diego Vaz Bevilaqua, Letícia Guimarães e Wanda Hamilton transformam um texto originalmente de 3 horas num espetáculo de cerca de 1 hora e 20 minutos, mas mesmo assim mantem-se intactos os pilares centrais do pensamento brechtiano, sem desperdiçar sua densidade dramatúrgica e se mantendo fluente ao longo de sua narrativa.

Quando escreveu em 1939 “A Vida de Galileu”, Brecht vivenciava o impacto dos autos de fé promovidos pela Alemanha Nazista que à moda medieval queimavam em praça pública livros de Einstein, Mann, Zweig, Freud e do próprio Brecht. Durante seu exílio na Dinamarca compôs uma reflexão que exalta o triunfo da razão sobre a barbárie de uma sociedade que se sente ameaçada em seus dogmas e status quo pela força “inclausurável” da liberdade de pensar. Não é por acaso que tanto Brecht quanto Galileu foram em suas épocas levados a interrogatórios, o primeiro por uma CPI do Congresso americano e o segundo pela Inquisição. É justamente nesse aspecto que a montagem de Daniel Herz conecta a história na remota Florença com nossa realidade recente, expandindo uma carga emocional na ambientação ao expor o drama pessoal vivido por dez cientistas da própria Fiocruz que durante a Ditadura Militar foram cassados e aposentados compulsoriamente do Instituto Oswaldo Cruz, proibidos de entrar em seus laboratórios no interior da instituição e sendo somente reabilitados em 1986. Essa associação acaba por levar ao público a dimensionar o drama vivido pelo homem que havia por trás da figura histórica representada por Galileu. Herz em vários momentos “quebra” a narrativa para levar luz a esses acontecimentos, retornando então à narrativa, que ganha então uma percepção emocional que envolve a todos com maior intensidade.

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A direção de Daniel Herz, conjuntamente com João Marcelo Pallotino é dinâmica e quando seu ritmo é propositalmente quebrado, existe um intento muito específico que enriquece a dramaturgia. Recria com poucos elementos uma ambientação cênica que clarifica a narrativa a partir de uma série de opções que acabaram por se mostrar bem sucedidas, desde a recriação dramatúrgica(já mencionada), passando inclusive pela constante rotatividade dos personagens, que acabam por gravitar em torno do eixo central, representado na figura de Galileu(Roberto Rodrigues).

O elenco  formado por Carol Garcia, Carol Santaroni, Ingra da Rosa, Letícia Guimarães, Lucas Drummond, Pablo Aguilar, Roberto Rodrigues, Sérgio Kauffmann e Tomaz Miranda demonstra um desencadeamento em que a necessidade harmônica e a composição conjunta é imperativa a partir da opção dos diretores de não fixar os personagens a nenhum ator, sendo que  para que não ocorresse nenhuma oscilação ao longo da encenação, mais além do olhar detalhista na direção de atores, é necessário igualmente a cada ator despir-se de suas vaidades pessoais para se alcançar o objetivo final, o que acabou por se atingir pela inegável capacidade técnica de seus membros, aos quais é possível um destaque adicional para Carol Garcia(com um técnica vocal apuradíssima), Carol Santaroni e Lucas Drummond. Além de boas interpretações de todo o elenco, importante apontar a direção de movimentos de Janice Botelho. Já no caso de Roberto Rodrigues, a análise tem um aspecto mais particular, sendo o único que desenvolve o mesmo personagem ao longo da encenação, Galileu Galilei. Já conhecia a intensidade e solidez de seu processo de interpretação desde seu monólogo “Se Vivêssemos em um Lugar Normal”. Em “A Vida de Galileu”, Roberto Rodrigues extravasa força dramática, mas sem perder a sutileza para expressar a dubiedade nas opções que se abrem ao seu personagem, com seus receios e motivações.

A trilha musical de Leandro Castilho faz a partir da obra original uma ótima recriação da ambientação com elementos contemporâneos que dialogam inteiramente com a proposta cênica de Daniel Herz e João Marcelo Pallotino.

Figurinos de Carla Ferraz compõem com acerto as necessidades impostas pela concepção dos diretores, de forma a caracterizar os personagens, mas sem personifica-los. Os cenários de Fernando Mello da Costa compõem com poucos elementos a ambientação do tempo físico, possibilitando uma reconstrução cênica para a dinâmica do espetáculo.

A iluminação de Aurélio de Simoni impõe densidade, dramaticidade e clarifica os momentos cênicos de modo a pontuar com exatidão a narrativa e suas necessidades.

Portanto, não faltam motivações e argumentos para assistir essa bela montagem teatral, que nos força uma reflexão sobre o estado de alerta permanente que é necessário para que tempos sombrios não voltem a nos espreitar.

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A vida de Galileu (de Bertolt Brecht)
Estreia: 21 de setembro, às 15h
Temporada: de 21/9 a 15/12
Duração: 1h20
Classificação: 10 anos
Local: Tenda da Ciência Virgínia Schall
Horários: Terças, quartas e quintas, às 10h30 e 13h30
Sábados, às 11h: 8 e 29/10 | 12 e 26/11 | 10/12
Endereço: avenida Brasil, n. 4365, Manguinhos, Campus da Fiocruz, Rio de Janeiro
Informações (21) 2590-6747 | www.museudavida.fiocruz.br

Ficha técnica
Direção geral: Daniel Herz
Direção: Daniel Herz e João Marcelo Pallottino
Diretor assistente: Clarissa Kahane
Tradução: Roberto Schwarz
Adaptação do texto: Daniel Herz, Diego Vaz Bevilaqua, Letícia Guimarães e Wanda Hamilton
Elenco: Carol Garcia, Carol Santaroni, Ingra da Rosa, Letícia Guimarães, Lucas Drummond, Pablo Aguilar, Roberto Rodrigues, Sérgio Kauffmann e Tomaz Miranda.
Direção musical e trilha sonora: Leandro Castilho
Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurino: Carla Ferraz
Luz: Aurélio de Simoni
Direção de movimento: Janice Botelho
Programação visual: Alana Moreira
Diretor de produção: Geraldo Casadei
Produção executiva: Mariluci Nascimento


Palpites para este texto:

  1. Com o pessoal aqui elencado, dos diretores, dos atores, da iluminação, da trilha sonora, meus conhecidos, não pode rolar nada menos que um espetáculo maravilhoso como teatro. E que ao mesmo tempo é uma advertência séria sobre todo e qualquer poder ou governo totalitário. Se tivesse sido traduzido para o espanhol e encenado na Venezuela antes das eleições dos fascistões Hugo Chaves e Maduro, talvez nem mesmo os competentes marqueteiros da Dilma que lá trabalharam financiados por uma fortuna desviada da Petrobrás teriam conseguido eleger aqueles dois canalhas fascistões; e os hospitais das cidades brasileiras mais próximas da nossa fronteira não estariam com venezuelanos e venezuelanas como mais de 50% dos seus pacientes internados; estas mesmas cidades não estariam com a mesma quantidade de crianças e adolescentes venezuelanas “fazendo programa” por R$80,00 nas ruas já apelidadas como ruas “otchenta”.

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