Crítica RJ: Em um Lugar Chamado Lugar Nenhum


 

Em um Lugar Chamado 1

Por Renato Mello.

Já se encaminha para sua fase final a primeira temporada do espetáculo “Em Um Lugar Chamado Lugar Nenhum”, atualmente em cartaz no Teatro II do CCBB e seguirá até o dia 26 de outubro.

O espetáculo dirigido por Rogério Fanju surgiu na cena teatral carioca de modo despretensioso, mas se consolidou com uma agradável surpresa. Marca a promissora estreia da atriz Agatha Duarte na função de dramaturga.

Segundo sua própria sinopse oficial, “em 1950, em um vilarejo longínquo nordestino chamado “Lugar Nenhum”, pouco tempo tinha desde a chegada do maior meio de comunicação na cidade – a Rádio. Através dela, os pacatos cidadãos daquele local tomam conhecimento do restante do mundo.  Sem que percebam, seja para o bem ou para o mal, esse aparelho moderno vira “de ponta cabeça” a vida de um jovem casal que estava fadado a se conhecer, casar, trabalhar, ter filhos e… Só”.

Apesar da temática de pano de fundo sobre o papel desempenhado pelo rádio como um importante agente integrador das várias regiões submersas dentro da vastidão do Brasil, a estrutura dramatúrgica do texto de Agatha Duarte não busca teses sociológicas ou antropológicas sobre a questão, quer apenas contar uma delicada história de amor tendo a força do rádio no contexto da época abordada como papel preponderante de seu desenvolvimento narrativo. Existe uma sinceridade nos propósitos da autora, que ela cumpre com eficiência e sem se apoiar em subterfúgios duvidosos para revelar uma história singela e cativante. Chama igualmente a atenção a carpintaria estrutural do roteiro e a maneira extremamente cuidadosa como trabalha os diálogos e as intenções neles contidas, através da inspiração do cordel, com versos rimados, mas sem deixar que isso se torne uma amarra, deixando-os fluir com naturalidade, delicadeza e leveza. Agatha Duarte revela ser uma autora a que se necessita uma atenção particular para o que podemos esperar dela daqui para frente.

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Foto: Robson Sanchez

Rogério Fanju teve um entendimento bastante amplo das intenções da autora, explorou as possibilidades e inclusive contribuiu para uma maior amplitude da proposta através da criação de boas soluções para as distintas necessidades do desenvolvimento narrativo. Delineou uma base segura para seus atores comporem atuações competentes a partir de marcações e movimentações bem delineadas, levando-os a um correto encontro com cada um dos seus personagens através de uma boa direção de atores.

O elenco é formado pela própria autora Agatha Duarte, com Rafael Canedo e Guilherme Dellorto. Agatha Duarte se expressa com graciosidade nos seus gestos, movimenta-se em cena com clareza e realiza um trabalho de composição muito bem conduzido. Uma atuação encantadora! Rafael Canedo, a quem reputo como a maior revelação teatral de 2014 com “O Estranho Caso do Cachorro Morto” compõe um interessante e carismático par com Agatha, estabelecendo  um bonito jogo com a atriz, equiparando-se no mesmo nível de equilíbrio cênico. Modula ao longo de toda a encenação um tom de interpretação correto, mesmo nas diferentes emoções impressas e que lhe eram necessárias externar. Guilherme Dellorto tem a função que reputo como das mais ingratas ao se desdobrar em diferentes papeis, o que faz com eficiência nos registros que lhe eram solicitados.

A cenografia assinada por José Dias é despida de maiores elementos, mas consegue preencher as necessidades dramatúrgicas através de projeções, que acabam por ser uma boa alternativa para a proposta estética do espetáculo.

Leysa Vidal cria uma luz bastante propícia para a atmosfera do espetáculo, valorizando as cenas elaboradas por Rogério Fanju e contribuindo bastante para a dramaturgia.

Muito bom o trabalho de criação dos figurinos por parte de Daniele Geammal,  com um cuidadoso estudo tanto de época quanto de adequação para os arquétipos de cada personagem.

A direção musical de Roberto Bahal igualmente com qualidade e pontua com precisão as construções cênicas da peça.

Em Um Lugar Chamado Lugar Nenhum” traz interessantes reflexões sobre a inserção do homem em seu tempo e espaço físico a partir de meios externos como fator desencadeador de uma busca pela amplidão de horizontes. Tudo através de uma graciosa contextualização de uma dramaturga que parece ter vindo para ocupar seu espaço, gerando um espetáculo com empatia e que tem a capacidade de criar elos de cumplicidade com o público.

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Foto: Robson Sanchez

Ficha Técnica
Patrocínio: Fundação Cesgranrio
Direção: Rogério Fanju
Dramaturgia: Agatha Duarte
Elenco: Rafael Canedo, Agatha Duarte e Guilherme Dellorto
Cenografia: Zé Dias
Iluminação: Leysa Vidal
Figurino: Daniele Geammal
Direção Musical: Roberto Bahal
Programador Visual: Johnny Ferro
Preparação Corporal: Sandra Prazeres

Serviço
“Em Um Lugar Chamado Lugar Nenhum”
Centro Cultural Banco do Brasil
R. Primeiro de Março, 66 – Centro.
Teatro II
De sexta a segunda às 19h30min
Temporada: 18 de setembro a 26 de outubro
Duração: 80 minutos
Gênero: Romance
R$ 10,00
Classificação: 12 anos


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