Crítica RJ: Por Que Nem Todos os Dias São Dias de Sol?


 
Foto: Jackeline Nigri

Foto: Jackeline Nigri

Por Renato Mello

Antes de me pôr a escrever sobre o último trabalho da Artesanal Cia de Teatro, “Por que nem todos os dias são dias de sol?”, decidi assistir duas vezes ao espetáculo. Gostaria de ter a possibilidade de fazer o mesmo com todas as peças relevantes antes de atrever a me debruçar sobre seus conceitos, pois com as variáveis de leitura que um trabalho como o da Artesanal é capaz de proporcionar, um segundo olhar é de extremo proveito para aguçar a percepção de aspectos que talvez passassem desavisados em meio a tantas referências a se extrair.

Por que nem todos os dias são dias de sol?” teve sua estreia nacional em São Paulo, no Sesc Pompeia e aporta finalmente no Rio de Janeiro para temporada no Teatro Ipanema até o dia 18 de dezembro, com direção assinada por Gustavo Bicalho e Henrique Gonçalves.

Antes de mais nada, embora possa parecer repetitivo e talvez até redundante, escrever sobre o trabalho da Artesanal Cia de Teatro dentro do cenário do teatro infantil é discorrer sobre um parâmetro referencial de qualidade, como pode ser depreendido pelo histórico de publicações que já fiz sobre esse trabalho aqui no Botequim Cultural desde 2012(AQUI). Isso pouco representa diante de seus 21 anos de história. Então, aguardar uma montagem da Artesanal é sempre um gerar de expectativas sobre o melhor que o teatro infantil pode oferecer.

A nova montagem da Artesanal Cia de Teatro não decepciona, “Por que nem todos os dias são dias de sol?” é mais um trabalho de extrema qualidade narrativa e estética que se constrói na costura de 4 histórias distintas que contém alguns dos principais vetores da reflexão sobre “o ser criança e o tornar-se adulto”, que como bem aponta sua sinopse oficial, questiona “O que é o amor? O que é a liberdade? O que é a vida? O que é o medo? O que é ser adulto? Como as mulheres ficam grávidas?”.

 

Foto: Jackeline Nigri

Foto: Jackeline Nigri

A dramaturgia de Gustavo Bicalho embasa todo o conceito cênico que a Artesanal vem desenvolvendo nessas décadas, trazendo uma essência de extrema delicadeza na maneira como aborda questionamentos que contém uma complexidade por trás de uma de uma enganosa simplicidade. Com beleza e lirismo, o texto de Gustavo Bicalho consegue ser profundo e emocional, atingindo uma densidade parelha com aquela apresentada em um espetáculo anterior da cia, “O Príncipe que Tinha Rosto”.

Gustavo Bicalho, como poucos dramaturgos brasileiros são capazes, constrói uma organicidade na sua estruturação que faz a narrativa pender-se  solta para um impulsionamento cênico que o acabamento final da sua direção, conjuntamente com Henrique Gonçalves, molda para encontrar num ponto futuro o padrão de qualidade que se espera de uma peça da Artesanal. Sua dramaturgia não é pensada de modo desassociado com os demais elementos teatrais. Não existe um mero preenchimento cênico a partir do roteiro, tudo anda compassado em todo processo de criação. Assim o caminhar narrativo já vem pré-concebido com a movimentação, a iluminação, os figurinos, mesclando-se numa simbiose  para compor uma marca própria.

Mais além das 4 histórias em si, um dos aspectos mais cativantes se dá pela forma como são contadas, utilizando-se de 4 técnicas e linguagens teatrais distintas, como podemos depreender abaixo:

História 1: “A Velha do Saco” – Através de um tipo de manipulação em que ator e boneco se parecem um só ser, técnica conhecida como bonecos siameses, conta a história de um menino que tinha medo de uma velhinha que todo dia via sentada num banco de praça, achando que ela era uma bruxa que roubava a memória das crianças.

História 2: “Pássaros” – O início do relacionamento entre Nina e Beto a partir da tentativa de resgatar uma pipa presa no alto de uma árvore, tendo para isso que desafiar o medo de altura. Contada através da utilização de máscaras.

História 3: “O Relógio e a Régua” – Com a utilização do “teatro de objetos” conta a história de um pai que se revela culpado aos seus objetos de escritório, uma luminária, relógio e régua, diante do pouco tempo que tem para o filho e do medo que a criança passou a ter de crescer para não assemelhar-se ao pai.

História 4: “O Jardim das Borboletas Agitadas” – A curiosidade sobre como o bebê vai parar dentro da barriga da mãe e da clássica resposta de que advém de uma semente é a última história, contada se utilizando de videomapping, ou seja, imagens desenhadas no palco em torno dos atores.

