Crítica: Sem Lugar Para Se Esconder


 

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4-estrelas12Quem conhece o Botequim Cultural sabe bem que temos acompanhado com bastante atenção o trabalho desenvolvido pelo jornalista Glenn Greenwald sobre o abuso de poder da NSA(Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos), desvendado através de matérias bombásticas, munidas de farta documentação que lhe foi confiada pelo ex prestador dessa agência, Edward Snowden e publicadas no jornal britânico “The Guardian”.

A avalanche detonada por Greenwald foi de tal grau de intensidade que é considerado o maior vazamento de documentos da história do governo dos Estados Unidos e fizeram de Edward Snowden um dos homens mais perseguidos do planeta, ao ponto de governos europeus recentemente terem fechado o espaço aéreo do avião presidencial da Bolívia, que transportava Evo Morales, pela simples suspeita de que Snowden estivesse a bordo.

Com lançamento simultâneo em todo o mundo, “Sem Lugar Para Se Esconder”(No Place do Hide) chega às livrarias revelando pela primeira vez com riqueza de detalhes os bastidores dessa intricada história, pelo ponto de vista de Greenwald. No Brasil a edição é de responsabilidade da Primeira Pessoa.

Dividido basicamente em 5 capítulos: “Contato”, “Dez Dias em Hong Kong”, “Coletar Tudo”, “Os Danos da Vigilância”, “O Quarto Poder”, além de um epílogo e de um anexo com vários documentos originais. “Sem Lugar Para Se Esconder” junta nesse trabalho um misto de relato dos acontecimentos, reflexões pessoais e explicações detalhadas de documentos que lhe foram confiados, fazendo do livro um instigante painel sobre a dimensão da invasão sem limites que está sendo praticada em escala planetária e indiscriminada pela NSA com a preciosa contribuição de grandes corporações e multinacionais, não necessariamente para proteção do cidadão norte-americano, mas também com finalidades político-diplomáticas-comerciais.

Como sua estrutura multifacetada, “Sem Lugar Para Se Esconder” apresenta diferentes características dentro do mesmo livro, há momentos em que Greenwald traça um ambiente digno dos mais interessantes livros de espionagem, em outros dá lugar para um crítico aguçado, por vezes furioso, da estrutura de vigilância montada pelo governo norte-americano e da subserviência da grande imprensa. Em outros momentos Greenwald abre espaço para uma abordagem mais analítica, que mesmo que despertem um menor interesse do leitor convencional, não deixa de ter explicações absolutamente relevantes para o conteúdo total do trabalho.

Dez Dias em Hong Kong” é um dos capítulos mais interessantes, aonde em 53 páginas, Greenwald narra de maneira frenética os momentos que precederam a(previsível) tempestade que estavam preparando, seu primeiro contato pessoal com Snowden, suas dúvidas e receios. Os bastidores dos seus embates com a direção do “The Guardian” por uma postura, na opinião de Greenwald, um tanto precavida e talvez relutante também é um dos pontos altos do capítulo.

Sobre suas angústias, Greenwald relata:

“Ver que a fonte daquele espantoso acervo de material da NSA era um homem tão jovem foi uma das experiências mais desconcertantes que já tive. Minha mente começou a percorrer depressa todas as possibilidades: seria aquilo uma espécie de fraude? Será que eu tinha perdido meu tempo indo até o outro lado do mundo? Como alguém tão jovem podia ter acesso ao tipo de informação que tínhamos visto? Como aquele rapaz podia ser tão entendido e experiente em matéria de inteligência e espionagem quanto a nossa fonte claramente era”…

O capítulo “O Quarto Poder” traz excelentes reflexões sobre o papel da mídia nesse processo todo, que coincide com opiniões que eu mesmo já tinha e cheguei a explicitar AQUI, mas também conta a maneira como essa mesma mídia lidou com o desafio imposto aos órgãos de segurança americanos por Greenwald:

Num dos trechos mais relevantes nessa discussão, Greenwald expressa:

 “Uma das principais instituições ostensivamente dedicadas a monitorar e supervisionar o poder do Estado é a imprensa especializada em política. A teoria de um ‘quarto poder’ visa garantir a transparência do governo e proporcionar um mecanismo para conter abusos, dos quais a vigilância secreta de populações inteiras sem dúvida é um dos exemplos mais radicais. No entanto, essa contenção só funciona se os jornalistas agirem contra aqueles que detém o poder político. Nos Estados Unidos, contudo, a mídia com frequência abdicou desse papel, mostrando-se subserviente aos interesses do governo e até mesmo amplificando suas mensagens em vez de examiná-las, além de fazer seu trabalho sujo”.

Greenwald também faz reflexões sobre o pelotão de fuzilamento a que foi submetido por parte dos seus pares:

“Embora a campanha para me denegrir fosse previsível, o esforço para negar meu status de jornalista, não, e suas potenciais ramificações eram drásticas. Dessa vez, a campanha também foi iniciada pelo New York Times, no mesmo perfil publicado em 6 de junho. No título, o jornal fez questão de se referir a mim usando um substantivo não jornalístico: ‘blogueiro’ especializado em vigilância no centro da controvérsia…

….A imprensa toda, então, iniciou um debate sobre se eu era mesmo um ‘jornalista’ ou alguma outra coisa. A alternativa sugerida com maior frequência era ‘ativista’…

…A palavra usada pra me qualificar era importante em vários níveis. Em primeiro lugar, a remoção da etiqueta ‘jornalista’ reduz a legitimidade da notícia. Além disso, transformar-me em ‘ativista’ poderia ter consequências jurídicas, ou seja, criminais”.

Por fim, conclui:

“A hostilidade em relação ao jornalista que deu a notícia – eu – talvez seja mais complexa. Em parte competição, em parte o troco por anos de críticas profissionais emitidas contras astros da mídia norte-americana, além, acredito, de raiva e até vergonha da verdade exposta pelo jornalismo crítico: notícias que irritam o governo revelam o verdadeiro papel de muitos repórteres corporativos, que é amplificar o poder.

O principal motivo para a hostilidade, porém, foi, de longe, o fato de os profissionais da grande mídia terem aceitado o papel de obedientes porta-vozes do poder político, sobretudo no que diz respeito à segurança nacional”.

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legenda reveladora e “controversa” da CNN

 No momento em que o mundo vive toda a revolução causada pela era digital e aonde todos os valores são difusos, “Sem Lugar Para Se Esconder” é um livro fundamental para os tempos atuais ao questionar o significado para os indivíduos e para os povos de até que ponto o estado de vigilância é realmente essencial, qual o limite que se deve permitir a invasão da privacidade em troca de segurança e até aonde a cooptação de grandes corporações digitais e órgãos da grande mídia extravasam os limites do que seria minimamente aceitável.


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