Crítica RJ: Chica da Silva, o Musical


 
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Foto: Janderson Pires

Por Renato Mello

Uma visão distinta daquela simbologia que normalmente se associa, simploriamente, da figura de uma negra lasciva e ostentatória. Esse é um dos pilares da proposta que se apresenta no Centro Cultural dos Correios, “Chica da Silva, o Musical”, cuja temporada tem extensão prevista até o dia 30 de outubro.

Idealizada por Alexandre Lino e Daniel Porto, com texto de Renata Mizrahi, direção de Gilberto Gawronski e com Vilma Melo representando o papel título, a proposta de “Chica da Silva, o Musical” se encontra inserida dentro de um conceito revisionista que a figura de Chica da Silva vem suscitando mesmo entre os historiadores contemporâneos e que de algum modo contrasta com a popularização ganha no trinômio cultural carnaval/cinema/televisão, mais especificamente no enredo que Arlindo Rodrigues levou o Salgueiro ao campeonato  de 1963, ao filme de Cacá Diegues que em 1976 levou 3 milhões de espectadores aos cinemas e à telenovela da extinta TV Manchete que em 1996 alcançou altíssimos índices de audiência, revelando nesses exemplos o enorme retorno que a “exploração” de sua imagem sempre alcançou.

Foto: Janderson Pires

Foto: Janderson Pires

Tal como aponta a própria sinopse oficial, a proposta dramatúrgica de Renata Mizrahi criou 3 tempos distintos sobre a mitificação da personagem, fugindo do abrigo confortável da mera visão historicista para buscar uma reflexão mais aprofundada, não necessariamente sobre quem foi Chica da Silva, mas sua significação: “No passado, o musical resgata momentos da biografia de Chica da Silva, escrava alforriada que viveu durante anos uma relação estável com o rico contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, teve treze filhos e conquistou uma posição de destaque na conservadora sociedade do século 18. No presente, a história de Chica da Silva é representada pela mulher negra que ocupa espaços importantes na sociedade, vive um momento especialmente importante de conquistas femininas e sonoridade, mas ainda enfrenta uma série de preconceitos nos âmbitos pessoal e profissional. O terceiro plano é o da imaginação, mostra a vida como a personagem gostaria que ela fosse, com cenas de uma mulher amada, que jamais sofreu preconceito”.

Os tempos intercalam-se ao longo de toda narrativa, convivendo num mesmo espaço físico os diferentes planos em que a representação do presente acaba sobrepondo-se ao plano histórico. Existe alguma distinção na capacidade dramática entre ambos, mas o fato da narrativa contemporânea apresentar-se com mais vigor acaba sendo uma consequência do uso simbológico com que a narrativa histórica alicerça a conduta da mulher negra para se impor no presente.

Curiosamente, esse conceito desenvolvido por Renata Mizrahi acaba de algum modo dialogando com um outro espetáculo seu, voltado ao público infantil, “Marrom – Nem Preto, nem Branco?”, igualmente protagonizado por Vilma Melo, em que o racismo é propulsado através de gestos rotineiros embutidos num inconsciente que busca minimiza-los ao tentar dar-lhes vestes de insignificância, mas que são de um poder devastadoramente ultrajantes.

A direção de Gilberto Gawronski tem a capacidade de absorver a complexidade da proposta de Renata Mizrahi fazendo conviver os tempos dramáticos, transitando-os com sutiliza sem que ocorra alguma fricção do quadro harmônico. A movimentação cênica é limpa e clara, mantendo fluência e compondo boas ações dentro da narrativa.

Foto: Janderson Pires

Foto: Janderson Pires

O elenco composto por Vilma Melo, Antônio Carlos Feio, Ana Paula Black, Luciana Victor e Tom Pires apresenta boa atuação conjunta. Vilma Melo tem performance destacada observando a envergadura como um todo do arco da atual temporada teatral, demonstrando pleno domínio das intenções de cada uma de suas Chicas, retroalimentando-as permanentemente, impondo força dramática e exibindo boa técnica vocal.  Ana Paula Black tem destaque pela sua forte presença física, trabalho corporal e técnica vocal de muita qualidade. Tom Pires apresenta-se com perfeita adequação, trabalhando com qualidade a técnica vocal e a expressividade com a gradação acertada na modulação de sua atuação. Luciana Victor tem a capacidade de manter o embate principal, conseguindo explorar todas suas intensidades. Antônio Carlos Feio, interpreta o contratador João Fernandes, ator que admiro bastante, mas que tem o desafio de sobressair com um personagem que carece na dramaturgia de delineamento um pouco mais aprofundado e que acaba prejudicado pela sobreposição da força dramática do plano atual sobre o histórico. Mas assim mesmo, consegue apresentar-se com correção.