Foto: Jackeline Nigri

Foto: Jackeline Nigri

Essas 4 histórias inteiramente diferentes entre si formam um belo mosaico dos questionamentos infantis. Um dos aspectos mais sedutores é como se faz as transições entre as histórias, através de gestos e movimentos coreografados, que com o efeito de projeções, a trilha sonora de Gustavo Bicalho e o excelente desenho de luz de Rodrigo Belay e Poliana Pinheiro acabam por despejar pela ambientação um espiral de expressividade poética e lirismo, gerando um sentimento de encantamento.

O elenco formado por Edeilton Medeiros, Livia Guedes, Bruno Oliveira e Débora Salem, reúne todos os instrumentos para levar ao fim a proposta dentro das diversas técnicas expostas, sabendo extrair das camadas ocultas no texto de Gustavo Bicalho uma percepção inteligente e sensível para extravasar humor, emoção e reflexão. Utilizam com bastante qualidade os atributos do instrumento corporal, com uma impostação de voz adequada para as necessidades emocionais, seja em sua emissão, modulação ou intenção(destaque para Bruno Oliveira nesse quesito), assim como na expressividade e movimentação.

O figurino de Henrique Gonçalves e Fernanda Sabino compõe o quadro cênico com desenhos e texturas de muita beleza e que acolhem os personagens com elegância. Os elementos cenográficos  de Karlla de Luca localizam-se nos cantos, para serem inseridos no centro narrativo através de gestos suaves por parte dos atores, mantendo a composição estética limpa.

A iluminação de Rodrigo Belay e Poliana Pinheiro é sem sombra de dúvidas um dos elementos mais destacáveis do espetáculo, que além da plasticidade, dialoga permanentemente com a dramaturgia e direção, seja nas transições, na ambientação e contribuindo para expandir as imposições cênicas. Temo ficar um pouco repetitivo nos elogios que tenho feito para as iluminações de Belay em diversos espetáculos, mas não me recordo de algum trabalho seu que tenha me gerado qualquer resquício de indiferença.

Por que nem todos os dias são dias de sol?” é um espetáculo com a marca da Artesanal Cia de Teatro, dentro do que isso significa: profundidade, beleza e encantamento, enfim, a sensibilidade artística em elevados níveis.

Foto: Jackeline Nigri

Foto: Jackeline Nigri

FICHA TÉCNICA
Dramaturgia e texto: Gustavo Bicalho
Direção: Gustavo Bicalho e Henrique Gonçalves
Elenco: Bruno Oliveira, Débora Salem, Edeilton Medeiros, Lívia Guedes
Bonecos: Bruno Dante
Direção de movimento de bonecos e preparação técnica: Márcio Nascimento
Direção de movimento dos objetos e preparação técnica: Marise Nogueira
Máscaras e preparação técnica: Flávia Lopes e Marise Nogueira
Direção de movimento: Paulo Mazzoni
Preparação vocal: Verônica Machado
Cenários e adereços: Karlla de Luca
Figurinos: Fernanda Sabino e Henrique Gonçalves
Pesquisa musical e trilha sonora: Gustavo Bicalho
Desenho de som: Luciano Siqueira
Desenho de luz: Poliana Pinheiro e Rodrigo Belay
Video mapping: Dado Marietti
Animação: Rafael Cazes e Renata Nassur
Fotografias: Jackeline Nigri
Direção de produção: Henrique Gonçalves

SERVIÇO
Estreia: 12 de novembro de 2016
Temporada: De 12 de novembro até 18 de dezembro de 2016
Local: Teatro Ipanema
Endereço: Rua Prudente de Moraes, 824 – Ipanema – Telefone: (21) 2267-3750
Horários: sábados e domingos, às 16h
Ingressos: R$ 20,00 (inteira) / R$ 10,00 (meia)
Horário de funcionamento da bilheteria: Terça a domingo de 14h às 22h
Classificação: Livre – Indicado para crianças a partir de 5 anos
Duração: 60 min.
Capacidade: 222 lugares
Gênero: Infantojuvenil


Palpites para este texto:

