Crítica: Samba Futebol Clube


 

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Por Renato Mello.

4-estrelas12Depois de passagens repletas de sucesso no Centro Cultural Banco do Brasil e no Teatro Carlos Gomes, além de várias indicações aos principais prêmios teatrais do Rio de Janeiro em 2014, como o Shell e o Cesgranrio, o musical “Samba Futebol Clube” chega à sala Fernanda Montenegro do Teatro Leblon para mais uma temporada.

Escrito e dirigido por Gustavo Gasparani, “Samba Futebol Clube” parte a princípio de uma temática bastante batida, como seu título já sugere: samba e futebol. Mas Gasparani prova que não existe “tema batido” quando se tem talento e criatividade e eles são colocados em prática, contrapondo com uma certa preguiça e caretice com que alguns musicais recentes têm sido concebidos. A narrativa é justamente o grande acerto do espetáculo e a partir dela que uma série de elementos vão sendo adicionados para transforma-lo numa das grandes sensações do ano.

Tudo começa com uma típica narração radiofônica em que vai sendo contada a história dos primórdios do futebol brasileiro e carioca, com citações a nomes do fundo do nosso baú como Charles Miller e Oscar Cox. Com direito inclusive aquelas típicas inserções das vinhetas que estão na nossa memória afetiva de criança, de um tempo em que jogo transmitido na televisão era raro e TV a cabo então, nem em sonho. A partir daí não só a história do futebol vai sendo contada, mas por tabela vamos acompanhando a linha evolutiva da própria música brasileira, começando por “Um a Zero”, de Pixinguinha, passando por outros clássicos memoráveis como “Touradas em Madri”, “…E o Juiz Apitou”, “Praia e Sol”, “Na Cadência do Samba”, “Fio Maravilha”, “Samba do Ziriguidum”, “Goleiro”, “Voa Canarinho”, “Pra Frente Brasil”, “Aqui é o País do Futebol”, num total de 42 canções e com direito ao hino dos 4 grandes do futebol carioca.  Entre as músicas, um belo entrelaçamento de textos de autores como José Lins do Rego, Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar.

Mesmo no momento em que entra em cena a paixão clubística, ressaltando a rivalidade ou mesmo tirando humor de singulares aspectos de certos clubes(caso mais notório sobre o torcedor do Botafogo) o espetáculo o faz de uma maneira que mesmo o mais fanático torcedor consegue rir das próprias desgraças.

O dinamismo cênico e um elenco eclético, que no jargão futebolístico classificaríamos como “repleto de curingas”, emociona, faz rir, canta, dança e toca os mais diversos instrumentos. Acaba chamando a atenção para a questão da formação dos atores do teatro nacional, em que tempos atrás um ator com tal grau de ecletismo era um diferencial no mercado. Agora virou quase que pré-requisito e quem não se adequar vai ficar para trás ou no mínimo, muito limitado de possibilidades. Não é por acaso que o espetáculo tem sido indicado para todos os prêmios como Melhor Elenco, seria absurdo se não fosse. Mesmo nos prêmios que não existe tal categoria, a força do elenco é tal que foram indicados em conjunto à categorias especiais. Alan Rocha, Cristiano Gualda, Daniel Carneiro, Gabriel Manita, Jonas Hammar, Luiz Nicolau, Pedro Lima e Rodrigo Lima formam literalmente um elenco primoroso e completo. Há cerca de dez dias tive a oportunidade ver Daniel Carneiro em cena no espetáculo infantil “O Pequeno Autor“, ocasião em que me referi a ele aqui no Botequim Cultural como “um ator excepcional”. Depois de ver “Samba Futebol Clube”, o que mais posso acrescentar sobre Daniel Carneiro? Assim como todo o elenco desse musical: excepcional.

 Tecnicamente perfeito, “Samba Futebol Clube” tem um cenário multimídia interagindo permanentemente com os atores, que aliado com figurinos estilizados e um perfeito desenho de luz de Paulo César de Medeiros ressaltam a bela concepção visual criada por Gustavo Gasparani para contar sua história.

Um dos enormes méritos desse musical é que mesmo aquela célebre personagem feminina de Nelson Rodrigues que entrava no estádio e perguntava “quem é a bola?”(como era o caso de minha acompanhante) acaba por se render à efusão energética colocada em cena. Ao final, um hino que finalmente todos puderam cantar sem medo ou complexo, o mais belo de todos, do América. Afinal, não tinha mesmo nenhum torcedor do América no teatro. Bem…não tinha porque eu não levei minha mãe.

SAMBA FUTEBOL CLUBE
Teatro Leblon – Sala Fernanda Montenegro
Roteiro e direção de Gustavo Gasparani.
Com Alan Rocha, Cristiano Gualda, Daniel Carneiro, Gabriel Manita, Jonas Hammar, Luiz Nicolau, Rodrigo Lima e Pedro Lima.

FICHA TÉCNICA:
Nando Duarte (direção musical)
Marcelo Lipiani (cenografia)
Marcelo Olinto (figurinos)
Paulo Cesar Medeiros (iluminação)
Maurício Detoni (preparação e arranjos vocais)
hiago Stauffer (cenografia digital)
João Pimentel (pesquisa de textos)
Alfredo Del Penho (pesquisa musical)
Beto Carramanhos (visagismo)


Palpites para este texto:

  1. Muito interessante.

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