Absolutamente destacável a excelente direção musical de Alexandre Elias, explorando a força da matriz musical africana através de um acento percussivo que dilata a pulsação cênica. Destaque igualmente para momento sublime na inserção de “Magrelinha” e o extravasamento com o clássico de Jorge Benjor “Xica da Silva”, executada com postura contundente.

Karla de Lucca vence o eterno desafio de “vestir” o palco do Centro Cultural dos Correios, começando pelas suas inapropriadas colunas(ok, inapropriadas do ponto de vista teatral e sem pensar em aspectos de cálculos de engenharia). Karla reveste o palco com um tom neutro inspirado nos orixás, assim como ocorre com seus figurinos principais, que no seu todo não se preocupa necessariamente por contextualizar historicamente, mas conceitualmente.

A iluminação de Renato Machado utiliza uma tonalidade próxima ao ocre e que contribui para a bela composição cênica e estética da criação de Gilberto Gawronski.

Chica da Silva, o Musical” é um trabalho bravo e valoroso que revela para o público distintas possibilidades sobre o mito de Chica da Silva.

Foto: Janderson Pires

Foto: Janderson Pires

FICHA TÉCNICA:
Texto: Renata Mizrahi
Direção: Gilberto Gawronski
Idealização: Alexandre Lino e Daniel Porto
Pesquisa: Daniel Porto
Consultoria de Conteúdo: Cristina Lopes
Elenco: Vilma Melo, Antônio Carlos Feio, Ana Paula Black, Luciana Victor e Tom Pires
Diretor Musical: Alexandre Elias
Músicos: Di Lutgardes, Reginaldo Vargas, Victor Dutra e Tássio Ramos
Assistente de direção musical: Victor Durante
Preparação Vocal: Ananda Torres
Direção de Movimento: Carlos Muttalla
Assistente de Direção: Renato Krueger
Iluminação: Renato Machado
Cenário: Karlla de Luca
Figurinos: Karlla de Luca
Desenho de som: Rossini Maltoni
Programação Visual: Guilherme Lopes Moura
Fotos e Vídeos: Janderson Pires
Visagismo: Sandra Moscatelly
Cenotécnico e Pintura de Arte: Emphorium Carioca
Costureira: Maria Helena
Operador de Luz: Kelson Alvarenga e Diego de Assis
Operador de Som e Microfonista: Kelson Santos Alavrenga
Bilheteria: Equipe Cineteatro
Direção de Produção: Alexandre Lino
Produção Executiva: Daniel Porto, Mariana Martins e Tom Pires
Assistente de Produção: Renato Krueger
Coordenação – Lei Rouanet: Jéssica Santiago
Prestação de contas: Jéssica Santiago
Assessoria jurídica: André Siqueira
Assessoria de Imprensa: Bianca Senna, Paula Catunda e Rachel Almeida.
Homenagem especial: Zezé Motta
Realização: CINETEATRO PRODUÇÕES
SERVIÇO:
Chica da Silva – O musical
De 8 de setembro a 30 de outubro de 2016.
Centro Cultural Correios: Rua Visconde de Itaboraí, 20, Centro.
Telefone: (21) 2253-1580
Dias e horários: quinta a domingo, às 19h.
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)
Lotação do teatro: 200 lugares.
Duração: 1h20.
Classificação indicativa: 16 anos
Funcionamento da bilheteria: De terça a domingo, das 15h às 19h.
Assessoria de imprensa do espetáculo

Bianca Senna| bianca@astrolabiocom.net
Paula Catunda| paula.catunda@gmail.com
Rachel Almeida| racca.almeida@gmail.com


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