  1. Felipe Dias Batista -

    Outono é minha estação preferida.
    Outono que traz o frio, a garoa, as chuvas, os dias de chocolate quente e as noites de sopinhas e caldos. É também estação que traz as festas juninas, meu evento favorito do ano, com suas comidas típicas, música nordestina, dança, comilança, fogueira e roupa caipira.
    Outono, que delícia, traz ainda cheiro de infância e recordações de dias de criança.
    Sou adulto que adora tudo isso.
    Sou criança que adora tudo isso.
    Outono se faz de lembranças: dessas memórias que te assolam quando você fica olhando a chuva cair na vidraça tomando chá de capim santo, quando você fica protegido do frio, de meias e cachecol, debaixo de um cobertor quentinho; quando você come pé de moleque ou canjica e diz com suspiro de saudade: “Ah! Canjica nesse frio é tão infância…”
    Outono é memorial de sensações vivenciadas e vívidas.
    Para os dias de outono que moram em mim gosto de ouvir Cais de Milton Nascimento com participação especial da cantora portuguesa Carminho. Na verdade gosto de ouvir canções que me traduzam, que me transportam, que me conduzam a uma ilha de lembranças.
    Gosto mesmo, creio, de obras artísticas que me façam tudo isso.
    Sou um pescador que adora navegar por mares de recordações.
    Vi a peça pela primeira vez em 21 de maio de 2016, num dia chuvoso de bastante frio (sorte a minha) no teatro do Sesc Pompéia. Vimos, mamãe e eu, uma pequena obra lírica chamada Por que nem todos os dias são dias de Sol?
    Poética, doce e feita de lembranças: as quatro histórias apresentadas são, para mim, como quadros das próprias estações do ano.
    Do desabrochar ao recolhimento o espetáculo é uma incursão à própria jornada de cada um de nós.
    Há uma velha senhora, dessas que dá comida aos pombos, que acreditamos ser real. Na verdade ela é uma boneca manipulada de maneira impecável que ta faz imaginar futuros ou resgatar passados. Uma dessas senhoras que fez parte do nosso imaginário infantil e que sempre trazemos nas lembranças.
    Lembrança é também o nome que o menino dá a ela (outro boneco maravilhoso!) e a primeira história nasce atestando o rigor cuidadoso e encantador com que a Artesanal Cia de Teatro conta suas peças.
    Do primeiro amor, responsabilidades de adulto, jardins de crianças japonesinhas à chegada da velhice, somos levados por momentos de reconhecimento e identificação.
    Sou fã, como puderem perceber.
    Mas além disso sou um admirador (não gratuitamente): tal qual os outros espetáculos que já vi, esse último vem com a magia e sensibilidade que o dramaturgo e diretores tanto prezam.
    Os textos são simples, mas não simplórios. Carregados de pureza e… lembranças!
    A direção é meticulosa, quase como uma ourivesaria, esculpindo como um perfeccionista artesão as possibilidades de seu material precioso.
    Os atores são encantadores, com um carinho especial para Edeilton Medeiros, talvez por que a terceira história seja protagonizada por ele e ela tenha me atravessado de uma maneira arrebatadora. Sou ainda apaixonado pelo trabalho primoroso de Lívia Guedes, Bruno Oliveira e Débora Salem.
    Luz, trilha, figurinos e cenários que auxiliam e contribuem brilhantemente.
    Emocionantes e por vezes engraçadas as quatro histórias acabam se tornando, enquanto são encenadas, lembranças que passam a morar no coração.
    Somos feitos disso e o teatro da Artesanal Cia é responsável por nos permitir embarcar em nosso próprio tempo de menino.
    Quem vê Por que nem todos os dias são dias de Sol? jamais esquece!
    Sorte a nossa…

    Ps.: como verdadeiro fã, vi a temporada inteira no Sesc Pompéia e depois no Sesc Belenzinho!

  2. Brincando com o título de mais este lindo trabalho da Artesanal Cia de Teatro, pergunto-me:
    Por que nem todos os dias são de lirismo?
    Por que nem todos os dias são de sonhos?
    Por que nem todos os dias são de arte?
    Em se tratando deste trabalho, todos os dias são assim!
    Ter a honra de ver um espetáculo desta grandeza, me leva a acreditar numa arte um pouco esquecida, mas que como a infância, desperta o melhor de cada um de nós.
    Um espetáculo lúdico, que nos convida a reviver uma infância d’outros tempos, onde inocência e pureza eram inerentes aos pensamentos, onde a pressa de tornar-se adulto não existia, e adultos cultivavam estes sentimentos pueris como um lindo jardim de flores encantadas.
    Saí do Teatro com a sensação de que o mundo pode ser muito melhor se visto pelos olhos de uma criança, que não é nada mais que uma criança em seu tempo e espaço!
    Um espetáculo que nos convida a perceber a simplicidade de uma vida que complicamos tanto em nossos “Tempos Modernos”.
    A propósito, o espetáculo é classificado como infantil; todavia, muitos dos adultos que dividiram esta linda experiencia comigo, deixaram fluir a emoção ao lado dos pequeninos!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

dezembro 2017
D S T Q Q S S
« nov    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31