Crítica RJ: Por Amor ao Mundo – um Encontro com Hannah Arendt


 

Por Amor ao Mundo 1

Por Renato Mello.

Encerrou no dia 04 de outubro a temporada no CCBB da montagem de “Por Amor ao Mundo – um Encontro com Hannah Arendt”. Assisti ao espetáculo em sua última semana e apesar de não se encontrar mais em cartaz, creio ser importante deixar um registro devido a sua valiosa contribuição à temporada deste ano pela alta qualidade dos artistas e criadores envolvidos, além de sua relevância artística como obra teatral, desejando que possa ser revisto em novas temporadas.

 “Por Amor ao Mundo” é a terceira parceria entre o diretor Isaac Bernat e a dramaturga Marcia Zanelatto, depois dos bem-sucedidos “Desalinho” e “Deixa Clarear”.

Um dos maiores êxitos do espetáculo é a base dramatúrgica desenvolvida por Marcia Zanelatto a partir das escolhas que realizou para conduzir seu trabalho, que tinha como premissa a missão de se debruçar sobre a vida, pensamento e obra de uma personalidade tão complexa como Hannah Arendt. Sem dúvida um caminho fértil, que por isso mesmo abre inúmeras vertentes e tentações que podem levar um dramaturgo a se perder na sua vastidão, podendo construir um espetáculo vazio ao querer abraçar todas as possibilidades que se abrem a sua frente. Mas Marcia soube com uma enorme habilidade encontrar um foco, traçou um caminho e foi coerente com ele ao longo do percurso para transformar sua obra dramatúrgica num instrumento sólido para que o diretor e seus atores tivesse um porto seguro para a partir de ali buscarem seus próprios processos de criação.

O texto de Marcia Zanelatto Não se debruça sobre uma linha temporal ou meramente biográfica, procura entender como as  experiências pessoais de Hannah Arendt abasteceram seu pensamento e sua personalidade, desde as origens judaicas em plena ascensão do Nazismo, a convivência os homens de sua vida e inclusive passando temas mais frugais, para que tenhamos uma melhor dimensão de quem era a mulher por trás da armadura da contundente teórica política.

 Como aponta em sua própria sinopse oficial, “Por Amor ao Mundo – um Encontro com Hannah Arendt” é uma peça que “dialoga com a atualidade da banalidade do mal”. A referência ao tema tem como base seus textos de 1963 para a The New Yorker, “Eichmann em Jerusalém” em que se distancia do previsível durante as sessões do julgamento do oficial nazista ao se aprofundar numa análise do indivíduo e suas motivações, descrevendo-o como alguém que não possuía histórico ou traços antissemitas e não teria agido por uma índole doentia, mas porque acreditava ser esse o seu dever a partir de ordens superiores e com motivações puramente profissionais dentro de uma carreira burocrática, cumprindo ordens sem refletir sobre as consequências do que poderiam causar. A sua busca por entender o homem Eichmann lhe valeu uma enorme controvérsia, embora jamais tenha se manifestado a favor de algum tipo de indulgência ao carrasco nazista.

POr amor Ao Mundo 2

Isaac Bernat aproveitou todas as intenções apontadas na proposta de Marcia Zanelatto e conduziu uma concepção cênica de grande sofisticação, sabendo extrair de atos aparentemente banais interessantes contextualizações, sabendo encontrar um equilíbrio para não se fechar num jogo hermético e ao mesmo não fornecendo nada de graça. Cada movimento tem um sentido, uma razão, aprofundando com sua construção cênica um mergulho na alma de sua personagem. Exímio diretor de atores, Isaac Bernat sabe como poucos conduzir seus atores pelo palco, encontrando com cada um deles a tonalidade adequada, a ausência de qualquer tipo de artificialismo e com uma enorme verdade extraída de cada personagem em cena.

Kelzy Ecard tem uma das mais marcantes interpretações do ano. Um trabalho de composição que nos leva diretamente a um real encontro com Hanna Arendt. Isso se dá através da perfeita noção da medida que utiliza todos os instrumentos que só uma atriz de fartos recursos técnicos é capaz, desde a composição física, aos gestos, a tonalidade, o ritmo das falas, as pausas, além da forte presença que transmite em cena. Uma autêntica aula de como se construir em cena como personagem e ao mesmo tempo desconstruir um mito através da mulher que ali dentro “se esconde”. Nada menos que excelente pode ser referenciado sobre sua atuação! Carolina Ferman interpreta a escritora e amiga Mary MacCarthy e uma jovem judia que discorda frontalmente do pensamento desenvolvido por Arendt, realizando ao longo da apresentação um interessante jogo cênico, não deixando espaços para um distanciamento entre o nível de atuação e com importante contribuição através dos seus personagens para um maior aprofundamento sobre Hannah Arendt. Michel Robim interpreta diversos personagens, entre eles os homens marcantes da vida de Arendt, como Heidegger e Blucher, além de exercer o ofício da narração. Ator que encanta em cena pela sua expressividade, movimentação e acima de tudo um grande carisma que já fica latente desde sua primeira intervenção.

Tecnicamente “Por Amor ao Mundo – um Encontro com Hannah Arendt” é impecável, começando por destacar a belíssima cenografia de Doris Rollemberg. Em cena uma caixa preta que vai demonstrando grande funcionalidade ao longo do espetáculo, transformando-se em objetos utilizados para o contexto do desenvolvimento cênico exigido. Como fundo um painel que como num movimento espiral parece nos conduzir para o interior do pensamento da protagonista, tudo sob a luz de Aurélio de Simone.

Os figurinos de Desirée Bastos, com todos os componentes adequados para a contribuição ao desenvolvimento de cada personagem.

Um importante elemento para atmosfera proposta por Isaac Bernat está na direção musical de Alfredo Del Penho, ritmando a atmosfera e construção cênica com grande eficiência.

Por Amor ao Mundo – um Encontro com Hannah Arendt”, um espetáculo que através de uma reflexão sobre o passado de uma das mais importantes pensadoras do século XX, mantém uma capacidade desconcertante de trazer importantes reflexões que são de uma atualidade absoluta.

Fotos: João Julio Mello

EQUIPE DE CRIAÇÃO:
Dramaturgia – Marcia Zanelatto
Direção – Isaac Bernat
Elenco – Kelzy Ecard, Carolina Ferman, Michel Robim
Cenografia – Doris Rollemberg
Iluminação – Aurélio de Simoni
Figurinos – Desirée Bastos
Direção musical – Alfredo Del-Penho
Direção de movimentos – Marcelle Sampaio
Direção de produção – Roberto Jerônimo
Idealização e Realização – Marcia Zanelatto/ Transa Arte e Conteúdo


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