Crítica: Roleta-Russa


 
Roleta Russa-102 (1)

Foto: Leykung Kim.

Por Renato Mello.

Raphael Montes, um dos mais destacados nomes da nova literatura brasileira ganha uma transposição vigorosa de sua obra para palcos teatrais, “Roleta-Russa”, direção e adaptação de César Baptista, atualmente em cartaz no Teatro Maria Clara Machado.

Roleta-Russa” é adaptado de “Suicidas”, livro de estreia de autor e editado originalmente em 2010.

Não pude comparecer na temporada anterior do espetáculo realizada no Theatro Net Rio, mas assistir a apresentação num palco em formado de semi-arena como a sala do Teatro Maria Clara Machado,  deixou-me uma impressão que é talhado para o desenvolvimento cênico da proposta, com público circundando a narrativa que desenvolve-se em determinados momentos num ritmo quase febril e atingindo um impacto que talvez – lembrando que trata-se de uma mera elucubração de minha parte – num palco em formato italiano e mantendo a distância entre o público e a encenação, como é o caso do Net Rio, a força dramatúrgica que esse texto possui tende a alguma diluição. Ressaltando que ouvi muito boas referências sobre o espetáculo ainda na temporada do Theatro Net Rio.

Segundo sua própria sinopse oficial, “a história se passa em um porão, onde estão nove jovens e uma Magnum 608. Meninos e meninas universitários da elite carioca, aparentemente sem problemas, decidem participar de uma roleta russa. Depois de um ano da morte desses jovens, uma nova pista, um manuscrito é encontrado”.

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Foto: Leykung Kim

Tal como sua fonte original, a adaptação de César Baptista trabalha em 3 tempos narrativos paralelos que se intercalam ao longo da apresentação: a vida de Ale(Dan Rosseto) antes da roleta-russa, a reunião de mães ainda perplexas um ano após o ocorrido em busca de um entendimento(através de gravações em off) e  o eixo principal da roleta-russa em si. Os dois primeiros tempos narrativos tem a função de fornecer as peças chaves para se montar o quebra-cabeças que a dramaturgia de César Baptista constrói a partir do eixo principal do acontecimento, num círculo vicioso que em dado momento demonstra-se inquebrantável e inevitável em um espiral de violência, físico e moral em ritmo crescente. Essa estruturação se realiza com bastante solidez tanto no desenvolvimento das ações, quanto na contundência dos diálogos. Os personagens, mesmo os coadjuvantes, possuem uma composição estrutural bastante consistente em que expõe de maneira coerente as motivações para 9 almas penadas encarceradas se encontrarem naquele porão, exalando uma angustia progressiva que domina a ambientação por um processo propulsionado a partir de uma espécie exorcismo coletivo, no qual a proximidade com a finitude acaba como única opção de expelirem seus fantasmas interiores.

A solidez da adaptação municiou César Baptista a realizar uma concepção cênica com capacidade de exteriorizar o elevado nível de exasperação dos personagens, criando uma atmosfera de terror que vai entranhando ritmada pela apresentação, até sua parte final, em que os acontecimentos se precipitam vertiginosamente. Aproveita corretamente o espaço físico e desenvolve uma movimentação contínua, dando uma boa fluência para a narrativa.  A trilha sonora, a sonoplastia e principalmente, o desenho de luz de Luiz Antônio Farina contribuem decisivamente para o êxito cênico, preenchendo cada necessidade dramática com o clímax preciso e uma marcação que dialoga com a dramaturgia.

A direção de atores tece um bom delineamento dramatúrgico dos personagens. César Baptista conduz todos os atores ao encontro da exposição de seus dramas pessoais, numa tonalidade que caminha paralelamente com suas necessidades, resultando numa atuação coletiva homogênea num bom nível técnico, encadeando as ações a partir da movimentação de cada personagem.  Em relação ao elenco formado por Dan Rosseto(Ale), Diogo Pasquim(Otto), Emerson Grotti(Dan), Felipe Palhares(Noel), Gabriel Chadan(Lucas), Helio Souto(Zak), Lorrana Mousinho(Maria João), Maria Dornelas(Ritinha) e Virgínia Castellões(Waléria), estabelecem um bom jogo cênico em que podemos destacar algumas considerações: Dan Rosseto, o personagem-narrador, cumpre uma atuação consistente, limpa, buscando uma cumplicidade em cada espectador ao mesmo tempo que insinua muito sutilmente que por trás de uma racionalidade em meio ao caos encontraremos algum traço de obscuridade. Helio Souto se expressa com a eloquência, apoiando-se na expressividade vocal e corporal, porém a poda de alguns pequenos excessos poderia dar uma maior solidez para sua interpretação. Virgínia Castellões tem uma atuação de muito bom nível, encontrando ao longo de todo o arco da encenação uma tonalidade adequada, forte e contundente, sem jamais subir a gradação desnecessariamente e com pleno domínio das suas ações. Emerson Grotti faz uma boa composição de um personagem que com sua diferença destila uma boa dosagem de ironia no seio da podridão reinante. Diogo Pasquim, Felipe Palhares, Gabriel Chadan, Lorrana Mousinho e Maria Dornelas aproveitam com consistência seus momentos de protagonismo, dando uma boa sustentação para as camadas dramatúrgicas que lhes são exigidas.

Os figurinos de Rodrigo Reinoso desempenham um bom papel em revelar e compor cada personagem. Os elementos cenográficos incorporam à atmosfera toda a sensação de sujeira que se instala na narrativa, contribuindo bastante na construção cênica.

A temporada de “Roleta-Russa” no teatro Maria Clara Machado se encerra no dia 16 de junho. Portanto, resta apenas mais uma semana para se assistir um espetáculo teatral de um autor que tem a rara capacidade de dissecar o enorme tormento que habita na alma humana.

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Foto: Leykung Kim

FICHA TÉCNICA
Texto: Raphael Montes
Direção e adaptação: César Baptista
Elenco: Dan Rosseto (Ale), Diogo Pasquim (Otto), Emerson Grotti (Dan), Felipe Palhares (Noel), Gabriel Chadan (Lucas), Helio Souto (Zak), Lorrana Mousinho (Maria João), Maria Dornelas (Ritinha) e Virgínia Castellões (Waléria).
Romance original: Raphael Montes
Assistente de Direção: Arno Afonso
Iluminação: Luís Antonio Farina
Trilha Sonora: César Baptista
Figurino: Rodrigo Reinoso
Direção de produção: Helio Souto e Virgínia Castellões
Produção Executiva: Felipe Palhares
Assessoria de imprensa: Minas de Ideias
Fotografia: Leykung Kim
Designer gráfico: André Kitagawa
Instagram: @espetaculoroletarussa


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