Crítica RJ: Nordestinos


 

NORDESTINOS ESTREIA OFICIAL-By Janderson Pires-144

Por Renato Mello.

Desde remotos tempos se questiona que ventos movem uma legião de Nordestinos a deixar para trás o acalento do lar, o aconchego da família e o amor pela própria terra para se aventurar pelos caminhos da invisibilidade no meio de uma multidão indiferente que habita a grande metrópole. Teses sociológicas, antropológicas, livros e filmes já se debruçaram sobre a raiz da temática a partir dos mais diversos pontos de vista. Querer colocar a questão meramente no plano econômico seria de um grande reducionismo numa questão de contornos tão complexos, com tantos componentes presentes num momento crucial da vida de qualquer indivíduo quando toma a decisão de emigrar e tudo que isso significa. Deixar todo um rastro de vida pela estrada que percorre até chegar ao lugar em que espera ver seus sonhos e desejos se tornarem concretos.

Existe alguém melhor que uma pessoa que fez esse percurso de vida para contar a história? “Histórias de vida, histórias reais” estão por trás de “Nordestinos”, um projeto que vai mais além de uma peça de teatro, concebido pelo ator, produtor…e pernambucano Alexandre Lino, responsável por levar o espetáculo ao palco, juntamente com um elenco composto por atores de distintas regiões no Nordeste, sob a direção de outro pernambucano, Tuca Andrada.

Nordestinos” está em cartaz no Teatro Sesi, Centro do Rio, até o dia 28 de novembro.

O projeto com um todo tem uma amplitude maior, constando um livro em que Alexandre Lino reúne de diversos relatos de gente anônima contando suas histórias pessoais, além da produção de um documentário. Mas no momento, vamos nos ater ao espetáculo teatral:

O roteiro foi escrito por Walter Daguerre a partir dessa série de cartas de nordestinos relatando suas histórias na grande cidade. Confesso que uma das minhas inquietações antes de assistir ao espetáculo se referia exatamente como amarrar tantos contextos de modo a criar uma base dramatúrgica para sustentar uma proposta coerente. Porém Daguerre conseguiu realizar um engenhoso quebra-cabeças através de histórias que iam e vinham, mas com suas peças muito bem amarradas, lapidando todo um conjunto de situações para construir um mosaico pelo qual o espetáculo conseguiu fluir consistentemente, sabendo utilizar os elementos da cultura popular nordestina para permear uma base dramatúrgica que carrega a emoção e o humor.

Tuca Andrada teve grandes méritos no modo como conduziu todo o processo de direção para alcançar uma textura na intensidade cênica que atingiu a essência da atmosfera do universo retratado. Tal êxito foi resultado da utilização equilibrada de distintos elementos e técnicas, como a presença de mamulengos, projeções, sombras, jogo de luzes, que contribuíram para a intensidade de tantas emoções exteriorizadas. A criação de cenas, marcações e movimentações são bem ritmadas e demonstra clareza em suas intenções. Conduz seus atores numa dinâmica cênica, mas sem atropelos. Percebe-se que há um espaço para deixar seus atores se desenvolverem com naturalidade, sem rigidez excessiva, mas sem que percam de vista o objetivo de cada intenção.

O elenco é formado por Alexandre Lino, Rose Germano, Erlene Melo e Paulo Roque, que demonstram uma visível cumplicidade em cena, deixando uma sensação que mais que interpretar, estão jogando entre si e com a plateia, mas sempre com grande verdade. Misturam à encenação experiências pessoais ao ponto em que ficamos instigados para saber em que ponto passamos a estar diante do indivíduo escondido sob a carapaça do ator. Ressaltar também o bom trabalho de expressão corporal(méritos para a preparação de Paula Feitosa), remetendo-nos em certas ocasiões ao trabalho realizado pelo sensacional Antônio Nóbrega, além de uma adequada modulação vocal que dava sentido e vitalidade aos contextos expressados. Individualmente todos tem uma boa performance, começando pela eloquência cênica de Alexandre Lino, com sua personalidade marcante e timing para o humor muito particular. Importante destacar igualmente Rose Germano, grande atriz paraibana e que no ano passado tive o privilégio de assistir numa intepretação marcante de Frida Kahlo. Erlene Melo e Paulo Roque não permitem a quebra da harmonia em cena, equilibrando-se na mesma tonalidade de Rose e Alexandre.

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Necessário tecer comentários elogiosos para a ótima cenografia de Karla de Lucca(também responsável pelos figurinos), contextualizando e materializando de maneira virtuosa toda a atmosfera do Nordeste, escondendo e revelando através de biombos e panos de algodão, com uma contribuição essencial da iluminação de Renato Machado, que atingiam tonalidades retratando a aridez da luz natural nordestina. Figurinos adequados para a proposta, seja no desenho ou no material utilizado para usa confecção.

Para um espetáculo que retrata a saga do nordestino, o elemento musical se fez presente com a direção musical competente de Alexandre Elias, e a escolha de repertório utilizado, com destaque para canções da beleza de “Dia Branco”, ou de “Irene”, além da ocupação do espaço dramatúrgico com a pontuação das cenas.

Além de uma temática de grande riqueza, “Nordestinos” tem uma qualidade técnica que ajudam a formar um belo espetáculo no seu todo. Atinge seus objetivos de nos fazer refletir, emocionar e rir muito com as motivações e provações de tantos nordestinos em seus percursos de vida entre a sua cidade natal e a metrópole idealizada.

Fotos: Janderson Pires

Serviço
Local: Teatro Sesi. Av. Graça Aranha nº 1, Centro (tel. 21 2563-4168)
Funcionamento bilheteria: Segunda a sábado, das 12h às 20h
Vendas também pelo site www.ingresso.com
Capacidade de público: 350 lugares
Estreia: 10 de outubro (sábado), às 19:30h
Temporada: Quinta a Sábado, às 19:30h. Até 28 de novembro.
Ingresso: R$ 30,00 (inteira) R$ 15,00 (meia entrada)
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 70 minutos
Gênero: Comédia
Site: nordestinos.cineteatroproducoes.com.br
Atendimento à Imprensa Ney Motta | contemporânea comunicação

Ficha Técnica
Direção: Tuca Andrada
Dramaturgia: Walter Daguerre
Argumento e Idealização: Alexandre Lino
Elenco: Alexandre Lino, Erlene Melo, Paulo Roque e Rose Germano / Stan-in: Natália Régia

Direção Musical: Alexandre Elias
Iluminação: Renato Machado
Cenário e Figurinos: Karlla De Luca
Preparação corporal e Movimento: Paula Feitosa
Assistente de Direção e Dramaturgia: Fabrício Branco
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Design Gráfico: Guilherme Lopes Moura
Fotógrafo: Janderson Pires, Foto Janderson Pires
Revisora Textual: Yonara Costa
Assessoria Jurídica: André Siqueira
Produção Executiva: Daniel Porto
Direção de Produção: Alexandre Lino
Realização: Cineteatro Produções

 


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