Crítica: Se Eu Fosse Iracema


 
Foto: Imatra

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Por Renato Mello.

Em cartaz somente até o próximo dia 6 de junho no Espaço Cultural Sérgio Porto, ocupando a Galeria Marcantonio Vilaça, o espetáculo “Se Eu Fosse Iracema” traz a cena teatral carioca uma proposta contundente sobre a problemática indígena.

Sem refugiar-se numa comodidade panfletária, o caminho dramatúrgico estabelecido por Fernando Marques busca abrir espaços para uma reflexão mais ampla, analisando diferentes vertentes entorno da complexidade do tema, mesclando depoimentos de índios, discursos, entrevistas e referenciando-se em filmes(“Índio cidadão?”, “Belo Monte, anúncio de uma guerra” e  “A lei da água”),assim como expõem-se em desenvolver um monólogo sem preocupações com uma linha comum,  resultando num material com um bom aprofundamento e que possibilita uma amplitude de opções cênicas que foram muito bem exploradas pelo diretor Fernando Nicolau e a atriz Adassa Martins.

A concepção de Fernando Nicolau é intimista. Justamente no que aparente é pequeno se faz a grandiosidade de um espetáculo que em nenhum momento abre brechas para qualquer tipo de dispersão. A cenografia reduz-se a um tronco de árvore cortado, único elemento físico interagindo com Adassa Martins, que dispõe em sua essência de uma série de simbolismos. A iluminação de Licurgo Caseira(que igualmente assina a cenografia) participa ativamente da narrativa, dialogando ao longo de toda a encenação com a composição da atriz, interferido nas marcações e no ritmo do espetáculo.

Foto: Imatra

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Mas a grande força propulsora de “Se Eu Fosse Iracema” reside na generosidade com que Adassa Martins doa seu corpo, voz e alma para compor uma atuação brilhante. Alterna a temperatura da atuação a partir de sutis referências, explorando as mais diferentes tonalidades com os mais escassos recursos e transformando-se inteiramente em cena a partir da utilização de seus vastíssimos recursos técnicos, como a exploração da técnica corporal, expressiva e vocal, encontrando a essência de distintos personagens em seus sofrimentos, fragilidades, revoltas ou mesmo vulgaridades. Adassa Martins é o tipo de atriz que em cena se agiganta, impossibilitando-nos tirar os olhos um segundo sequer de seus movimentos. Nada parece banal, nada escapa pela sua potência interpretativa, mesmo quando se “limita” a recitar artigos da Constituição. Na minha opinião, Adassa Martins é um dos principais nomes da cena teatral carioca neste ano, desde sua atuação no ótimo espetáculo “Santa Joana dos Matadouros” e mesmo em espetáculo que tenho restrição, como “Sinfonia Sonho”, que apresentou na ocupação da Inominável Companhia no CCJF. “Se Eu Fosse Iracema” traz apenas a constatação da sua versatilidade e inesgotável capacidade.

Luiza Fradin assina o figurino, confeccionado a partir da utilização de materiais como látex e borracha, que faz uma interessante composição em cena e se adequa bem com a proposta.

Apenas uma ressalva. Estive numa 2ª feira, quando o espetáculo se inicia às 19 horas na sala Marcantonio Vilaça, no pavimento superior. Durante a apresentação vazava o som vindo do saguão do Espaço Sérgio Porto com o burburinho do público que aguardava o espetáculo da sala principal às 20horas(“Cidade Correria”). “Se Eu Fosse Iracema” é um espetáculo que exige do seu público uma forte concentração e felizmente a pujança da interpretação de Adassa impediu que o encanto se quebrasse. Porém, é um assunto sério que a administração do Espaço Sérgio Porto tem que solucionar urgentemente.

Se Eu Fosse Iracema” emociona com sua boa dramaturgia e encanta pela maravilhosa interpretação.

Foto: Imatra

Foto: Imatra

SE EU FOSSE IRACEMA
Dramaturgia: Fernando Marques
Direção: Fernando Nicolau
Elenco: Adassa Martins
Iluminação e cenografia: Licurgo Caseira
Figurino e caracterização: Luiza Fradin
Trilha sonora original e desenho de som: João Schmid
Assistência de direção: LuCa Ayres
Direção de arte e projeto gráfico: Fernando Nicolau
Escultura do busto: Bruno Dante
Caracterização: Luiza Fardin
Fotografia: João Julio Mello (Imatra)
Produção executiva: Clarissa Menezes
Realização e produção: 1COMUM
Idealização: Fernando Nicolau e Fernando Marques

SERVIÇO
Espetáculo: Se eu fosse Iracema
Temporada: De 14 de maio a 6 de junho de 2016.
Local: Galeria Marcantonio Vilaça – ECM Sérgio Porto
Endereço: Rua Humaitá, 163 – Rio de Janeiro
Informações: (21) 2535-3846
Dias e horários: Sexta, sábado e segunda, às 20h. Domingo, às 19h.
Capacidade: 20 pessoas
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Gênero: Drama
Ingressos: R$20 (inteira) e R$10 (estudantes e idosos)


Palpites para este texto:

  1. Boa tarde,

    Amei a crítica, me deixou ainda mais interessado na peça. Mas há um erro no nome da figurinista, é Luiza Fardin, e não Fradin, sou amigo pessoal da família, e aguardo ansiosamente pelo espetáculo em Vitória!

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