Crítica RJ: O Pena Carioca


 

Foto - Chico Lima (1)

Por Renato Mello.

Um espetáculo de importante relevância na atual temporada carioca permanece em cartaz somente até o dia 25 de outubro no Teatro Poeira, “O Pena Carioca”, direção de Daniel Herz com a Companhia Atores de Laura para textos de Martins Pena. Portanto, é necessário um sentido de urgência para não se perder uma proposta que merece destaque, seja por seus aspectos históricos, sociológicos, ou pelas suas inúmeras qualidades artísticas como obra teatral.

Antes de entrarmos em questões específicas da montagem idealizada por Daniel Herz é necessário tecermos comentários sobre a própria história do teatro nacional. São raras as oportunidades de uma maior presença do legado dramatúrgico deixado por Martins Pena, que com apenas 33 anos vividos(1815 – 1848), deixou uma obra teatral recheada por uma inteligente ironia, bom humor e que introduziu a comédia de costumes no Brasil. Mais além da qualidade dramatúrgica de sua obra, traz-nos à luz um painel muito consistente que permite olharmos com maior precisão o típico cidadão do século XIX, tanto da cidade quanto da roça, através de uma galeria de personagens presentes na vida social brasileira. São pequenos funcionários públicos, malandros, juízes, imigrantes, militares, enfim, responsáveis por girar a roda da engrenagem social de um país que então era majoritariamente rural e ainda escravocrata.

A história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será”, seguindo a premissa de Eduardo Galeano, um dos aspectos mais interessantes em se debruçar sobre a obra de alguém com uma visão tão aguçada sobre o mundo ao seu redor, como Martins Pena, é justamente refletirmos através do olhar ao passado para descortinarmos nosso próprio cotidiano, justamente algo que o espetáculo concebido por Daniel Herz realiza com bastante eficácia. Em pequenos gestos, corruptelas e “vícios” tão presentes no século XIX podemos entender algumas questões que se apresentam amplificadas e arraigadas em nossas mais amargas mazelas.

Daniel Herz optou por três textos para montar um painel do universo de Martins Pena. “O Pena Carioca” é composto por “A Família e a Festa na Roça”, uma história ingênua e com uma ambientação rural, escrita em 1838; “O Caixeiro da Taverna”, de 1845, que trata do casamento como busca de ascensão social;  e “O Judas no Sábado de Aleluia”,  rascante crítica à moral burguesa.

Foto - Chico Lima (2)

Fascina nos trabalhos de Daniel Herz sua inesgotável capacidade de surpreender, trazendo a cada espetáculo novas motivações e propostas. Em “O Pena Carioca” já é possível sentir um impacto logo ao entrarmos na sala de espetáculos com uma ambientação que parece nos espreitar a partir de diversos cabideiros e vários figurinos ali pendurados. À medida que nossa vista vai se “acostumando” com a proposta cênica diante de nós, percebemos os atores. Inertes, à espreita, nos encarando de frente, propondo um jogo psicológico com a plateia, talvez de algum modo acabamos nos vendo como coletividade através de seus arquétipos. A ocultação dos corpos é tão bem concebida que temos dificuldade de contabilizarmos os atores espalhados ao longo do cenário, realizando uma “cenografia viva” com os cabides e os figurinos, um trabalho de grande beleza conduzido por Daniel Herz, com uma idealização sofisticada e encantadora por parte de Fernando Mello da Costa.

Após o 3º toque ganha-se  vida em cena com a revelação completa dos atores. A concepção cênica de Daniel Herz reúne, apesar de ambientes diversos de três textos, uma unidade estética e dramatúrgica, num ritmo e movimentação que se mantém ao longo de todos os 100 minutos de duração de “O Pena Carioca”. Opta pela farsa para desenvolver sua encenação, seja pela caracterização dos atores através dos rostos pintados de branco(visagismo de Diego Nardes) ou  pela dinâmica imposta.

IMG_6386

Dentre as incontáveis virtudes desse tremendo criador teatral que é Daniel Herz, uma das que mais chamam a atenção é sua direção de atores. Em “O Pena Carioca” vários fatores conspiravam para uma maior complexidade. Mesmo com um elenco interpretando os mais diversos papeis em vários contextos completamente diferentes e com distintas graduações na relevância dos papeis vividos por cada ator em cada uma das histórias, há permanentemente uma harmonização no jogo cênico, no ritmo e na intensidade das atuações de Ana Paula Secco, Anderson Mello, Gabriela Rosas, Leandro Castilho, Luiz André Alvim, Marcio Fonseca e Paulo Hamilton. Sem exceção, todos num ótimo nível de atuação, eclético, encontrando a tonalidade, expressividade e movimentação corretas. Destaque também para a expressão corporal impecável, conduzida com uma precisão absoluta(desenvolvido por Duda Maia na direção de movimentos).

Excelente o trabalho de criação de Antônio Guedes nos figurinos. Grande contribuição para a proposta estética do diretor, dosando com exatitude a pesquisa de época e o tom da farsa proposto para a concepção cênica.

Aurélio de Simone desenha uma luz de extrema adequação à atmosfera de “Pena Carioca”, sabendo destacar as distintas situações que compõe a encenação, contribuindo para realçar a estética do espetáculo e o magnífico cenário(já mencionado) de Fernando Mello da Costa.

O Pena Carioca” é uma montagem que deixa uma importante marca na atual cena teatral carioca. Além dos seus inúmeros atributos artísticos, traça um competente retrato da obra de um importante autor e de sua época. Uma parte importante da história do teatro brasileiro se faz presente nesse excelente espetáculo.

IMG_5949

Fotos: Chico Lima

Serviço
O Pena Carioca
Temporada: até 25 de outubro.
Local: Teatro Poeira
Endereço: Rua São João Batista, 104 – Botafogo
Sessões: 5ª a sáb., às 21h, e domingo, às 19h.
Preço: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia).

Ficha Técnica
Texto: Martins Pena
Direção: Daniel Herz
Elenco: Ana Paula Secco, Anderson Mello, Gabriela Rosas, Leandro Castilho, Luiz André Alvim, Marcio Fonseca e Paulo Hamilton
Iluminação: Aurélio de Simoni
Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurino: Antonio Guedes
Trilha sonora original: Leandro Castilho
Direção de Movimento: Duda Maia
Projeto Gráfico: Maurício Grecco
Direção de Produção: Renata Campos
Consultoria Psicanalítica: Evelyn Disitzer
Assistente de Direção: Tiago Herz
Assistente de Produção: Thaisa Areia
Assessoria de Imprensa: MNiemeyer
Fotos de Divulgação: Paula Kossatz
Assistente de Figurino: Renata Mota
Direção Artística da Cia Atores de Laura: Daniel Herz
Realização: Cia Atores de Laura


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

novembro 2017
D S T Q Q S S
« out    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930