Crítica: S’Imbora, O Musical – A História de Wilson Simonal


 


Por Renato Mello.

Uma das mais controversas carreiras da história da música brasileira ganhou vida nos palcos teatrais através de “S’Imbora, O Musical – A História de Wilson Simonal”, que se encontra nas últimas semanas de uma temporada de enorme sucesso e casa lotada todas as noites no Teatro Carlos Gomes e em meados de abril voltará a estar em cartaz do outro lado da mesma Praça Tiradentes, agora no Teatro João Caetano, que igualmente possui as generosas dimensões que esse musical necessita, pela sua grandiosidade e pela permanente afluência de público.

A carreira e vida de Wilson Simonal são emblemáticas, uma grande lição de vida que merece um estudo aprofundado, o que tem ocorrido nesses últimos anos, com o resgate de sua controvertida figura em distintos segmentos artísticos. Poucos chegaram tão alto quanto Simonal, não conheço outro que tenha chegado tão baixo. Entender essa queda vertiginosa é o que livros, documentários, depoimentos e agora esse musical tiveram por objetivo em eras mais recentes. É conhecendo sua história que podemos perceber o quão efêmero pode ser o sucesso. Como alguém que chegou a ganhar mais que Roberto Carlos recebeu a pior pena que um artista pode receber? O ostracismo a que foi condenado possui uma enorme complexidade que não cabe em respostas simplistas. Como é notório, Simonal cometeu um enorme erro. Se era agente da repressão ou dedo-duro? Cada um que faça seu juízo e mantenha suas convicções.

Lançado no início dos anos 60 por Carlos Imperial no seu programa em meio a jovens artistas do rock nacional ainda em sua fase embrionária, Wilson Simonal desde o início chamou a atenção por sua grande voz, um senso de divisão único e uma capacidade de fazer que bem entendesse com o ritmo sem se afastar da melodia. O ecletismo foi outra marca, sabia se modular com enorme competência em qualquer gênero musical. Assim acabou parando no mítico Beco das Garrafas, lugar que pouco rendia financeiramente, mas grande prestígio conferia. No Beco Simonal continuou a encantar, agora para uma plateia seleta e influente, período em que lançou um dos seus grandes sucessos, “Garota Zona Sul” e posteriormente se tornou o melhor intérprete de Jorge Ben com os estrondosos sucessos de “País Tropical” e “Mais que Nada”. Com o passar do modismo e efervescência da Bossa Nova, voltou a gravitar na órbita de Imperial e em 1966 estourava com “Mamãe Passou Açúcar ni Mim”. Um dos seus mais marcantes momentos se deu em 1971, quando abriu um show para Sérgio Mendes no Maracanãzinho e regeu 15 mil vozes ao som da apropriação de Carlos Imperial “Meu Limão, Meu Limoeiro”. Quando Sérgio Mendes(no auge de sua carreira internacional) entrou para fazer seu show, ninguém estava mais interessado em ouvi-lo depois do estado de euforia despejado por Simonal pelo estádio. Poucos meses depois, praticamente falido, encrencou-se numa obscura história que envolvia o DOPS em pleno governo Médici e viu sua carreira ser destruída. A partir desse episódio se transformou num pária. Sem gravadora, amigos e sem nenhum de seus discos disponíveis em qualquer loja, foi praticamente apagado da memória nacional. Passou suas últimas décadas tentando comprovar que jamais teria sido um informante do regime militar.

S’Imbora” tem seu início justamente a partir do famoso imbróglio em que se meteu, quando seu contador foi torturado a mando de Simonal. O espetáculo volta então no tempo para contar de maneira cronológica a ascensão, glória e queda do artista. O seu resultado final é bem sucedido, conseguindo encantar. Tem falhas, que abordaremos no texto, mas possui também inúmeras qualidades. São 3 horas de duração divididos em 2 atos muito bem demarcados. No 1º e maior, acompanhamos o galgar até a fama e o sucesso estrondoso, num ritmo que expõe uma enorme explosão de energia emanada pelo ótimo elenco. O 2º ato já apresenta uma transição, baixando e acinzentando o semblante no seu transcorrer, incluindo a função de personagens, como o próprio Wilson Simonal e também o de Carlos Imperial.

