Crítica RJ: Céus


 
Foto: Leo Aversa

Foto: Leo Aversa

Por Renato Mello

Mais uma vez Aderbal Freire Filho é o responsável por liderar o processo criativo para levar aos palcos outro potente texto do autor libanês Wajdi Mouawad, tal como em “Incêndios”, a partir da idealização do ator Felipe de Carolis. Iniciativa essa da maior relevância, tendo em vista que em contrário estaríamos privados de um contato mais íntimo com um dos maiores dramaturgos contemporâneos, cuja quadrilogia “Sangue das Promessas” emerge seguramente como uma das maiores obras dentre o que já foi realizado no teatro do século XXI.

Em cartaz até o dia 30 de outubro no Teatro Poeira, “Céus” é um texto original de 2009 que insere-se como o capítulo final de “Sangue das Promessas”, após “Litoral”(1999), ainda inédito no Brasil; “Incêndios”(2003), apresentado aqui entre 2014/2016; e “Florestas”(2006), igualmente inédito em nossos teatros

Sangue das Promessas” estabelece uma visão sobre o legado da humanidade a partir de da apoteose entre o bem e o mal, o amor e o ódio. Nos três primeiros segmentos essa epopeia vasculha o sentimento do homem no encontro de suas origens, conduzindo-os de certo modo para uma zona obscura. É justamente esse abismo que se interliga com “Céus”, onde enxergamos na profundidade do terrorismo um caminho direto para a impureza da essência humana.

A guerra não está presente, apenas a ameaça terrorista vista de dentro de uma célula responsável por aborta-la. O percurso de “Céus” é voltado para dentro. Ao confinar seu espaço dramático, potencializa a explosão de sentimentos em que as tragédias pessoais interferem diretamente no destino de quem pensam proteger, aonde o sangue e violência visual nos lembram permanentemente a ilusão utópica que a paz representa. Mouawad desenvolve sua dramaturgia valorizando o poder da palavra, impondo uma poesia que conduz ao espiral da guerra, bombardeando-nos com a complexidade do mundo contemporâneo e expondo que mais que uma ameaça localizada, há uma rede global interligada que busca destruir os alicerces das sociedades que os sufocam.

Foto: Leo Aversa

Foto: Leo Aversa

A proposta cênica de Aderbal Freire Filho acopla essa disparidade de referências e possibilidades para construir uma narrativa que dimensiona as tragédias de seus personagens, criando em cada um deles um microcosmo particular das individualidades, quando a necessária complementaridade não estabelece um bem comum, mas o desencadear de conflitos. A utilização da linguagem visual e projeções, dialoga, intercala e complementa-se com a narrativa como se adicionasse mais um ator à cena, sem diluir em nenhum momento o extravasamento dos sentimentos expostos por Mouawad.

Sua concepção cênica norteia-se em duas perspectivas, as coletivas e individuais. Numa enorme mesa de trabalho, impessoal, distante, com os personagens interagindo e chocando-se em nome do bem comum, subdividindo-se entre a fantasia da pista Tintoretto e o realismo da pista islâmica. Na proximidade de cada espaço pessoal, na cama, absorvendo a abstinência de um mundo real, aspirando a solidão, a dor de cada indivíduo em sua real essência.

A direção de Aderbal Freire Filho tem a capacidade ao longo de toda encenação de expor essas dualidades de cada elemento com iguais intensidades, mas guardando cuidadosamente dentro de uma caixa toda a perspectiva da dor para o grito final, com uma força que ecoa como em ondas por toda atmosfera do teatro para resultar numa das mais vigorosas representações do ano, como um soco devastador.

Foto: Leo Aversa

Foto: Leo Aversa

O elenco formado por Charles Fricks, Isaac Bernat, Felipe de Carolis, Rodrigo Pandolfo e Silvia Buarque atua com harmonia nas intensidades, mesmo que individuais, atingindo em cada situação o âmago da dramaticidade na variação determinada pelo texto de Mouawad. Charles Fricks expõe com brilhantismo o dilaceramento em movimento crescente da dor e da culpa, levando à cena alguns dos momentos mais emocionantes do espetáculo. Isaac Bernat cria uma composição extremamente técnica, na busca dos gestos, movimentação, expressividade do olhar, dimensionando o aspecto humano ao personagem. Felipe de Carolis encontra uma gradação adequada num personagem introspectivo que busca a inserção dentro de um ambiente que lhe parece hostil, numa atuação equilibrada e precisa. Rodrigo Pandolfo acentua com perfeição todo um aspecto sarcástico e irônico, que juntamente com seu trabalho de composição física acaba por expor a complexidade do seu personagem. Silvia Buarque mescla com sutileza e eloquência a gradação correta para expressar o esgarçamento e o caos que revolve o interior de sua personagem, numa atuação que utiliza com bastante eficácia o trabalho corporal.

Os cenários de Fernando Mello da Costa é parte integrante da dramaturgia, complementando com correção e inteira adequação os espaços dramatúrgicos. Os figurinos de Antonio Medeiros contribuem para a clarificação e composição da individualidade de cada personagem.

A iluminação de Maneco Quinderé realça todo um sentimento de angústia que permeia a ambientação, dialogando com extrema correção com a proposta dramatúrgica.

Céus” é um complexo, forte e contundente retrato da irracionalidade humana, numa encenação pulsante para um texto arrebatador.

CÉUS

ceus_leoaversa-353bDe Wajdi Mouawad
Direção: Aderbal Freire-Filho

Com Charles Fricks, Isaac Bernat, Felipe de Carolis, Rodrigo Pandolfo e Silvia Buarque

Diretor assistente: Fernando Philbert
Cenografia: Fernando Mello da Costa
Iluminação: Maneco Quinderé
Figurinos: Antonio Medeiros
Direção Musical: Tato Taborda
Vídeos e projeto gráfico: Radiográfico
Visagismo: Erica Monteiro
Direção de produção: Amanda Menezes
Produção executiva: Juliana Cabral
Coordenação geral: Maria Angela Menezes
Produção: Tema Eventos Culturais e E-MERGE

SERVIÇO
De 15 de setembro a 30 de outubro
De quinta a sábado, às 21h. Domingos, às 19h.

Teatro Poeira
Rua São João Batista, 104 – Botafogo – Tel: (21) 2537-8053
Bilheteria: terça a sábado de 15 às 21h e domingos de 15h às 19h
Ingressos a R$ 80
Classificação etária: 14 anos
Duração: 1h40


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