Crítica RJ: Lili


 

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Por Renato Mello

A vida de Lili Elbe ganha os palcos teatrais através da montagem do espetáculo “Lili”, com direção de Susana Ribeiro, em temporada no mezanino do Sesc Copacabana até o dia 20 de novembro.

Antes de mais nada é preciso esclarecer que o atual projeto não é uma adaptação do romance de David Ebbershoff e nem do filme de Tom Hooper, que ganharam o mundo como “A Garota Dinamarquesa”, mas como bem me ressaltaram os atores Darwin Del Fabro e Suzana Castelo, uma busca direta na fonte primária dos diários que Lili Elbe deixou de legado.

Segundo sua própria sinopse oficial, “A peça conta a história de amor entre os artistas Gerda Gottlieb  e Einar Wegener no início do século 20. Ousando seguir o seu desejo mais profundo, e contando com o apoio incondicional de Gerda, o jovem Einar foi uma das primeiras pessoas a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo, transformando-se numa mulher, Lili Elbe”.

A variante que a complexidade de uma personalidade como Lili Elbe pode sugerir acaba por abrir um caminho traiçoeiro que tende por diluir a força dramática caso se queira abarca-las todas. É preciso critério e foco para aprofundar uma reflexão sobre todos os aspectos que podem estar envolvidos num processo de reconstrução de uma identidade sexual nas primeiras décadas do século XX. A grande virtude do trabalho de adaptação realizado por Walter Daguerre é justamente optar uma linha estrutural e manter-se coerente com ela por toda sua narrativa, sem deixar-se distrair com subterfúgios que só serviriam por esvaziar a força dramática. Ao centrar seu olhar na densidade da relação entre Einar e Gerda, abordando como o processo de transformação, autodescoberta e a negação de uma memória sob outro corpo afetou a vida de ambos, Daguerre transforma sua história num instrumento que enrijece a capacidade dramática, dando-lhe solidez e precisão, evitando desvãos e medindo nos diálogos o peso adequado à intensidade dos sentimentos aflorados.

Com material dramatúrgico de tal expressividade, uma diretora de inegável capacidade como Susana Ribeiro teve vasto campo aberto para a construção de um espetáculo sofisticado, mesclando força e delicadeza em gradações equilibradas. A cenografia de Beli Araújo, inspirada na obra de Ligia Pape, contribui decisivamente na abertura de caminhos fluídos para a composição desenhada por Susana Ribeiro, através da construção de instalações baseadas em fios geométricos pendurados que ganham significações com a intervenção da luz de Rodrigo Belay. A cenografia e Beli Araújo e a iluminação de Rodrigo Belay interagem permanentemente na criação de uma abstração poética que interfere positivamente na composição teatral. A direção de movimentos de Renato Vieira tem papel destacável para o arranjo de um quadro cênico que encanta não somente pela plasticidade, como se mostra inteiramente associado ao processo de entendimento dos personagens. O modo como Susana Ribeiro rege todos esses elementos gera um significado dramático potente, com um ápice no êxito dessa conjunção técnica na belíssima cena em que Einar e Gerda despedem-se da condição de marido e mulher, em que tudo culmina para a mais pura beleza física, estética e sentimental. A diretora consegue fazer o espetáculo fluir harmonicamente em todas as transições, trocas de ambientes, figurinos, mesmo de personalidade, sem que se note oscilações ou lapsos indesejados.

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Foto: Lucio Luna

Darwin del Fabro(Einar/Lili) e Suzana Castelo(Gerda) fazem um trabalho de criação a 4 mãos, expondo uma profusão de sentimentos que atinge boa capacidade técnica. Suportam-se mutuamente incessantemente num jogo cênico intenso e constante em que os corpos se fundem ou mesmo transmutam-se em consonância com a evolução de suas essências. Darwin del Fabro realiza um trabalho delicado e sensível. Jamais avança para algum resquício de exagero, sempre dosando e extravasando o inconformismo com adequação, com o corpo respondendo plenamente ao caminho evolutivo do personagem. Suzana Castelo mantem-se num grau de intensidade em total consonância com as necessidades de Gerda, que tal como Einar/Lili tem que igualmente redescobrir-se no mundo, em que a atriz utiliza-se com precisão sua capacidade corporal e expressividade para responder aos estímulos do seu personagem.

Os figurinos de Antonio Medeiros correspondem prontamente as necessidades narrativas, conseguindo localizar época, meio social e vestir a complexidade das personalidades expostas em cena. Possuem elegância e acima de tudo, contextualização. A trilha sonora de Ricco Vianna pontua com acerto os momentos dramáticos do espetáculo.

Com acertos de distintos elementos teatrais, “Lili” constrói-se vigorosamente como um espetáculo profundo e belo sobre um fato real ocorrido há mais de 80 anos atrás, mas cuja temática é de extrema atualidade.

Lili
Temporada: de 02 a 20 de novembro no Mezanino do SESC Copacabana
Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana / RJ Tel: (21) 2547-0156
De  4ª a sábado às 21h, domingo às 20h

Excepcionalmente no dia 12 de novembro haverá sessões às 18h e às 21h, e nos dias 19 e 20 de novembro as sessões serão às 18h.

Texto: Walter Daguerre / Direção: Susana Ribeiro / Elenco: Darwin Del Fabro e Suzana Castelo / Música Original e Direção musical: Ricco Vianna / Direção de Movimento: Renato Vieira / Cenografia: Beli Araujo / Figurinos: Antônio Medeiros / Iluminação: Rodrigo Belay / Preparação vocal: Rose Gonçalves / Criação de acessórios: Paulo Bijoux / Programação Visual: Andrea Batitucci / Produção Audiovisual: Bruno Heitor / Mídias Sociais: Leo Ladeira / Fotografia: Lucio Luna e Emmanuelle Bernard / Preparação Corporal: Manoela Cardoso / Coach de Pintura: Pablo Ferretti / Orientação Fonoaudiológica: Verônica Machado / Direção de Produção: Alice Cavalcante – Sábios Projetos / Produção Executiva e Assistente de Direção: Luísa Reis / Idealização e produtores associados: Darwin Del Fabro e Suzana Castelo / Realização: Sábios Projetos e SESC Rio / Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany


Palpites para este texto:

  1. Regina Cavalcanti -

    Amei a peça e a crítica !

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