Crítica: Romeu e Julieta


 
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Foto: Caio Gallucci

Por Renato Mello

Não nego, havia um certo ceticismo inicial de minha parte. Por mais admiração que eu tenha ao texto de “Romeu e Julieta” e pelas canções de Marisa Monte, não enxergava uma liga entre ambos os universos. A escolha de Guilherme Leme Garcia para a direção foi um alento na percepção de um viés que passaria a pender mais para o artístico do que o comercial, inversamente proporcional ao que ocorreu com a última produção da Aventura Entretenimento, “Ayrton Senna, o Musical”. O resultado final é positivo. “Romeu e Julieta” é um bom espetáculo e apresenta consistente concepção cênica”. Alguns aspectos contribuíram para isso após os equívocos da Aventura na formatação de seus projetos anteriores, que parece ter agora encontrado um rumo apropriado, principalmente pela escolha acertada em alguns pontos centrais.

Romeu e Julieta” permanecerá se apresentando no Teatro Riachuelo numa generosa temporada que se estenderá até o dia 27 de maio.

Escrita por William Shakespeare provavelmente entre 1591 e 1595, “Romeu e Julieta” tem seu enredo fundamentado nas bases de uma novela de Matteo Bandello, um século antes, extraída de um conto medieval e que posteriormente recebeu tratamentos narrativos de escritores como Mascusio Salernitano, Luigi da Porto, Lope de Vega, Arthur Brooke e William Painter. Consta nos registros históricos que Shakespeare tenha tomado basicamente da reescrita do poema épico de Brooke e da prosa de Painter a elaboração do seu hibrido narrativo sobre o que muitos consideram “a mais bela história de amor de todos os tempos”, narrando as desventuras de dois adolescentes cuja morte acaba unindo suas famílias, outrora em pé de guerra. Carrega em suas entrelinhas uma reflexão interessante do inconformismo juvenil sobre o estabelecimento de regras cujas origens talvez os próprios protagonistas das desavenças desconheçam. O preço a pagar recai sobre o jovem casal, vítima de uma disputa que não lhes pertence, mas que normas seculares e tradições insanas os obrigam a assumi-las, em que os mancebos pagarão o preço que for preciso no esforço de libertação a um perpetuum mobile.

Inegável que a adaptação de Gustavo Gasparani, em parceria com Eduardo Rieche, prepondera na consistência dramatúrgica. Gasparani tem um histórico pessoal de excelentes trabalhos extraídos das linhas de Shakespeare, deslocando-o para outras contextualizações e formatações teatrais, como “Otelo da Mangueira” e “Ricardo III”, sabendo muito bem o terreno que estava pisando para construir a ponte de interligação dos adolescentes veroneses com as canções de Marisa Monte. Importante destacar nessa sistemática, além da conceitualização dessas canções para as respectivas ações, a elaboração do arranjo de Apollo Nove não buscou obrigatoriamente uma tonalidade na ambientação medieval, mas um revestimento às canções com alguns desses conceitos para molda-los numa estética comum, equilibrando de modo complexo o contemporâneo com registros temporais mais amplos. Nesse processo comum de criação entre o texto de Gasparani e Rieche com a direção musical de Apollo Nove, junção fundamental na credibilidade de uma proposta que se apresenta por aproximadamente 2 horas e 45 minutos, pouco se perde da obra matriz, todos os pontos nevrálgicos da obra original se encontram presentes, permitindo que mesmo “subvertida”, a peça tenha sua fluência shakespeariana ativa.

A solidez da concepção cênica de Guilherme Leme Garcia pode ser medida na maneira como geriu os diversos elementos e departamentos teatrais para a construção de seu “Romeu e Julieta”, que não se perde em grandiosidades estéreis, gerando significado às ações e boas soluções na idealização das cenas com um apurado senso estético, como no baile dos Capuleto e principalmente na lindíssima cena do casamento, com uma visão renascentista que igualmente me remetia ligeiramente a algumas imagens de Patrice Chéreau. Nas mãos de um diretor menos comprometido com o senso artístico, canções como “Beija Eu“, “Amor I Love You” ou “Já Sei Namorar” poderiam soar inteiramente deslocadas do que se espera de uma obra shakespeariana, mas ganham aqui um dimensionamento que flui na integridade das proposições de Guilherme Leme Garcia.  Corroboram nesse ordenamento as boas coreografias e movimentações criadas por Toni Rodrigues,  a formatação de um conceitual desenho de luz de Monique Gardemberg, os cenários de Daniela Thomas,  e os figurinos de João Pimenta que passeiam pela opção de uma paleta com cores neutras, puxando pelo branco, bege, marrom e preto, que caem adequadamente a toda uma conceituação visual, ressaltando-se ainda o detalhismo nos cortes e a beleza das formas.