Além da vida de Simonal, o musical de certo modo e indiretamente acaba nos levando um pouco para o ambiente dos bastidores da televisão brasileira num dos seus momentos mais interessantes, mais particularmente a TV Record, que em fins dos anos 60 realizou alguns programas que já fazem parte da história da nossa televisão, como “O Fino da Bossa”, “Jovem Guarda”, “Show em Si…Monal”, “S’Imbora” e os programas apresentados por Imperial nas extintas TV Continental, Tupi e TV Rio, que lançaram para o estrelato uma penca de artistas que mais tarde seriam o núcleo principal da própria Jovem Guarda. Juntamente com outro belo musical que esteve recentemente em cartaz, “Agnaldo Rayol, a Alma do Brasil”, protagonizado por Marcelo Nogueira, “S’Imbora” forma um interessante painel do que foi esse ambiente nos anos 60. É muito bom vermos essa memória ser resgatada com tanta força em tão bons espetáculos musicais.

simonal 2

O seu ponto fraco reside na estrutura dramática, o que poderia ter sido fatal. Pode ser um pouco paradoxal afirmar que o espetáculo é bem sucedido e ao mesmo tempo criticar seu roteiro. Sei que muitos discordarão de tal afirmação, mas o gênero musical tem suas peculiaridades e fascínios que apesar do roteiro, ainda assim pode-se afirmar que se trata de um belo espetáculo teatral que empolga o espectador ao longo de toda sua duração. Escrito por Nelson Motta e Patrícia Andrade, segue a mesma linha já utilizada em espetáculos anteriores escritos pela dupla, que apesar de terem sido enormes sucessos, careciam exatamente do mesmo problema. Assim foram com as transposições teatrais de Tim Maia, Elis Regina e agora com Wilson Simonal. Em todos esses casos há um desenvolvimento que se apoia no gigantismo da obra, vida e personalidade dos retratados e que tiveram excelentes artistas os vivenciando(Tiago Abravanel, Laila Garin e agora Ícaro Silva, respectivamente).

Como me referi acima, “apesar do roteiro, ainda assim pode-se afirmar que se trata de um belo espetáculo teatral”. Um dos responsáveis é o diretor Pedro Brício, que não se acomodou, não se deixou engessar com o texto e conseguiu realizar boas recriações com belas e interessantes sequências, plenas de dinamismo, beleza cênica e boa ocupação do generoso espaço cenográfico que o Teatro Carlos Gomes oferece, fazendo de “S’Imbora” um espetáculo de muito bom nível. Pedro ainda é responsável direto por outro aspecto absolutamente fundamental para o êxito artístico do espetáculo, a condução ao um belo nível de atuação do seu elenco, em especial de Ícaro Silva.

simonal1

A atuação de Ícaro Silva interpretando Wilson Simonal é uma das mais interessantes que pude presenciar nos últimos tempos. Não me recordo de ter visto uma interpretação masculina no recente teatro musical que tivesse me encantado tanto. Trata-se de um belo trabalho de composição que conseguiu com enorme perfeição captar a essência e a alma de Simonal. São os trejeitos, o sorriso, o modo de cantar, a expressão facial, os pequenos detalhes estão todos ali, até a força do olhar. Além disso, canta lindamente, grande personalidade em cena e boa presença de palco. No 2º ato quando presenciamos sua decadência há um maior trabalho corporal em relação ao passar da idade e impressiona como todo aquele brilho do olhar se perde em meio a decadência do homem e do artista. Parece que Ícaro teria passado numa seleção com mais de 1000 pretendentes ao papel, verdade ou lenda, a escolha foi perfeita. Uma atuação memorável, que faz o ator mudar seu patamar dentro do cenário artístico nacional e digna de se pleitear alguns dos mais importantes prêmios teatrais do país.

Thelmo Fernandes tem a ingrata missão de compor um personagem que por si só já é bastante caricatural. Mas o ator, que possui um notório talento, consegue achar um tom correto sem partir para a tentação do exagero e da grandiloquência, para criar um personagem que tem a função de aproximar o público do universo em cena. Há uma diferença em sua função em cena no 1º e 2º atos, enquanto na parte inicial o personagem está diretamente inserido no contexto da história, mas sem perder a função de narrador, na 2ª parte ele se torna praticamente apenas um narrador. Mas isso não quer dizer que ocorra uma queda no interesse do seu personagem ou na sua atuação.

