Crítica: Rush


 

Existem duas maneiras de se assistir “Rush”: com o olhar crítico dando atenção a questões técnicas e dramatúrgicas ou com o olhar de um apaixonado por Fórmula 1 e sua história.

Do ponto de vista técnico “Rush” é um filme razoável, dirigido por Ron Howard, que sabe como poucos fazer entretenimento para grandes plateias, porém com algumas derrapagens na sua dramaturgia. Olhando do ponto de vista de um amante do automobilismo é um prazer reviver prazeres, imagens e sensações de momentos inesquecíveis de grandes embates dos anos 70 que fazem hoje parte da história do automobilismo.

Confesso que dessa vez procurei dar uma ênfase maior nesse 2º aspecto abordado, devido a enorme paixão e nostalgia que tenho daquela Fórmula 1, aonde um pirralho como eu começava a acompanhar corridas de automóveis nas manhãs de domingo ao lado do meu pai, me apresentando aqueles pilotos monstros sagrados e explicando detalhes e o contexto de cada corrida.

Até mesmo por me considerar, modéstia a parte, um conhecedor do automobilismo e de sua história, não pude deixar de reparar na fragilidade do foco escolhido por Ron Howard: a rivalidade entre Niki Lauda e James Hunt. Bem, botar Lauda e Hunt na mesma balança é algo desde o início inverossímil devido à diferença de estatura entre ambos. Lauda é seguramente um dos 10 maiores pilotos da história da Fórmula 1 enquanto Hunt foi um dos mais medíocres campeões mundiais da história(ao lado de Damon Hill e Jody Scheckter) que teve apenas 1 grande ano, o de 1976.  É justamente desse ano que Howard centra seu conflito principal, até porque existe um irresistível gancho a ser usado e aonde pode tratar de temas tão caros ao cinema americano, como competição, tragédia, superação e redenção.

Isso é história: em 1976 Niki Lauda caminhava a passos largos para se tornar bi-campeão mundial até que foi vítima de um dos mais terríveis acidentes da história, ocorrido no circuito de Nurbugring, aonde ficou durante minutos preso dentro do seu carro em chamas, que acabou por lhe queimar e deformar para o resto de sua vida sua fisionomia(Lauda inclusive esteve posteriormente várias vezes no Brasil para realizar plásticas com Ivo Pitanguy). Ficou mais de 30 dias internado e desenganado no hospital, aonde chegou a receber a extrema unção, enquanto James Hunt “se aproveitava” da ausência de Lauda para tirar a diferença de pontos. Apenas 42 dias depois Lauda voltava inacreditavelmente a um grid de largada e chegou a prova final do campeonato ainda com 3 pontos de vantagem sobre Hunt no decisivo Grande Prêmio do Japão, disputado debaixo de chuva torrencial. O desfecho da corrida? Veja o filme…ou dê um Google, porque como já disse, é história.

Imagens reais do acidente de Niki Lauda em Nurbugring

Um dos grandes trunfos do filme é que ele consegue nos fazer sentir no clima e nos bastidores daquela Fórmula 1, com as imagens trabalhadas e toda uma constituição da época e do ambiente muito bem executadas. Os atores Chris Hemsworth e Daniel Brühl interpretam com muita competência respectivamente Hunt e Lauda. Brühl usa inclusive uma prótese nos dentes que lhe ajuda a se aproximar bastante fisicamente de Lauda. Já que escolheu essa rivalidade como foco, a estrutura procura colocar em destaque a diferença total de personalidade entre ambos, um Hunt playboy, bon vivant, amante das festas, das mulheres e de todo um mundo mundano, para muitos, próximo a um selvagem e em contraste um Lauda metódico, disciplinado, cartesiano. Embora ambos sempre tenham tido uma língua ferina, até mesmo pela sua característica mais aberta, inconsequente e expansiva, as declarações de Hunt nunca foram levadas muito a sério, enquanto Lauda por sua introspecção e temperamento fechado consegue incomodar e cutucar mais na alma em suas críticas(ainda hoje é assim).

Howard almeja sempre atingir grandes públicos e para isso utiliza-se de uma estrutura simplificada, de repente até mesmo para levar o espectador americano(que desconhece o universo da Fórmula 1) para dentro da sua história, aonde abusa do recurso de se utilizar sempre o narrador da corrida para explicar didaticamente o que estava em jogo naquele momento. Mas tem o mérito de tratar seus personagens sem julgá-los, dando um caráter humano e sem mitificá-los, apresentando Lauda e Hunt como 2 homens comuns repletos de defeitos e virtudes.

Mas foi impossível não se encantar em vermos aquelas Ferraris e Mclarens da década de 70 lado a lado disputando cada curva de circuitos que hoje estão fora das temporadas de Fórmula 1, como Paul Ricard, Watkins Glen, Kyalami, entre outras, além de outras referências da época como a Tyrrell de 6 rodas(que meu pais dizia que só servia para ter mais pneu para furar), a saída de Fittipaldi da Mclaren, o comendador Ferrari, a Hesketh, Clay Regazzoni(um ótimo piloto) e quem procurar verá outras mais.

Entre a dramaturgia proposta e minha nostalgia, as lembranças daquelas manhãs de domingo falaram mais alto em mim, fazendo de “Rush” um filme que me deu grandes momentos de prazer, assim como prazerosas eram minhas manhãs de domingo, numa época(graças a Deus) sem Galvão Bueno.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

outubro 2017
D S T Q Q S S
« set    
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031