Em relação a direção de atores uma bela ideia sem dúvida foi a composição de um elenco multirracial e melhor ainda, sua distribuição entre Montecchios e Capuletos. Nota-se alguma oscilação na direção de atores de Guilherme Leme Garcia, com atuação bastante consistente de Barbara Sut(Julieta), numa composição sutil, subitamente rompida nos arroubos de rebeldia de um personagem que pela sua configuração social é abstraída do direito à desejos e ideias próprias. Comprova a atriz em momentos cruciais uma técnica vocal que se molda às diferentes intensidades dramáticas.  Stella Maria Rodrigues(Ama) e Claudio Galvan(Frei Lourenço) apresentam-se em nível destacáveis, dominando com vigor o protagonismo das situações que a narrativa lhes disponibiliza, no caso de Stella em especial, quando exercita adoravelmente sua capacidade ao humor.  Entendo que a atuação de Thiago Machado(Romeu) estava um tom abaixo, embora correspondesse quando exigido vocalmente, enquanto Ícaro Silva se encontrava com uma tonalidade acima(Mercuccio) do que seria a modulação adequada e comum na coletivização do elenco, em gestos com algum grau de grandiloquência, quando um pouco mais de leveza cairia melhor. Kacau Gomes(Sra Capuleto), Marcello Escorel(Sr Capuleto) e Bruno Narchi(Benvoglio), atores com larga experiência conseguem manter o bom andamento dos personagens e boa densidade de suas cenas. O elenco se complementa com Pedro Caetano (Teobaldo) Diego Luri, Kadu Veiga, Max Grácio, Neusa Romano, Franco Kuster, Gabriel Vicente, Laura Carolinah, Luci Salutes, Saulo Segreto, Thiago Lemmos, Vitor Moresco, Gabi Porto, Santiago Villalba, Daniel Haidar e Natália Glanz.

Os cenários de Daniela Thomas são um dos pontos mais destacáveis do espetáculo, representando torres e balcões, mas com mobilidade e engenhosidade para  criar diferentes configurações cênicas, ao mesmo tempo que constrói uma ambientação austera, do qual a direção de Guilherme Leme Garcia se utilizou com bastante habilidade para as movimentações, distribuição cênica e na composição da atmosfera medieval.

Voltando ainda à esfera musical, a direção vocal de Jules Vandystadt atua com inteira perfeição na equalização da altura da narrativa com as canções, permitindo à direção de atores um bom dimensionamento das ações com as emoções.

Por fim, espero que este espetáculo não se inscreva numa particularidade momentânea da Aventura Entretenimento, mas uma mudança de rumo, deixando de lado as efemeridades. Nada contra o sucesso comercial, desde que haja conteúdo, priorizando os aspectos artísticos. Arte e sucesso comercial não são necessariamente excludentes, “Romeu e Julieta” é uma  prova.

Ficha Técnica:
Concepção e Direção: Guilherme Leme Garcia
Adaptação e roteiro musical: Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche
Colaboração Artística: Vera Holtz
Direção Musical: Apollo Nove
Direção vocal: Jules Vandystadt
Direção de Movimento: Toni Rodrigues
Lutas: Renato Rocha
Cenário: Daniela Thomas
Figurino: João Pimenta
Visagismo: Fernando Torquatto
Desenho de luz: Monique Gardenberg e Adriana Ortiz
Desenho de Som: Carlos Esteves
Desenho gráfico: Victor Hugo
Produção de Elenco: Marcela Altberg
Elenco: Bárbara Sut (Julieta), Thiago Machado (Romeu), Ícaro Silva (Mercuccio), Stella Maria Rodrigues (Ama), Claudio Galvan (Frei), Marcello Escorel (Sr. Capuleto), Kacau Gomes (Sra. Capuleto), Bruno Narchi (Benvoglio), Pedro Caetano (Teobaldo) Diego Luri, Kadu Veiga, Max Grácio, Neusa Romano, Franco Kuster, Gabriel Vicente, Laura Carolinah, Luci Salutes, Saulo Segreto, Thiago Lemmos, Vitor Moresco, Gabi Porto, Santiago Villalba, Daniel Haidar e Natália Glanz.

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