Crítica RJ: Se Vivêssemos em um Lugar Normal


 

SE VIVÊSSEMOS - foto Ingrid Anne 06 (1)

Por Renato Mello.

Se despedindo da temporada de estreia no Sesc Tijuca que se encerra no próximo dia 27 de setembro e ao mesmo tempo já se preparando para uma nova a partir de 09 de outubro no Parque das Ruínas, em Santa Teresa, o espetáculo “Se Vivêssemos em um Lugar Normal” marca a estreia de um texto do escritor mexicano Juan Pablo Villalobos transposto para um palco de teatro.

Só o fato de ser uma adaptação de Juan Pablo Villalobos já seria motivo suficiente para que mereça ser alvo de atenção. Além disso, importante destacar que o espetáculo tem méritos e vida própria, que abordaremos ao longo dessa crítica. Villalobos, na minha opinião, um dos nomes mais interessantes surgidos nos últimos anos na literatura latino-americana e que quando seu primeiro livro me caiu em mãos meio que ao acaso, “Festa do Covil”, senti uma sofreguidão intensa que não me permitia pausar sua leitura pela força e o peso com que trabalha toda uma conjuntura político-social a partir de uma estrutura narrativa consistente, mordaz e bem-humorada. “Se Vivêssemos em um Lugar Normal” é o 2º romance de uma trilogia dedicada ao México, que começou justamente com “Festa do Covil”.

Com adaptação e atuação de Roberto Rodrigues, somos apresentados durante a encenação a um choque de realidade e que logo de cara já é possível percebermos o tom imposto, sem espaço para nenhuma amenidade ou absolvição:

 “Vai tomar no cu duma vez, seu filho da puta! Vai à merda!”

A partir do ponto-de-vista de Orestes, adolescente que habita com seus 6 irmãos e os pais uma “caixa de sapatos” no alto do Morro da Puta que Pariu, podemos perceber em meio a disputa na mesa familiar por quesadillas, todo um contexto econômico, de desigualdade social, cultural e conservador da vida mexicana, enquanto uma das principais preocupações do protagonista é entender se afinal de contas ele é pobre ou classe média, utilizando a quantidade maior ou menor de queijo como uma metáfora do momento econômico por que passa o país. Ao longo do processo de descobertas e tomada de consciência, Orestes passa a se rebelar contra os mecanismos de manipulação da força do poder político e econômico e até  mesmo contestar a resignação imposta pela Igreja, tendo como armas apenas o sarcasmo e o cinismo.

SE VIVÊSSEMOS - foto Ingrid Anne 07

O grande êxito do trabalho de Roberto Rodrigues é sem dúvida o trabalho de construção da base dramatúrgica, construindo uma carpintaria que amplia ao longo de toda encenação um arco que dá fôlego para a boa fluência do monólogo interpretado pelo próprio Roberto Rodrigues e que com sua força narrativa rouba permanentemente a atenção do espectador, incapacitando-o de realizar qualquer outro devaneio enquanto o ator explora com correção toda a acidez e força do texto, despojando-se de quaisquer outros elementos além de uma gaita e uma caixa, com importantes contextos dentro da narrativa. A dramaturgia mantém-se numa linha coerente entre a fidelidade ao texto original e a fluência cênica de um espetáculo teatral.

Roberto Rodrigues teve igualmente a noção do caminho que utilizaria para expressar de maneira direta um texto tão eloquente e rascante, realizando uma adaptação bem-sucedida artisticamente. Sozinho em cena, intenso, sólido, explora todos os espaços do teatro, sem a menor cerimônia para invadir espaços alheios através de uma movimentação e ocupação bem realizadas por uma atuação viva. Importante destacar o trabalho de expressão corporal e direção de movimentos bem realizados, além da preparação vocal(sob orientação de Jane Celeste) para que o ator tenha tido todas as condições de expandir as bandeiras fincadas no texto.

O Parque das Ruínas no alto de Santa Teresa continuará de palco para dar continuidade para um discurso consciente, realista e necessário para melhor assimilarmos a complexidade de um país como o México e quem sabe, aplicarmos suas similitudes(mesmo que assimétricas) com o que vivemos num país igualmente complexo e desigual como o Brasil. “Se Vivêssemos em m Lugar Normal”, para quem ainda não teve a oportunidade, pode ser um primeiro e bem realizado contato com o universo desse grande escritor que é Juan Pablo Villalobos.

Fotos: Ingrid Anne.

Serviço
Se vivêssemos em um lugar normal
Gênero: tragicômico

Sesc Tijuca – Teatro II
Temporada até 27 de setembro

Teatro: Espaço Sesc Tijuca – Teatro II
Dias: sexta, sábado e domingo.
Hora: 19h
Endereço: Barão de Mesquita, 539 – Tijuca
Telefone: 3238 -2167
Valor: R$8 (inteira) R$4 (meia) R$2 (associados)

Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas
Temporada: 09 a 25 de outubro de 2015

Endereço: Rua Murtinho Nobre, 169 – Santa Teresa
Dias: sexta e sábado, às 19h30; e domingos, às 19h
Preço: R$20,00 (inteira) e R$10,00 (meia)
Bilheteria: (1 hora antes da sessão)
Telefone: (21) 2215-0621
Faixa Etária: 14 anos
Capacidade: 86 lugares
Duração: 60 minutos

Ficha Técnica
Texto: Juan Pablo Vilallobos
Atuação e adaptação: Roberto Rodrigues
Artistas Colaboradores: Breno Sanches, Jane Celeste e Maria Celeste Mendozi.
Figurino: Bruno Perlatto
Iluminação: Adriana Milhomem
Operador de Luz: Rafael Tonoli
Trilha sonora: Victor Hora
Designer: Ivi Spezani
Realização: Cia Teatral Milongas
Produção: Pagu Produções Culturais
Assessoria de imprensa: Lyvia Rodrigues (agência Aquela que Divulga)


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