simonal 3

Gabriela Carneiro da Cunha vive Tereza, mulher de Simonal. A atriz demonstra em cena estar bastante à vontade e desenvolta nas diferentes exigências que lhe são impostas, seja como atriz ou cantora. Marino Rocha, um grande ator que tive o prazer de conhecer no ano passado, interpreta diversos papeis. Dono de uma voz única, potente e tão característica, fica impossível não deixar de notar sua presença no palco. Grande ator é Marino Rocha! Victor Maia é um outro destaque. Sua interpretação de Eduardo Araújo pode até ser considerada caricatural, de fato é(propositalmente), mas é um dos momentos mais divertidos do espetáculo. Os demais integrantes do elenco não fazem apenas mera figuração, todos tem seu momento e sua função em cena. Kotoe Karasawa, por exemplo, protagoniza outro momento delicioso do espetáculo no seu “duelo” de dentro do auditório com Simonal. Assim como Ariane Souza, Cássia Raquel, Dennis Pinheiro Gabriel Stauffer, JG D’Aleluia, JP Rufino, Kadu Veiga, Natasha Jascalevich e Paulo Trajano se revezam em situações de maior ou menor destaque dependendo do contexto, mas sem deixar em nenhum momento de ser um harmonioso elenco.

Em cena, todos os clássicos e êxitos de Simonal são apresentados, além de canções que marcaram um momento ou cena específica de sua carreira. Todas apresentadas com total fidelidade ao espírito do artista. Estão lá, “Sá Marina”, “Meu Limão, Meu Limoeiro”, “Nem vem que não Tem”, “Vesti Azul”, “Tributo a Martin Luther King”, “País tropical”, “Vou Deixar Cair”, “Lobo Bobo”, “Zazueira”, entre outros. Cenas históricas são recriadas, diálogos e encontros são compostos um a um para formar um todo, como o dueto com Sarah Vaughan, a já citada cena do Maracanãzinho, entre outros momentos.

Os cenários de “S’Imbora” foram criados por Helio Eichbauer e tem bastante funcionalidade para a história narrada, com alterações de acordo com o que necessitava cada cena, seja através de projeções, ou de composições de ambientes com os brilhos típicos da televisão brasileira da década de 60, que foram bem destacados através do bom trabalho de iluminação de Tomás Ribas.

Fundamental para o bom trabalho de direção de Pedro Brício ótima execução na direção de movimentos e coreografia do sempre eficiente Renato Vieira.

Um destaque especial para os figurinos de Marilia Carneiro, com um importante trabalho de pesquisa, extremamente fiel e adequado para a ambientação necessária ao espetáculo.

Os arranjos e a orquestração de Alexandre Elias são elementos essencial para o êxito do musical, com enorme fidelidade ao swing e a altura das canções apresentadas. Dignos de uma orquestração utilizada por Wilson Simonal nos seus áureos tempos e que são fundamentais para que o público seja tomado pela carga e força das canções inesquecíveis de Simonal.

S’Imbora” é um musical daqueles que o público deixa o teatro com um misto de felicidade por ter vivenciado um pouco da vida de um dos mais incríveis artistas da nossa música e com uma ponta de amargura por testemunhar o que fez(e fizeram) de sua carreira: rápida, fugaz, mas inesquecível. Apesar de quase ter sido apagada da história.

Temporada:
Teatro Carlos Gomes
Quinta a sábado 20h | Domingo 18h
15 de Janeiro a 12 de Abril de 2015
Ingressos: R$ 80,00 a R$ 90,00
* A partir de 17 de abril no Teatro João Caetano

S’Imbora, O Musical – A História de Wilson Simonal

Texto: Nelson Motta, Patrícia Andrade
Direção: Pedro Brício
Direção musical: Alexandre Elias
Cenografia: Hélio Eichbauer
Figurino: Marília Carneiro
Coreografia: Renato Vieira
Produção: Luiz Oscar Niemeyer
Elenco: Ícaro Silva, Thelmo Fernandes, Gabriel Staufer, Victor Maia, Gabriela Carneiro da Cunha, Kadu Veiga, Marino Rocha, Marina Palha, Jorge Neto, Paulo Trajano, Cássia Raquel, Dennis Pinheiro, Lívia Guerra, Natasha Jascalevich, Kotoe Karasawa, Ariane Souza, JP Rufino, JD d´Aleluia


Palpites para este texto:

  1. Como sempre a maioria de nossos (críticos) esquecendo de falar direção musical
    e dos músicos. o nome diz MUSICAL

  2. moderação?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

dezembro 2017
D S T Q Q S S
« nov    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31