Crítica: Sangue


 
Foto Dalton Valério

Por Renato Mello

Após a boa montagem de “Demônios”, Bruce Gomlevsky retoma o universo do autor sueco Lars Nóren com o espetáculo “Sangue”, um texto escrito originalmente em 1994 e que se apresenta no Teatro de Arena do Sesc Copacabana.

Em “Sangue”, é perceptível alguns elementos muito presentes na obra de Nóren, utilizando questões psiquiátricas e psicossociais em embates advindos de perversões sexuais, violência e conflitos conjugais.  Conta a história de um casal exilado na França em razão de perseguições políticas da ditadura Pinochet. Rosa(Luciana Braga) é jornalista, Eric(Charles Fricks) é psicanalista. Ambos carregam a dor do abandono forçado de um filho pela truculência de um regime altamente opressivo. O drama de vida é exposto publicamente por Rosa num importante programa televisivo, entrevistada pela jornalista Madeleine H(Sura Berditchevsky). O paciente de Eric, Luca(Pedro Di Carvalho), portador de AIDS,  intervém ao casal de modo a catalisar toda  seus sentimentos, obsessões e dramas pessoais, trazendo enormes consequências nas suas vidas.

Nóren, propositalmente, data sua narrativa no próprio ano de criação da obra, 1994.  Sublinha especificidades mais pormenorizadas do que o mero espectro do fim da ditadura chilena alguns anos antes, se apoiando em pequenos artifícios para situar a obra na plena progressão epidêmica vivenciada no período, por citações estéticas sobre a música de Zbigniew Preisner(estranhamente qualificada de “kitsch”), o filme de Patrice Chéreau, “A Rainha Margot”, e em especial ao filme “Noites Felinas”,  que se tornou um ícone geracional na França pela forma quase autobiográfica, desprovida de qualquer remorso, com que o diretor Cyril Collard descreve a falência física em consequência de uma vida de excessos durante a  expansão indiscriminada da AIDS.

O texto apresenta problemas em 2 pontos básicos que residem tanto no desenvolvimento da sua história, como na ampliação excessiva do arco discursivo. A concepção de Noren nutre um caráter grandiloquente, que numa visão mais superficial até aparenta superioridade, mas que se aprofundarmos o olhar, vácuos narrativos se tornam perceptíveis, com opções dramatúrgicas que fazem das supostas reviravoltas movimentos antevistos. Seus buracos narrativos criam inverissimilidades e os desdobramentos resultam forçados.  A intenções do autor soam difusas, dificultando a compreensão sobre o que exatamente pretende discorrer. Seria a morte a resolução única para a tragédia humana? A base edipiana recebe um pedestal contemporâneo através da bissexualidade de Eric, encarnando sentimentos antagônicos do amor e rejeição. As comparações patentes com Édipo acabam por tornar os personagens objetivados, não permitindo ama-los ou odiá-los, ninguém a apiedar-se, fica-se indiferente ao mesmo tempo que o texto procura levantar  questões diversas, que mais diluem pela forma excessiva de como os temas se atropelam, seja a dor do exílio, o peso do passado, a opressão, a ausência dos pontos de referência primários, o drama privado estendendo-se ao campo social e político, e a manipulação dos desejos contraditórios dos indivíduos.

A concepção proposta por Bruce Gomlevsky tem a virtude de dar fôlego para uma narrativa previsível, permitindo captar tensões e expandi-las em bom grado. A cenografia assinada pelo próprio diretor, conjuntamente com Vinicius Fragoso, formada basicamente por caixas-baús que ganham diferentes formas e sentidos, permitem aos atores encontrarem um espaço físico adequado à construção de um jogo cênico em que Charles Fricks alcança uma atuação sólida, baseada numa neutralidade que não permite um decifrar imediato, se revelando por silêncios e pela sobriedade, que mesmo nos momentos mais agudos, o ator encontra a tonalidade apropriada. Luciana Braga se atém a um personagem que exterioriza a dor intrínseca, criando um contraponto ao universo de Eric(Fricks),mas num resultado de ligeira gradação ao alcançado por Fricks. Pedro Di Carvalho adota ao personagem um comportamento intemperante, que embora coerente com as linhas narrativas, há nuances corporais e expressivas demasiadas. Sura Berditchevsky arca com uma personagem, que independente da sua correção interpretativa, tem uma função desacertada por parte do autor, não cabendo responsabilidade à atriz.

O bom desenho de luz de Felício Mafra(Russinho) amplia as sensações das alturas emocionais do texto, contribuindo positivamente no limite das altercações  impostas na direção de Gomlevsky. Os figurinos de Maria Duarte se apresentam de forma conciliatória com os perfis característicos dos personagens.

Sangue” é um exemplo pouco usual de um espetáculo em que a direção consegue sobrepor-se a um texto equivocado e pretensioso.

Ficha Técnica:

Texto: Lars Norén / Tradução: Karl Erik Schollhammer / Direção: Bruce Gomlevsky / Elenco: Luciana Braga, Charles Fricks, Pedro Di Carvalho, Sura Berditchevsky (participação especial) / Cenário:  Vinicius Fragoso e Bruce Gomlevsky / Figurino: Maria Duarte / Direção musical: Marcelo Alonso Neves / Luz: Felicio Mafra (Russinho) / Assistência de direção: Bruna Diacoyannis / Fotos: Dalton Valério / Realização: SESC Rio / Direção de produção: Luiz Prado / Uma produção BG ArtEntretenimento Ltda / Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephan


Palpites para este texto:

  1. Renato amigo,

    que bom constatar que você voltou a escrever.
    espero que os problemas que te levaram a um tão grande hiato tenham sido sanados.

    grande abraço,

    Lionel Fischer

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